Manejo de verão: cuidados na lactação

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    Suínos

Os avanços genéticos e nutricionais ocorridos na suinocultura possibilitaram um incremento significativo na produtividade das matrizes. Leitegadas de 13 a 14 leitões estão cada vez mais presentes. Neste contexto, a fase de aleitamento tornou-se muito importante para compor o índice de desmamados/porca/ano. A exigência sobre a matriz para uma boa produção de leite aumentou. Conhecer e compreender os fatores associados à produção de leite e suas interferências é fundamental para alcançarmos os resultados esperados e para traçar estratégias de trabalho eficazes. Entre os animais domésticos, os suínos são os mais sensíveis a altas temperaturas.

Esta característica deve-se ao metabolismo elevado e à espessa camada de tecido adiposo. Soma-se a estas a baixa capacidade para dissipar calor em função de possuírem um sistema termorregulador pouco desenvolvido. A elevação da temperatura retal pode ser fatal quando atingir valores de 44,5°C, uma vez que os suínos não têm a capacidade de sudorese (Lee & Phillipis). Os suínos são animais homeotérmicos. Isto significa que a temperatura corporal mantém-se dentro de uma faixa (38 a 39°C), independentemente da oscilação da temperatura ambiental. Para que esta necessidade seja atendida, o ambiente em que os animais são alojados deve oferecer condições adequadas. Na tabela 1, está descrita a zona de termoneutralidade para cada fase de produção, demonstrando qual é a zona de conforto e as temperaturas críticas mínimas e máximas toleradas.

A maternidade é um setor diferenciado dentro da granja no que diz respeito ao controle da temperatura. O desafio é fornecer temperatura adequada tanto para os leitões quanto para as matrizes. Assim sendo, é impossível manter um ambiente único que seja agradável tanto para os leitões quanto para as matrizes. Comumente, observa-se uma preocupação em fornecer um ambiente agradável para os leitões e deixa-se a desejar a preocupação com o conforto das matrizes. A manutenção das matrizes lactantes fora da zona de conforto térmico compromete a ingestão de alimento e a produção de leite. A produção de leite é influenciada por diferentes fatores, entre os quais podemos citar: tamanho da leitegada, frequência de mamadas, intensidade das mamadas, tamanho do leitão, consumo de ração pela matriz, qualidade da ração fornecida, temperatura ambiente, ordem de parto, fase da lactação e genética. Uma das principais características climáticas no sul do Brasil é a presença de invernos rigorosos e verões com temperaturas elevadas. Neste cenário, a adoção de estratégias de manejo e nutricionais apropriadas para épocas quentes é fundamental. Dentre os fatores que influenciam a produção de leite, acima citados, abordaremos com mais detalhes o consumo de ração pela matriz e a temperatura ambiente.

Consumo de ração - A alimentação das matrizes em lactação tem como principal objetivo possibilitar o desmame de uma leitegada numerosa e com bom peso. O consumo, muitas vezes, é estimado, pois não se realizam pesagens das quantidades de ração fornecida às porcas. Portanto, o primeiro passo para certificarmo-nos de que as matrizes estão ingerindo a quantidade de ração desejada, é avaliarmos e mensurarmos o desperdício de ração. Leitegadas amamentadas por matrizes que apresentaram uma queda no consumo de ração de no mínimo 1,6 Kg por pelo menos 2 dias, tiveram menor peso ao desmame em relação a leitegadas provenientes de matrizes que apresentaram uma constância na ingestão de ração durante a lactação (Koketsu, 1996). O efeito do consumo de ração sobre a produção de leite torna-se mais evidente de acordo com a progressão da lactação, ou seja, ao passo que a lactação avança, o impacto do aumento no consumo de ração torna-se mais importante. De acordo com Koketsu (1997), um incremento no consumo de 1 kg/dia durante a primeira semana de lactação resultou em um aumento de 0,33 Kg no peso da leitegada ao desmame, enquanto que a segunda e terceira semana propiciaram um incremento de 0,51 e 0,74 Kg no peso da leitegada ao desmame, respectivamente. A demanda energética da matriz suína para a produção de leite pode chegar até 100% do total da energia consumida, isto é, uma fêmea que consome 20.400 Kcal por dia pode utilizar até 20.400 kcal por dia para produzir leite. Esta característica demonstra a grande necessidade energética que uma matriz suína tem para produzir leite. Fica claro, desta forma, que a produção de leite é prioritária e que os demais tecidos ficam em segundo plano. Mesmo ocorrendo um consumo adequado de energia, ocorre uma mobilização de reservas corporais. Outro ponto importante sobre o consumo de ração na lactação é o efeito da ingestão proteica e energética no crescimento e desenvolvimento do aparelho mamário. A ingestão de 16,9 Mcal de energia metabolizável e 55 gramas de lisina por dia é positiva para o desenvolvimento das glândulas mamárias. Ao longo da lactação, com o aumento do consumo energético, houve um maior crescimento das glândulas mamárias. Fisiologicamente, o consumo de ração é menor após o parto e aumenta de acordo com o passar da gestação. Além desta característica, o consumo pode ser afetado por demais fatores, entre os quais, a temperatura ambiental é o mais importante.

Temperatura ambiental - Nos períodos quentes do ano, a alta temperatura ambiental é responsável por grande parte dos problemas relacionados ao consumo de ração na maternidade pelas matrizes. Dados de literatura sugerem que, para cada grau acima da temperatura de conforto, o consumo diminui de 300 a 400 Kcal de energia digestível por dia. Além de afetar o consumo energético, altas temperaturas interferem na produção de leite. A ingestão de água também sofre influência da temperatura ambiental. Animas sob estresse térmico (passando calor) podem aumentar a relação litros de água/kg de ração ingeridos de 3:1 para 5:1. Quando matrizes suínas são submetidas à ambientes com diferentes temperaturas, podemos notar diferenças nos pesos dos leitões desmamados assim como diferença na quantidade de ração consumida por estas matrizes (Messias de Bragança) (Tabela 2). Comparando os grupos de matrizes que foram alojados em um ambiente com temperatura de 20°C (grupos 1 e 2), observa-se que, mesmo com um consumo de ração menor, as matrizes do grupo 2 desmamaram leitões com peso semelhante às leitões do grupo 1, que receberam ração à vontade. Isto foi possível graças a uma maior mobilização de reservas corporais, que pode ser evidenciada pela maior perda de peso e espessura de toicinho. Quando comparamos os grupos 2 e 3, observamos que, mesmo com um consumo de ração muito parecido as matrizes que foram alojadas em um ambiente de 30°C (grupo 3) desmamaram leitegadas com menor ganho de peso. Houve uma menor mobilização das reservas corporais para a produção de leite.

Com base nos resultados deste autor, podemos inferir que a temperatura ambiental tem um maior impacto sobre a produção de leite do que propriamente o consumo de ração. Em uma situação deconforto térmico (20°C), as matrizes que consumiram pouca ração foram capazes de mobilizar as reservas corporais para a produção de leite, contrapondo as matrizes que foram alojadas em ambiente de estresse térmico (30°C), que mobilizaram reservas, mas não conseguiram manter o desempenho da leitegada. Em suma, a produção de leite é prejudicada quando as matrizes estão sob estresse térmico e também quando o consumo de ração é restrito. Neste contexto, torna-se imprescindível, para que a matriz tenha uma boa produção de leite, a adoção de medidas para o controle da temperatura ambiente nas salas de maternidade assim como um planejamento nutricional adequado para épocas quentes, não esquecendo do fornecimento de água. Cada sistema, cada granja deve procurar avaliar o que pode ser melhorado e implantado para que o controle da temperatura dentro das salas de maternidade seja mais eficiente e, desta forma, melhores resultados neste setor possam ser alcançados.

  • Alisson Carlos Tedesco Schmid

    Alisson Carlos Tedesco Schmid

    Médico Veterinário formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Coordenador Técnico Comercial de Suínos da Nutron Alimentos.

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