Principais alterações hepáticas em frangos de corte

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    Aves

Dentre as várias funções atribuídas ao fígado, algumas são fundamentais como: estocagem de carboidratos, gorduras e vitaminas; no embrião produz células sanguíneas; na ave, ele remove da corrente sanguínea as células envelhecidas e libera substâncias necessárias à coagulação do sangue. Sua função relacionada à digestão, entretanto, é a produção e secreção de bile (suco biliar) que contém sais e outros componentes que emulsificam as gorduras presentes no intestino delgado facilitando a absorção lipídica e a ação de enzimas pancreáticas.

Este órgão biotransforma ou inativa - através de redução, oxidação, conjugação ou síntese - substâncias tóxicas como: resíduos industriais, herbicidas e fungicidas; toxinas bacterianas, micotoxinas, etc. Sendo também responsável por biotransformar medicamentos tornando estas substâncias químicas mais polares e menos lipossolúveis que a molécula original para favorecer a sua excreção pela via urinária.

O fígado do frango de corte pode ser acometido por inúmeras alterações patológicas que incluem distúrbios circulatórios, toxicoses, doenças infecciosas (virais, bacterianas e parasitárias) e neoplásicas (baixa incidência). Muitas das lesões hepáticas que observamos a campo não são específicas quanto à etiologia, mas fornecem informações importantes sobre a ocorrência de doenças sistêmicas (Hoerr, 1996).

O exame deste órgão reveste-se de especial importância pelo fato de nele repercutir cerca de 90% dos casos de problemas tóxicos e infecciosos, onde sua dimensão em relação aos outros órgãos oferece à observação, a melhor condição para por em destaque qualquer modificação patológica, sobretudo no que se refere ao trato intestinal.

Após a morte, o fígado sofre alterações cadavéricas como embebição hemolítica, tomando o órgão uma coloração vermelha escura. Por isso, é necessário que logo após o sacrifício da ave se realize a sangria para amenizar este efeito que pode prejudicar sua avaliação e interpretação durante a necrópsia. Segundo Ito et al. (2002) a coloração de fígado esperada como normal para frangos seria amarela no embrião e no pinto recém-nascido e à medida que a ave cresce, sua cor se torna castanho escuro.

As alterações hepáticas macroscópicas podem afetar sua forma, coloração, tamanho e consistência, além da produção de lesões visíveis. A seguir, serão descritas as principais alterações hepáticas ou que merecem destaque em frangos de corte e suas possíveis causas:

Degenera ção graxa : trata-se da mais frequente e inespecífica das alterações metabólicas que compromete o fígado. Quando o hepatócito é lesado, tendo prejudicado sua capacidade de metabolização normal, pode ocorrer a retenção das gorduras. O fígado encontra-se amarelo, com bordos arredondados e sua consistência apresenta-se friável à palpação. Os principais mecanismos que podem estar envolvidos com a patogenia da degeneração graxa seriam:

- Deficiências nutricionais ou por substâncias lipotrópicas. Tanto um como outro fator pode interferir com a síntese protéica e desta forma, as lipoproteínas podem não ser formadas e as gorduras não podem ser eliminadas das células,portanto acumulam-se e tornam-se visíveis.

- Excessiva quantidade de gordura presente ao nível hepático pela absorção através do intestino ou carreada do tecido adiposo, como acontece comumente no caso de obesidade intensa por exemplo.

- Segundo Freitas et al. (2008), aves inoculadas com Eimeria acervulina podem apresentar fígados de coloração amarelo pálido entre o 8º e o 30º dia pós inoculação, ocorrendo devido a deposição de gordura, levando a crer que o transporte e regulação de lipídeos nesse órgão estejam afetados. Isso possivelmente ocorreu devido a uma alteração no metabolismo de lipídio hepático decorrente das lesões intestinais resultantes do ciclo evolutivo do parasita.

- Específica ou inespecífica lesão ao nível do hepatócito. Como exemplo, pode-se citar os venenos clássicos, como tetracloreto de carbono, clorofórmio, arsênico, fósforo e algumas micotoxinas, além de toxinas bacterianas, etc.

Dibner et al. (1996) demonstraram o efeito tóxico de gorduras deterioradas que sofreram processo de oxidação através da observação de aumento do tamanho do fígado (proliferação de hepatócitos). A maioria dos produtos finais da peroxidação de gorduras, como aldeídos e cetonas, devido a sua natureza hidrofílica e baixo peso molecular são facilmente absorvidos e levados pela corrente sanguínea até órgãos como o fígado, onde também promovem oxidação lipídica in vivo agravando ainda mais o processo de lesão hepática.

As proteínas presentes nos ingredientes de origem animal (farinha de carne, por exemplo) utilizados nas formulações de rações avícolas, quando mal processadas ou armazenadas incorretamente, podem sofrer deterioração por ação de bactérias, fungos e leveduras transformando-se em aminas biogênicas (histamina, cadaverina, putrecina, entre outras). As aminas biogênicas quando em grandes quantidades geram toxidez causando destruição da mucosa intestinal, dos rins e do fígado que aumenta de volume. Estes compostos ainda afetam o desempenho do lote reduzindo a taxa de crescimento e piorando o índice de conversão alimentar.

A ação de micotoxinas consiste na mais frequente e importante alteração hepática de origem tóxica nas aves.

Como se sabe, o grau e a extensão lesional causados pela micotoxina são bastante amplos, lesando órgãos digestivos, linfo-reticular, vasos sanguíneos, etc. Ao nível hepático, dependendo da idade dos animais, podem-se observar lesões hepáticas na forma de fibrose com endurecimento do órgão (animais jovens), até degeneração graxa (lipidose hepática), com hemorragias e necrose, alteração esta mais comumente observada entre animais mais velhos. Em algumas ocasiões o fígado apresenta-se um tanto tumefato, de coloração cinza- escuro, e acima de tudo bastante firme à palpação, em associação a outras lesões típicas podemos suspeitar de Aflatoxicose. Estudos com infecção experimental em frangos de corte utilizando-se material de cultura de F. moniliforme e de F. proliferatum contendo Fumonisina B1 foram associados com baixo desempenho, imunossupressão e aumento do peso relativo de vísceras, principalmente do fígado. Hepatites Virais : na fase de aguda da doença de Gumboro e da Anemia Infecciosa, nota-se linfocitólise ou degeneração hepática associada com o encontro de fígados pálidos e com aumento de volume.

Hepatites bacterianas : particularmente Clostridium perfringens e Salmonelas podem causar a colangite ou colangiohepatite. De acordo com a patogenicidade das bactérias, observamos hepatite aguda associada com a presença de exsudato fibrinocaseoso (pus) cobrindo a cápsula hepática como visto nos casos de infecção por Salmonelas virulentas como a S. Pullorum, S. Gallinarum, S. Enteritidis e nas Colisepticemias. Nos últimos anos, têm sido observados vários tipos de lesões hepáticas associadas ao Clostridium perfringens nos frigoríficos, sendo que 30% dos quadros de hepatites têm sido associados a esta bactéria (Barcelos, 2006). Estas lesões podem ser ocasionalmente encontradas durante monitorias de campo em aves mortas ou sacrificadas, em lotes com quadro de Enterite Necrótica Subclínica. Em geral, se vê alterações no fígado que indicam colângio-hepatite, sendo que esta é provavelmente o tipo mais comum de alteração hepática associada ao Clostridium perfringens, e certamente a mais descrita. O fígado fica aumentado, e pode ter descoloração marrom-amarelada, sua superfície está lisa e uniforme e o parênquima hepático pode estar firme à palpação. A vesícula biliar pode estar descolorida, com a parede espessa e o conteúdo pode estar descolorido e viscoso.

Hiperplasia linf óide : ela está presente em aves que convalescem de septicemias bacterianas, virais, endotoxemias bacterianas ou que estão cronicamente infectadas pela Salmonella Pullorum. Como o fígado estabelece uma relação íntima com intestino, quando ocorre o desequilíbrio da flora bacteriana ou a enterotoxemia, observa-se também o aumento da atividade fagocítica das células de Kupffer, a hiperplasia linfóide e a hepatite. Bactérias enteroinvasivas e enterotoxigênicas causam enterites e comprometimento hepático devido ao estímulo da atividade fagocítica das células de Kupffer que são os fagócitos residentes responsáveis pela limpeza de tudo que é absorvido pelo intestino e que cai na circulação esplâncnica ou no espaço porta.

Congestão hepática : as principias causas de congestão hepática resultam geralmente de insuficiência pulmonar ou cardíaca em aves que estão passando por um processo de ascite ou que sobreviveram à aspergilose pulmonar; sobrecarga hepática causada por substâncias tóxicas ou medicamentos, diminuição do consumo de ração, ou qualquer condição que aumente a demanda por energia, por exemplo, estresse por frio que aumenta a necessidade de energia para suportar a hipotermia e manter a temperatura corporal. O fígado apresenta-se tumefato, com bordos adelgaçados; coloração escura devido à congestão e estase sanguínea; apresentando consistência firme à palpação.

Cirose : Em termos gerais, entende-se por cirrose o processo crônico e progressivo de uma injúria permanente ao órgão. O fígado quando cirrótico mostra um tamanho menor que o normal, com bordos arredondados, sendo sua superfície irregular devido aos nódulos de regeneração e de consistência firme à palpação. O órgão pode se apresentar embebido pela bile, podendo os ductos biliares se apresentar grossos e proeminentes. A cirrose pode ser induzida pela hipertensão pulmonar desencadeando a ascite. A cirrose caracterizada pela presença de fígados amarelados ou ictéricos ocorre devido a intoxicação crônica por aflatoxinas, ou devido a insuficiência pulmonar crônica induzida pela pneumomicose crônica (aspergilose).

Diagnóstico das alterações hepáticas: A maioria das lesões no fígado não é específica em relação relação a sua causa, mas pode fornecer informações importantes a respeito de processos patológicos generalizados. O histórico do lote, manejo alimentar, sintomas clínicos, lesões em outros órgãos, entre outros fatores, desempenham um importante papel no estabelecimento de um ponto de vista global que permite um pré-diagnóstico, o qual deve ser evidentemente confirmado com exames laboratoriais complementares através de exames bacteriológicos ou virológicos, além de outras provas laboratoriais aplicáveis como histopatologia e níveis séricos de enzimas de função hepática (ainda pouco compreendido em situações de campo)

Conclusões:

O fígado em função da sua atuação na detoxificação do organismo é consequentemente bastante vulnerável à injúria toxica. Os efeitos tóxicos sobre o tecido hepático dependem de três fatores importantes, que seriam: o estado de nutrição do hepatócito, a dose da sustância tóxica e o período de tempo em que o órgão é exposto à injúria.

Devemos sempre considerar o alto poder regenerativo do fígado, sendo que grande parte dos processos patológicos que induzem lesões hepáticas podem ser reversíveis desde que a causa primária da injúria seja removida a tempo. De maneira geral, a importância do fígado devido ao seu envolvimento em diversas funções do organismo está relacionada diretamente ao resultado de desempenho do frango, além do que níveis aumentados de lesões hepáticas podem trazer prejuízos por aumento de condenações deste órgão nos frigoríficos.

Portanto, devemos sempre procurar entender melhor o que as alterações hepáticas nos evidenciam e procurar formas de preveni-las para que possamos buscar melhores índices de desempenho na produção avícola.

  • Luis Otávio Roberto

    Luis Otávio Roberto

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