Terapia de proteção pulmonar: Uma nova abordagem clínica da doença respiratória bovina

Há poucos anos, era comum se ouvir que o Complexo Doença Respiratória Bovina (DRB) seria raro no Brasil, muito mais uma doença de livros de autores do Hemisfério Norte que um problema real para nós. Mas foi uma questão de tempo... A evolução tecnológica da pecuária trouxe consigo os desafios típicos dos sistemas intensivos de produção. A ampliação do uso de confinamentos para a engorda do gado de corte criou os fatores predisponentes – estresse, em suma – para o aumento da prevalência da DRB na pecuária nacional. Hoje ela já é percebida como um dos principais desafios sanitários do confinamento, sem esquecer sua importância em rebanhos leiteiros, sobretudo em animais jovens.

DOENÇA MULTIFATORIAL

Também conhecida por Febre dos Transportes, Pneumonia e Pasteurelose Pneumônica, esta enfermidade é tratada como "Complexo" pela conjugação de fatores predisponentes e agentes etiológicos envolvidos. Os agentes infecciosos, vírus e bactérias, estão frequentemente associados e desencadeiam a doença a partir de uma condição de imunossupressão do animal. As causas desta imunossupressão são vistas na Figura 1.

1

A partir da imunossupressão provocada pelo estresse, um ou mais agentes virais (IBRv, BVDv, PI3v e BRSV) usualmente iniciam o processo, e são seguidos por bactérias como Manheimyia haemolytica, Pasteurella multocida, Histophilus somni e Mycoplasma bovis.

Estes agentes infecciosos produzem um processo inflamatório de broncopneumonia, por vezes de pleuropneumonia, que se traduz por febre, perda de apetite, secreção mucopurulenta e intensa dispneia (dificuldade respiratória). A forte resposta inflamatória do organismo, representada pela ação de células de defesa, produz extensas lesões no tecido pulmonar. Estas lesões podem ser irreversíveis, com a perda definitiva da função das áreas afetadas, num processo semelhante à cicatrização, conhecido como consolidação pulmonar. É por isso que muitos animais, depois de tratados, têm seu desempenho produtivo comprometido. Pode-se dizer que o sistema de defesa é tão agressivo que causa dano ao que deveria proteger.

Esse efeito da resposta inflamatória é agravado pela natural precariedade funcional do sistema respiratório dos bovinos. Como se vê na Figura 2, um bovino de 500 kg de peso vivo tem uma demanda por oxigênio 250% superior á de um equino do mesmo porte, e apenas 30% da capacidade pulmonar deste.

2

POR QUE DEVEMOS NOS PREOCUPAR?

O impacto econômico negativo da DRB nem sempre é medido. Além da mortalidade, devem ser computados os gastos com medicamentos, uso da mão de obra no tratamento, redução da produtividade e do valor da carcaça devidos à recuperação lenta ou incompleta. Nos Estados Unidos, os custos associados à DRB foram avaliados em 1 bilhão de dólares por ano.

COMO AGIR?

O diagnóstico precoce é crucial para um tratamento efetivo. Para tanto, os funcionários encarregados da ronda devem ser muito bem treinados e motivados para estar atentos aos primeiros sinais de doença respiratória:

- Diminuição em até 30% do tempo de permanência no cocho

- Aumento da frequência e tempo de permanência no bebedouro

Num confinamento, estes sinais ocorrem nas primeiras 3 a 6 semanas depois do desembarque. Donde se conclui que a vacinação na entrada do confinamento terá efeito limitado; deveria ser feita no rebanho de origem.

Estudos demonstraram que o tratamento da DRB somente com antibióticos não preveniu significativamente as perdas na produção. A redução na taxa de ganho de peso diário (GPD) pode chegar a 295g/dia para animais que desenvolveram DRB. Estas perdas se devem basicamente à demora na redução da febre e à consolidação pulmonar, resultados da intensa resposta inflamatória. Outros estudos revelaram ainda que a maioria dos animais com DRB teve classificação inferior no frigorífico. A constatação evidente é: danos irreversíveis nos pulmões somente podem ser evitados pelo controle simultâneo da infecção bacteriana e da inflamação local.

TERAPIA ANTI-INFLAMATÓRIA

A terapia anti-inflamatória permite melhor difusão do antibiótico, além de impedir o desenvolvimento de lesões irreversíveis.

Diante disto, devemos olhar para os medicamentos anti-inflamatórios disponíveis. Há dois grupos de drogas anti-inflamatórias

• Corticoides (ou anti-inflamatórios esteroides)

• Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)

É conhecida a atividade imunossupressora dos corticoides, pela redução na produção de interferon e do número de CD4 e linfócitos-T. Por isso, num paciente com quadro infeccioso e já com alguma dificuldade imunológica, seu uso se torna arriscado. Por sua vez, os AINEs promovem resposta antipirética sem suprimir a capacidade do sistema imune de combater infecções virais e bacterianas.

Entre os AINEs, a flunixino meglumina se consagrou na clínica de grandes animais por seus múltiplos efeitos e segurança. No tratamento da DRB, a flunixino meglumina reduz a consolidação pulmonar e a febre.

O conceito de Terapia de Proteção Pulmonar se baseia no uso concomitante de um antibiótico de alta eficácia contra os principais agentes da DRB, associado à flunixino meglumina. Deste modo, espera-se obter redução muito mais rápida da temperatura retal, com a consequente melhora clínica, antes ainda que ocorra de fato a ação antibiótica, e ainda uma menor taxa de consolidação pulmonar, o que permitirá uma cura mais efetiva. Os dois efeitos permitem minimizar o impacto negativo da DRB na produtividade dos animais. Nos últimos anos, muitos veterinários têm adotado esta conduta com sucesso.

A chegada recente ao Brasil de uma nova formulação para o tratamento da DRB permitirá a aplicação ampla da Terapia de Proteção Pulmonar na rotina das fazendas. Composta de florfenicol, um antimicrobiano premium de amplo espectro, associado à flunixino meglumina, o produto apresenta uma ação sinérgica em processos inflamatórios de origem infecciosa. Outros medicamentos já disponíveis há tempo no mercado combinam antibióticos com AINEs. Mas nenhuma dessas formulações usa uma molécula antimicrobiana reconhecidamente eficaz contra as principais bactérias envolvidas na DRB, como o florfenicol, nem a flunixino meglumina como ingrediente anti-inflamatório.

O uso concomitante de flunixino meglumina com a terapia antimicrobiana, até aqui, exigia a aplicação de duas injeções diferentes, o que complica o manejo e limita sua adoção. Com os dois princípios ativos combinados no mesmo medicamento, esta nova formulação alia conveniência operacional à mais alta eficácia terapêutica

EFICÁCIA CLÍNICA NA PRÁTICA

As vantagens da Terapia de Proteção Pulmonar sobre a terapia convencional estão na recuperação mais rápida e mais completa, e foram demonstradas em diferentes estudos científicos. A associação da flunixino meglumina reduziu a taxa de consolidação pulmonar, comparada ao tratamento com o mesmo antibiótico, em vários experimentos. A Figura 3 apresenta uma comparação das taxas de mortalidade por DRB/febre não esclarecida, em lotes de bovinos confinados submetidos a três tratamentos: com a nova formulação florfenicol+flunixino meglumina, com tulatromicina ou com ceftiofur.

3

As taxas de mortalidade para os lotes tratados com tulatromicina e com ceftiofur foram, respectivamente, duas vezes e quatro vezes maiores do que aquela verificada no lote tratado com a formulação combinada florfenicol+flunixino-meglumina. Estas taxas de mortalidade tão superiores elevaram significativamente os custos de produção desses lotes, comparados com o custo do lote tratado com a formulação combinada.

Os primeiros relatos brasileiros de uso no campo sugerem que esta formulação terá o mesmo sucesso verificado em outros países. E a Terapia de Proteção Pulmonar poderá se estabelecer como uma evolução na abordagem clínica da DRB, numa pecuária que começa a comprovar que sanidade também é tecnologia e investimento em produtividade.

  • Sebastião Faria

    Sebastião Faria

    Gerente técnico da MSD Saúde Animal

Acompanhe
Clique e compartilhe