Interação entre a adubação fosfatada na pastagem e a suplementação mineral de bovinos

Autores: Paulo Rodrigo Santos de Souza e Fábio Ribeiro Loures, do Departamento Técnico, da Vale Fertilizantes

O Brasil é o país com o maior volume de exportações de carne bovina do mundo e detém o segundo lugar no volume produzido, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Além disso, as condições brasileiras de produção pecuária indicam que este é o país com maiores chances de incremento na produção, consolidando cada vez mais sua importância como fornecedor global. Para tanto, é fundamental que sejam melhorados os principais índices zootécnicos e de produtividade.

Quando observamos sistemas de produção de commodities, podemos notar um amplo consenso técnico, como por exemplo na safra de milho, soja e outros produtos nos quais não há espaço para experiências caseiras ou manutenção de mitos no que se refere à maneira de produzir. No caso da pecuária de corte, apesar de a carne bovina ser considerada commodity, observamos ainda um amplo espaço para o desenvolvimento tecnológico e principalmente para a difusão das tecnologias de produção desde os centros de pesquisa até os pecuaristas, criando um censo comum sobre a maneira de produzir, que técnica de manejo empregar, em que situação e porque, como é comum em sistemas de produção em que o preço do produto final sofre pouca ou nenhuma variação dentro da mesma região.

O aumento da demanda e consequente valorização da carne bovina observada nos últimos anos deve, provavelmente, impulsionar a cadeia produtiva atraindo maiores investimentos e aumentando o espaço da produção empresarial, na qual predomina a busca pela produtividade aliada à lucratividade. Atualmente, percebemos que no campo ainda existe grande falta de uniformidade entre os sistemas de produção, em que podemos encontrar uma empresa pecuária que utiliza o topo da tecnologia e da informação gerada no mundo, vizinho de outro sistema gerido de maneira extrativista, com baixíssimo investimento e produtividade. Esta heterogeneidade tão grande na maneira de produzir nos transmite um importante sinal de alerta, a respeito da falta de fluxo de informação técnica idônea, dando margem a mitos gerados sem bases científicas.

Neste artigo, gostaríamos de abordar algumas considerações técnicas a respeito de um mito que ainda hoje é erroneamente divulgado, mencionando que “a adubação da pastagem reduz ou elimina a necessidade de suplementação mineral no cocho”. Vejamos a seguir o que realmente podemos esperar da adubação da pastagem e da suplementação mineral na dieta de bovinos, avaliando seus principais efeitos no sistema de produção.

Adubação da pastagem

De acordo com levantamentos realizados recentemente, o rebanho brasileiro é de aproximadamente 200 milhões de cabeças (FAO), sendo que mais de 90% estão distribuídas em uma área de 165 milhões de hectares de pastagens (IBGE/MAPA), onde 65 milhões são de origem nativa e 100 milhões cultivados (maioria da família das brachiarias). Aproximadamente 130 milhões de hectares apresentam algum grau de degradação (Embrapa 2011) e apenas 5% do total (aproximadamente 10 milhões de ha) recebem algum tipo de adubação, o que não significa que seja a adubação ideal nem que receba o manejo correto.

Ao mesmo tempo em que os números mostram que a pecuária brasileira ainda não é totalmente adepta de técnicas como adubação de pastagens, podemos evidenciar também que essa atividade ainda tem muito espaço para crescer. O potencial de crescimento está diretamente relacionado ao melhor aproveitamento das áreas (maior produção de massa forrageira/ha), que só será possível com planejamento e adequações de adubação e manejo, assim como em qualquer outra cultura (milho, soja, algodão etc.).

No caso da correção e adubação, tanto para implantação como para a manutenção das pastagens, é necessário que se tenha conhecimento do que o solo pode oferecer tanto em relação a nutrientes como em termos físicos (Embrapa). A utilização de fosfatos naturais reativos como fonte de fósforo na adubação de pastagens vem crescendo significativamente no Brasil, pois são fontes de fósforo de menor custo comparando-se com os fosfatos processados (superfosfato Simples, por exemplo) e de liberação mais lenta no solo, disponibilizando fósforo para a planta durante anos, dependendo das características da rocha.

A adubação corretiva e de manutenção com fósforo são fundamentais para a eficiência da atividade. O fósforo é responsável por diversas funções importantes na planta, inclusive pelo desenvolvimento do sistema radicular e perfilhamento, características imprescindíveis para o aumento de massa da forragem (Embrapa). Dentre os macronutrientes, o fósforo é o mais exigido na fase inicial de desenvolvimento da forragem, principalmente até os 40 primeiros dias após a germinação das sementes. Após o início do pastejo, a demanda da planta por P tende a diminuir e a os elementos N e K são mais exigidos, sendo responsáveis pelo crescimento vegetativo e translocação de nutrientes e seiva dentro da planta, respectivamente. Assim como no caso dos macronutrientes mencionados acima, deve-se avaliar a necessidade de enxofre e de micronutrientes, sempre levando em consideração a análise de solo e a exigência da forrageira utilizada (Embrapa).

A concentração de nutrientes na planta varia principalmente conforme o ciclo natural de desenvolvimento da mesma, ou seja, conforme o avanço dos períodos vegetativo, reprodutivo e de senescência do vegetal ocorre redução significativa da concentração de nutrientes. Isto é dizer que a adubação do solo tem efeito pouco significativo sobre a concentração de nutrientes na planta quando compararmos plantas de mesma espécie, variedade e estágio fenológico. Porém, o que observamos é um aumento significativo na produção de massa de forragem (quilogramas de matéria seca por hectare) quando corrigimos o pH e adubamos o solo.

Considerando um solo corrigido e com produção de massa satisfatória, resta ao pecuarista a correta implantação do manejo desta pastagem. Evidentemente, a primeira coisa a ser feita é a adequação da carga animal. Neste caso, deve-se aumentar o volume de animais por unidade de área, pois assim podemos manter a pastagem sendo colhida ou pastejada no melhor momento de concentração de nutrientes, ou seja, no seu período vegetativo. Quando trabalhamos com sistemas de pastejo rotacionado ou simplesmente aumentando o número de divisões das áreas de pasto, torna-se mais fácil acertar as fases de entrada e saída dos animais, descanso das pastagens, roçadas e controle de plantas invasoras e pragas, melhorando assim o aproveitamento nutricional das forragens pelos animais. Nesse sentido, ainda temos muito espaço para melhorias de manejo, pois mais de 90% do rebanho brasileiro são criados em sistemas extensivos (IBGE/MAPA).

 

Suplementação mineral de bovinos

Podemos definir tecnicamente que suplementar é o ato suprir ou complementar qualquer elemento nutricional da dieta principal que seja limitante à produção. Para que os animais sejam adequadamente suplementados com misturas minerais, proteicas e/ou energéticas é necessário que o suplemento forneça a diferença entre a necessidade nutricional do animal e o que existe de nutrientes na dieta principal, nesse caso o pasto. As tabelas de exigências nutricionais podem ser utilizadas para identificar a necessidade de nutrientes do animal, assim como a análise volumétrica e bromatológica da pastagem devem ser utilizadas para se estimar o aporte de nutrientes advindo da mesma. É importante ter em mente que o crescimento acelerado, os ganhos de peso elevados, o final da gestação e a produção leiteira contribuem para elevar significativamente as exigências nutricionais dos bovinos.  

Quando planejamos o aumento da produtividade, necessariamente precisamos contar com o investimento em suplementação, pois esta é a única estratégia que se mostra eficiente para se atingir os objetivos descritos.

Considerações

Devemos entender que ao aumentar a carga animal sobre a pastagem (volume de cabeças ou de peso de animais por unidade de área), beneficiando-se do incremento da produção de massa de forragem em função da adubação, não excluímos a necessidade de suplementação mineral, proteica ou até mesmo energética, dependendo da forragem, período do ciclo da planta e ganho esperado por área. Pelo contrário, o primeiro investimento (adubação) traz consigo os demais, como o aumento do número de animais e do volume total de suplemento mineral utilizado, porque teremos mais animais.

A adubação da pastagem é o ajuste necessário para adequar o balanço de nutrientes entre o solo e a planta, assim como o fornecimento de suplementação mineral é o ajuste necessário para dar equilíbrio entre o que a planta produz de minerais e o que o animal necessita.

Podemos observar um importante efeito aditivo entre a adubação da pastagem e a suplementação mineral no cocho. Ambos são efetivos no aumento de produtividade, porém não se substituem de maneira econômica.

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