Alta prolificidade e baixo desempenho de leitões na maternidade, um desafio contemporâneo

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    Suínos

Constantemente, as empresas de genética têm avançado muito em relação à seleção de linhagens de fêmeas para produzir número cada vez maior de leitões, com o objetivo de torná-las hiperprolíficas. Como consequência, surgiram problemas relacionados ao baixo peso de leitão ao nascimento e leitegadas desuniformes, além da falta de tetos para esses leitões excedentes. Outro fator importante está ligado à viabilidade e vitalidade dos leitões menos favorecidos, em virtude do baixo peso ao nascer. Ao mesmo tempo em que nascem mais leitões, muitos acabam morrendo durante a fase de lactação, principalmente durante os primeiros dias de vida. Essa leitura faz abordagens sobre o manejo de leitões com baixo peso ao nascimento e também sobre as perdas com mortalidade, bem como as suas causas durante o período de lactação dos leitões.

Leitões de baixo peso ao nascimento

Um novo desafio no setor de maternidade é a administração de leitegadas cada vez maiores (Figura 1). Soma-se a este a falta crônica de mão-de-obra nas granjas, quadro de muitos leitões nascidos (alguns com baixo peso,

Figura 1 – Evolução do número médio de leitões nascidos vivos (MNV) por parto desde 2007 a 2013 de granjas que utilizam determinado sistema de gerenciamento

O menor peso ao nascimento predispõe à baixa taxa de sobrevivência, sendo este efeito verificado em leitões com média de peso inferior a 1,0 kg (Tabela 1). Além disso, leitões com peso baixo possuem menores níveis de reservas energéticas corporais, maior sensibilidade ao frio, demoram mais tempo para atingir o complexo mamário e mamar efetivamente, além de terem menor habilidade em escolher os melhores tetos.

Tabela 1 – Evolução da taxa de sobrevivência em relação ao peso ao nascimento

Não é apenas a sobrevivência que é afetada. O peso ao nascimento também interfere no peso ao desmame (Tabela 2) e no desempenho posterior até o abate. Os leitões leves apresentam maior superfície em relação ao peso corporal, menor reserva de lipídeos e glicogênio, reduzida capacidade de manter a homeotermia e fatores que favorecem a redução da temperatura corporal após o nascimento (Furtado et al., 2009). Dessa forma, ficam predispostos à hipotermia e/ ou à hipoglicemia, estando mais propensos a esmagamentos, baixo desenvolvimento e infecções secundárias.

Adicionalmente, existem outros fatores que ocorrem durante o período de lactação que afetam o peso de alguns leitões durante o período lactacional, o que pode ser observado entre 4 e 8 dias de vida. Abaixo estão listados alguns destes fatores:

  1. Alto número de leitões nascidos, o que leva à falta de tetos disponíveis
  2. A produção de leite não é uniforme ao longo do aparelho mamário. As glândulas peitorais produzem mais leite e os leitões mais pesados são os que mamam nos primeiros pares de tetos
  3. Algumas porcas (principalmente as de ordem de parto elevada) não expõem todos os tetos abdominais (os últimos pares)
  4. Aparelho mamário com tetos danificados ou não funcionais
  5. Fêmeas que possuem baixa produção de leite que não atendem a exigência para o crescimento esperado da leitegada

Matrizes alojadas em ambientes com temperatura acima da zona de conforto (22 - 25ºC) reduzem a produção de leite como consequência da queda no consumo de ração.

Perda de leitões durante o período de lactação

Segundo Mores (1993), as causas de mortalidade de leitões na maternidade são inúmeras, porém a maioria de

Tabela 2 – Peso de leitões aos 7, 14 e 21 dias de idade de acordo com a classe de peso ao nascimento

natureza não infecciosa, como esmagamento e inanição (hipoglicemia). Os leitões mais fracos são os mais atingidos e representam cerca de 65% do total dessas perdas. Os principais fatores relacionados são:

• Tamanho da leitegada, quando leitegadas maiores tendem a apresentar maior taxa de mortalidade

• Peso individual ao nascimento, sendo leitões pequenos menos aptos a competir pelo leite da porca

Em fêmeas de primeira cria estes fatores podem ser agravados pela menor capacidade de transferência de imunidade passiva aos leitões, habilidade materna e produção de leite.

A mortalidade de leitões na maternidade representa grande potencial na produtividade da granja, já que ainda há granjas com taxas de mortalidade de até 15%. Em um cenário normal, a maior causa de mortalidade é o esmagamento dos leitões pela fêmea. O esmagamento pode aumentar em granjas que não fornecem ambiente adequado para os leitões, em instalações precárias, em fêmeas com agalaxia, quando há leitões com baixo peso ao nascimento ou nos casos em que há desuniformidade de peso na leitegada.

Em granjas que apresentam cenário de baixo peso ao nascimento, os gráficos das causas de mortalidade mostram claramente o problema. Observando um exemplo de uma granja situada no Rio Grande do Sul (Figura 2), nota-se que 82,14% das causas de mortalidade estão relacionadas com esmagamento (40,73%), eliminado por baixo peso ao nascimento (17,97%), eliminado/refugo (13,87%) e inanição (9,57%). Estas últimas três causas de mortalidade estão diretamente correlacionadas ao baixo peso ao nascimento. Leitões com baixo peso ao nascer ingerem quantidade insuficiente de colostro e de leite, tornando-os mais predispostos a infecções secundárias e eliminados por causa da refugagem ou inanição.

Uma alternativa para redução da mortalidade por esmagamento é a adição de barras antiesmagamento nas celas parideiras. No momento em que a fêmea deitar, a barra impede que esse movimento seja brusco, havendo tempo suficiente para os leitões saírem debaixo da fêmea e se protegerem nas laterais da cela parideira

Figura 2 – Gráfico de causas de mortalidade de leitões na maternidade no período de um ano em uma granja do Rio Grande do Sul

Estratégias para granjas com alta produtividade e baixo peso ao nascimento

Outros fatores que impactam negativamente a produção de leitões desmamados são: fêmeas com menos tetos que leitões, tetos secos ou não funcionais, plantel de fêmeas demasiadamente novo ou velho, falta de utilização de ração específica para a fase de pré-parto e de maternidade, morte da fêmea. Bortolozzo & Wentz (2005) elencaram nove estratégias de diversos autores para aumentar a sobrevivência de leitões de baixo peso ao nascimento:

1. Leitegada com mais de 12 leitões ao nascimento: prender os mais pesados no escamoteador enquanto os mais leves mamam por período de uma hora por, pelo menos, duas oportunidades

2. Identificação dos leitões pela ordem de nascimento, permitindo que a segunda metade da leitegada (a partir do sexto leitão) mame o colostro, enquanto a primeira metade que já mamou fica no escamoteador (40-50 minutos), para assegurar homogênea ingestão de colostro

3. Realizar o manejo 40 x 20 (nos primeiros cinco a sete dias de vida), que consiste em manter os leitões fechados por 40 minutos no escamoteador e 20 minutos mamando, como auxílio na ingestão do colostro

4. Formação de leitegadas com peso similar

5. Fornecimento de eletrólitos via água nos primeiros três dias

6. Fornecimento, via oral, de 3 ml de glicose 10% ou 12 a 20 ml de colostro para os leitões hipotérmicos, como também acondicioná-los em uma caixa com fonte de aquecimento

7. Fornecimento de leite ou produtos que substituem o leite da porca

8. Suplementação com energéticos durante os primeiros dias de vida

9. Retardar a castração para o décimo dia de vida

Além desses manejos, as mães de leite podem ser outra alternativa em granjas onde a produtividade de leitões é elevada e o número de tetos é insuficiente para o número de nascidos. Nesse caso, deve-se reter fêmeas que seriam desmamadas na maternidade para alocar o número excedente de leitões, além de transferir animais entre os lotes de maternidade. Na maioria das vezes são utilizadas fêmeas de descarte para a realização deste manejo. Porém, por ser fêmea de descarte, muitas vezes os leitões não se desenvolvem como o esperado. As mães de leite devem ser porcas com aparelho mamário excelente para dar oportunidade aos leitões para mamarem quantidade suficiente de leite e obter desempenho semelhante ao que teriam em suas mães biológicas.

Nesse ponto de vista, geralmente as porcas de descarte não são uma boa opção. Por outro lado, se selecionarmos uma porca que não for descarte, a mesma permanecerá por mais tempo na lactação, aumentando o intervalo entre partos e diminuindo o número de leitões desmamados por porca/ ano. Atualmente, já existem alternativas para amamentar os leitões excedentes/refugos sem a utilização de mães de leite, sejam elas porcas de descarte ou não.

Uma delas é o uso de substitutos de leite em equipamentos automáticos que disponibilizam o leite para os leitões durante as 24 horas do dia. Esses sistemas também reduzem a mortalidade por esmagamento, visto que os leitões são retirados das fêmeas e alimentados por um equipamento, o qual não oferece risco aos leitões. A utilização desses equipamentos também reduz a mão-de-obra quando comparado ao fornecimento manual do leite, já que o mesmo deve ser disponibilizado várias vezes ao dia.

Considerações finais

A sobrevivência de leitões na maternidade e o desempenho dos suínos até o abate têm grande dependência do peso do leitão ao nascimento. As fêmeas hiperprolíficas produzem maior número de leitões nascidos por leitegada, o que resulta em menor peso médio ao nascimento e, consequentemente, maior variabilidade de peso desses leitões. O baixo peso ao nascimento também aumenta as taxas de mortalidade na maternidade, fazendo com que práticas de manejo sejam adotadas a fim de minimizar esse efeito. A melhoria contínua do manejo, instalações e também de equipamentos disponíveis para a suinocultura proporciona evolução constante nos índices produtivos das granjas. A adoção de novas tecnologias é a chave para buscar a máxima eficiência econômica na suinocultura tecnificada.

  • Tiago José Mores (Consultor Técnico de Suínos) e Felipe Ceolin (Consultor Técnico Nutrição SC/RS), Cargill Alimentos – Nutron

    Tiago José Mores (Consultor Técnico de Suínos) e Felipe Ceolin (Consultor Técnico Nutrição SC/RS), Cargill Alimentos – Nutron

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