Restrição alimentar em frangos de corte

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    Aves

A restrição alimentar é um tema frequente na produção de frangos de corte. Quando preestabelecida, a restrição alimentar pode ser qualitativa (diluição dos níveis nutricionais da dieta) ou quantitativa (diminuição da quantidade ofertada, do tempo de fornecimento, ou por meio de programas de luz). Após o período de restrição alimentar, as aves devem passar por um período de realimentação, em que é administrada uma quantidade à vontade de ração, com os níveis nutricionais recomendados para a fase. Entre os objetivos dessa técnica podem ser citadas a diminuição dos problemas metabólicos (ascite, principalmente) ou locomotores e da mortalidade, a melhoria na conversão alimentar e a diminuição dos custos com a alimentação. Por outro lado, a restrição alimentar pode ocorrer de maneira não planejada, geralmente causando prejuízos ao desempenho dos frangos.

As principais causas de uma restrição indevida são a falta ou a regulagem inadequada dos comedouros e/ou bebedouros, a excessiva densidade de animais, a má distribuição dos animais no galpão, a alta ou a baixa temperatura no galpão, o alojamento de machos e fêmeas de linhagens diferentes, o grande intervalo de tempo entre o nascimento e o alojamento dos pintos de um dia, o inadequado tamanho de partículas da dieta etc.

1. Idade de aplicação e intensidade da restrição alimentar

De acordo com as pesquisas da Embrapa-Brasil, o melhor momento para a aplicação de um programa de restrição alimentar é entre a segunda e a terceira semana de idade das aves (fase inicial). Na primeira semana, os pintos ainda são muito frágeis para suportar o estresse do jejum. Por outro lado, a restrição alimentar após 21 dias de idade, dependendo da idade de abate, não possibilita um tempo suficiente para que as aves apresentem ganho compensatório e recuperem o peso perdido durante a restrição.

Os mecanismos pelos quais esse fenômeno ocorre ainda não são totalmente conhecidos. Acredita-se, entretanto, que ao restringir a alimentação na fase inicial diminui-se a taxa metabólica basal e as exigências de mantença. Com isso, após o retorno à alimentação à vontade, mais nutrientes e energia poderão ser direcionados ao desenvolvimento do animal por sua menor necessidade para as atividades de mantença.

2. Efeitos fisiológicos da restrição alimentar

Vários estudos descrevem as adaptações fisiológicas que ocorrem nas aves durante o período de restrição alimentar e, posteriormente, no período de realimentação. No sistema digestivo, foram relatados maior peso relativo dos órgãos do trato gastrintestinal, aumento no tamanho e na capacidade de estocagem de alimento no papo e na moela e alteração na expressão dos transportadores de nutrientes na superfície dos enterócitos durante a fase de restrição.

Por outro lado, durante a fase de realimentação são relatadas situações de hiperfagia e de aumento na digestibilidade aparente de alguns nutrientes e da atividade de certas enzimas. Quando a restrição alimentar é imposta na primeira semana de vida, ela promove uma diminuição na altura das vilosidades, uma menor profundidade das criptas e um menor crescimento em todos os segmentos intestinais. Aves com acesso ao alimento imediatamente após a eclosão absorvem melhor a gema residual presente no saco vitelínico e os nutrientes exógenos, apresentando maior desenvolvimento do intestino delgado.

3. Efeitos sobre o desempenho e a qualidade de carcaça

De maneira geral, quando a técnica é aplicada fora da primeira semana de idade, e não muito próximo do abate, os resultados de desempenho têm se mostrado favoráveis, embora essas observações não sejam unânimes. Pan et al. (2005) observaram que frangos submetidos à restrição alimentar de 7 a 21 dias não recuperaram o peso aos 49 dias de idade, ao passo que aqueles submetidos a uma restrição alimentar de 7 a 14 dias de idade tiveram tempo suficiente para atingir o mesmo peso de abate daqueles alimentados à vontade.

Leu et al. (2002) avaliaram o desempenho de frangos submetidos a dois programas de restrição alimentar de 7 a 21 dias de idade: um programa mais brando e outro mais severo (jejum de 10 e 14 h/dia, respectivamente). O ganho de peso no período em que as aves receberam alimentação restrita foi menor quanto maior foi a intensidade da restrição. No período total do experimento (7 a 42 dias de idade), porém, o consumo de ração, o peso e o ganho de peso aos 42 dias de idade foram estatisticamente inferiores no grupo cuja restrição durou 14 horas/dia, não havendo diferenças entre os resultados nos grupos que receberam alimentação à vontade e restrição mais branda, sugerindo um ganho compensatório.

Em relação à qualidade de carcaça, o período mais brando de restrição promoveu uma redução na quantidade de gordura abdominal, sem afetar o rendimento de peito. Por outro lado, quando frangos são submetidos à restrição alimentar já na primeira semana de idade, efeitos adversos sobre a deposição de gordura ao abate são observados. Uma das conseqüências da aplicação desse manejo nesse período é o fenômeno da programação metabólica, em que os níveis nutricionais administrados no início da vida dos pintos podem levar a alterações metabólicas que irão repercutir posteriormente, mesmo na ausência dos fatores que causaram esse fenômeno.

Foram observadas alterações fisiológicas compatíveis com quadro de lipogênese e obesidade em aves submetidas à restrição na primeira semana. Outra consequência da aplicação da restrição alimentar já na primeira semana de vida é a alteração no crescimento das células satélites musculares. Antes da eclosão e logo após esse evento, a continuação do crescimento da musculatura esquelética depende da proliferação e da diferenciação das células satélites miogênicas. Essas células doam seus núcleos para as fibras musculares adjacentes, levando ao crescimento muscular a partir da hipertrofia celular, através da síntese proteica. Moore et al. (2005) observaram que pintos em jejum durante os três primeiros dias de vida apresentaram menor atividade mitótica nas células satélites da musculatura esquelética do peito e depleção nas células satélites em proliferação, conservando, no entanto, as células de reserva. Assim, o crescimento muscular, após finalizado o período de restrição, pode ser afetado.

4. Conclusões

A restrição alimentar, quando bem empregada, pode levar à diminuição da incidência de doenças metabólicas e da mortalidade em frangos de corte. Alguns cuidados, no entanto, devem ser tomados quanto ao período em que é aplicado esse manejo, devendo ser evitado na fase pré-inicial e quando as aves se encontram próximo da idade de abate. Também devem ser evitados os fatores que levam à restrição alimentar não planejada. Outro aspecto importante é a severidade da restrição. A restrição alimentar pode causar efeitos sobre o desempenho, não somente por meio da privação de nutrientes.

Também têm sido observadas alterações fisiológicas mesmo depois de as aves serem realimentadas. Essas alterações podem causar efeitos permanentes sobre o crescimento e as características de carcaça dos frangos. Antes da introdução desse manejo, devem ser levados em consideração a linhagem das aves, o período de vida em que será aplicado e a intensidade de sua aplicação. As avaliações devem ser conduzidas visando identificar se as aves estão atingindo um peso, ao abate, proporcional ao que teriam com a alimentação à vontade, se a qualidade da carcaça não está sendo afetada negativamente e, mais importante de tudo, se o procedimento está trazendo benefício econômico para a operação.

Colaboraram: Daniel Gonçalves Bruno e Adriana Nogueira Figueiredo - Provimi/Nutron Alimentos Ltda.

  • Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz é Doutor em Nutrição Animal pela Universidade da Califórnia - EUA, Mestre em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Diretor Técnico da Provimi América Latina.

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