Alimentação de frango de corte

  • Publicado em
  • Categoria

    Aves

INTRODUÇÃO

Várias são as razões que justificam o uso de dieta diferenciada para frangos na primeira semana de idade. Entre elas, nesta idade os frangos têm a anatomia e a fisiologia do aparelho digestivo diferenciadas das aves com mais idade; têm necessidades nutricionais muito limitantes pela dificuldade que têm em digerir e absorver certos nutrientes; têm um rápido desenvolvimento potencial nestes primeiros dias de vida e têm uma grande dificuldade em sobreviver em ambientes frios.

ALTERAÇÕES ANATÔMICAS DO APARELHO DIGESTIVO

São significativas as alterações anatômicas do aparelho digestivo dos frangos de corte nos primeiros dias de vida. Após a eclosão, os pesos do próventrículo, da moela, do pâncreas, do fígado e do intestino delgado aumentam mais rapidamente do que o peso corporal das aves. Nestes primeiros dias de vida também ocorre um aumento no número dos enterócitos e na profundidade das criptas (NIR, NITSAN e MAHAGNA, 1993, DROR , NIR e NITSAN, 1977 e NOY e SKLAN 1997. Também é importante a passagem de alimento pelo trato digestivo de pintos recém eclodidos, pois favorece o desenvolvimento dos enterócitos e que, gradualmente, substituem aqueles formados durante a fase embrionária. Estas rápidas alterações do aparelho digestivo possibilitam um aumento de consumo de ração e altera a digestibilidade dos nutrientes (MORAN, 1985).

ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS DO APAREL HO DIGESTIVO

DIGES TÃO E ABSORÇÃO DOS GLICÍDIOS

MORAN (1985) afirmou que a secreção de alfaamilase é substrato dependente, sendo influenciada pela quantidade de amido da dieta. DAUTLICK e STRITTMATTER (1970) comentaram que as enzimas maltase e sacarase atingem suas atividades máximas quando os pintos têm 4 dias de idade. HOLDSWORTH e WILSO N (1967) citaram que o pico de transporte ativo de glicose no intestino ocorre quando os pintos têm 3 dias de idade. SHEHATA et al. (1981) observaram que nos primeiros dias de vida a absorção de glicose passa a ser predominantemente aeróbica e dependente de sódio, o que não ocorre na fase embrionária.

DIGESTÃO E ABSORÇÃO DE LIPÍDIOS

A digestão e a absorção dos lipídios é ineficiente nas primeira semanas de vida dos frangos. Isto ocorre porque a concentração da proteína ligadora de ácidos graxos e a secreção de sais biliares no intestino são baixas (KATONGOLE e MARCH, 1980); a secreção de lipase é substrato dependente (KRO GDAHAL, 1885); a circulação enterohepática é imatura após a eclosão (JEANSO N e KELO G, 1992). Entretanto, a digestibilidade dos lipídios aumenta com a idade das aves (RENNER e HIL, 1960, CAREW et al., 1972 e SEL et al., 1986).

DIGESTÃO E ABSORÇÃO DE PROTÍDIOS

Embriões são capazes de absorver aminoácidos pelo intestino mesmo antes de eclodirem. Esta habilidade pode justificar o porque pintos recém eclodidos não têm problema para absorver aminoácidos (HUDSON e LEVIN, 1968 e PRATT e TERNER 1971). NITSAN et al. (1991) mostraram que os pintos eclodem com alguma reserva enzimática no pâncreas. Entretanto, os autores verificaram que as atividades específicas das enzimas tripsina e quimiotripsina diminuiram até 5 a 6 dias de idade após a eclosão e depois aumentaram rapidamente, alcançando os níveis máximos com 10 dias de idade. Estas observações foram confirmadas por NIR et al. (1993). TARVID (1992) verificou que no dia da eclosão os pintos já apresentavam pro-carboxipeptidase A e dipeptidases ativas no lúmen do intestino. As enzimas proteolíticas são substrato dependentes, logo o início da alimentação após a eclosão é importante (AUSTIC, 1985 e TARVID, 1992).

Entretanto, é importante não fornecer dietas para frangos, especialmente os mais jovens, com polissacarídios não amídicos solúveis (PNAS), pois eles podem promover o aumento da viscosidade do conteúdo intestinal, comprometendo a digestão e a absorção dos glicídios, lipídios e protídios. Quanto mais jovens forem os pintos pior será o efeito dos PNAS (SCHUTTE, 1997).

APROVEITAMENTO DO SACO VITELINO

As substâncias contidas no saco vitelino são absorvidas diretamente pela membrana do saco vitelino e esta absorção se dá por fagocitose não específica. Também pode ser absorvida pelo epitélio do saco vitelino ou pela mucosa intestinal, onde o último é o menos importante dos três (KRO GDAHL, 1985 e NOBLE e COCHI, 1990). O percentual de lipídios no saco vitelino no momento da eclosão é de 50% (NOY e SKL AN, 1997) e todas as substâncias lá presentes são prontamente utilizadas nos primeiros 3 a 5 dias de vida dos pintos (NIR et al., 1988 e VIEIRA, 1996). DIBNER et al. (1998) comentaram que os nutrientes disponíveis no saco vitelino não devem ser considerados como fonte primária de energia para os pintos.

Parte das proteínas são anticorpos maternos, importantes na imunidade passiva dos pintos. Os lipídios, além da função estrutural, como componente das membranas celulares, também favorecem as respostas imunes dos pintos. LI et al. (1998) demonstraram que o IgG do saco vitelino é absorvido continuamente pelo embrião durante a incubação e até dois dias depois da eclosão e quanto maior a gema maior a quantidade de IgG disponível para o pinto. Linhagens de frangos de corte com maior velocidade de ganho de peso apresentaram saco vitelino com maior peso no momento da eclosão (NITSAN et al., 1991) e retirando o saco vitelino dos pintos de um dia ,o ganho de peso deles foi inferior àquele dos pintos que permaneceram com o saco vitelino (EDWARDS et al., 1962).

Entretanto, é importante ressaltar que embora o saco vitelino possa fornecer a maioria dos nutrientes nas primeiras horas de vida dos pintos, é o estímulo de consumo de alimento sólido que propiciará as principais alterações da estrutura física do aparelho digestivo e de suas secreções, indispensáveis para a digestão dos nutrientes neste momento (NEWEY et al., 1970, MICHAEL e HODGES , 1973 e BARANYOVÁ e HOLMAN, 1976).

CRITÉRIOS NUTRICIONAIS PROPOS TOS PARA A PRIMEIRA SEMANA DE IDADE

Nos embriões, a principal fonte de energia são os lipídios da gema e nos frangos, após eclosão, são os glicídios. Esta alteração entre lipídios e glicídios é tão importante que mesmo antes da eclosão o conteúdo de açúcar no sangue começa a aumentar ao mesmo tempo em que ocorre o início da atividade do sistema respiratório pulmonar dos embriões. A reserva de glicogênio no fígado, armazenada durante a fase embrionária, é obtida por gliconeogênese, a partir da proteína da albumina (PONS et al., 1986). Ela só é suficiente para o primeiro dia de vida dos pintos. Após a eclosão, o nível de glicogênio no fígado somente aumenta se os pintos ingerirem glicídios (BES T, 1966).

CONSUMO ALIMENTAR

NOY (1993), citada por NOY e SKLAN (1997), verificou que o principal efeito prejudicial do atraso do início do consumo de alimento é que as diferentes estruturas do aparelho digestivo crescem mais lentamente. CASTEEL et al. (1994) também identificaram que o atraso do alojamento dos pintos pode comprometer o estado imunitário dos pintos. Esta afirmação foi confirmada por DIBNER et. al. (1998) que verificaram que pintos mantidos em jejum nas primeiras 48 horas após eclosão tiveram menor peso de bursa de Fabricius que aqueles imediatamente alimentados após eclosão. Os autores verificaram que o menor peso da bursa está relacionado com a menor proliferação dos linfócitos. Eles também chamaram a atenção que o jejum estimula a secreção de corticosteróides, que inibem a proliferação das células imune.

Assim, é importante colocar os pintos rapidamente em contato com o alimento. Além disto, caso demorem para ser alojados, os pintos podem desidratarse e ter a cetose estimulada. A adição de glicose na dieta pode aliviar esta situação. Entretanto, para que ela seja minimizada, as aves devem receber o mais breve possível água e alimento (MORAN, 1990).

USO DE SOLUÇÃO NUTRITIVA PARA FRANGOS DE CORTE PÓS ECLOSÃO

Tendo em vista o entendimento da necessidade que os pintos têm de receber alimento imediatamente após a eclosão, algumas opções de dietas para o primeiro dia estão tornando-se disponíveis. NOY e PINCHASO V (1993) demonstraram que o fornecimento, via oral, de 0,5 ml de uma solução glicose:amido:óleo (1:1:1 vol/vol/vol) favoreceu o desempenho de pintos a partir dos 13 dias de idade. Este efeito foi mais marcante quando os resultados foram comparados aos dos pintos que foram mantidos sem alimento e sem água por 24 horas após a eclosão. Os mesmos autores também estudaram o efeito do uso da mesma solução nutritiva em pintos provenientes de lotes de matrizes novas (28 semanas de idade) ou velhas (70 semanas de idade). Aos 40 dias de idade o uso da solução nutritiva favoreceu o desempenho dos pintos das duas origens. Frangos de corte provenientes de matrizes novas, e que receberam solução nutritiva, apresentaram melhor peso do que frangos de corte provenientes de matrizes velhas, e que não receberam a solução nutritiva.

USO DE LIPÍDIOS NA DIETA PRÉ-INICIAL

A principal fonte de energia da dieta dos pintos são os glicídios, que são facilmente digeridos e absorvidos desde a eclosão. Porém, uma dieta com alto teor energético necessita ter na sua composição alguma fonte lipídica, de baixa disponibilidade nos primeiros dias de vida dos pintos. MAIORKA et al. (1997) mostraram que dietas variando em energia metabolizável (2900, 3000 e 3100 kcal EM/kg) não proporcionaram alteração no consumo de alimento na primeira semana de idade, alguma alteração na segunda semana e uma alteração marcante na terceira semana. O consumo de ração só foi regulado pela energia de uma maneira adequada na terceira semana de idade. Pelos resultados obtidos, não parece ser pertinente o emprego de altos níveis de energia proveniente de lipídios na primeira semana de idade pois o maior consumo de energia não resultou em um maior ganho de peso e uma melhor conversão alimentar dos animais. Além disto, caso os lipídios não sejam totalmente absorvidos, o que é provável, ou que eles venham oxidados com o alimento, eles poderão causar danos marcantes aos pintos na primeira semana de vida. Peróxidos, provenientes da rancificação oxidativa dos lipídios, comprometem a anatomia do trato digestivo e as células em geral, além de prejudicar a disponibilidade de vários nutrientes, entre eles as vitaminas lipossolúveis, comprometendo o desempenho dos animais (CABEL et al., 1988).

USO DE SÓDIO NA DIETA PRÉ-INICIAL

MAIORKA et al. (1998), trabalhando com níveis crescentes de sódio total (0,10%, 0,22%, 0,34% e 0,46%) em dietas de primeira semana de frangos de corte, confirmaram que o nível adequado de sódio na fase pré-inicial é superior aquele sugerido pelo NRC (1994) e muito próximo do recomendado por BRITTON (1992). VIEIRA et al. (2000) confirmaram a maior exigência de sódio na primeira semana de idade. Os valores determinados para consumo de ração, ganho de peso, conversão alimentar, consumo de água e maior umidade de carcaça foram 0,35%, 0,35%, 0,39%, 0,37% e 0,36% de sódio, respectivamente. KRABBE (2000) também confirmou que a exigência de sódio para pintos na primeira semana de vida é superior a recomendada pelo NRC (1994).

VIEIRA et al. (2000), empregando dois valore de número de Mongin (160 e 240 meq/kg), não encontraram diferenças entre eles em todos os parâmetros avaliados. MONGIN (1981) sugeriu que a melhor relação para frangos de corte seria de 250 meq/kg.

USO DE PRO TEÍNA NA DIETA PRÉ-INICIAL

JENSEN et al. (1987) estudaram o efeito do uso de diferentes níveis de proteína e de lipídios em dietas isocalóricas empregadas na primeira semana de vida de frangos de corte sobre a deposição de gordura abdominal no momento do abate. Após a primeira semana, todos os frangos foram alimentados com as mesmas dietas de crescimento, final e acabamento. Os autores não verificaram qualquer diferença de peso dos frangos no 7º, 28º e 49º dias de idade. Porém, a adição de proteína e de gordura nas dietas pré-iniciais promoveram algumas variações no percentual de gordura abdominal dos frangos com 49 dias de idade

SCHUTTE et al. (1997) sugeriram que dietas para pintos, à base de milho e farelo de soja, não podem ter menos que 21% de proteína porque os aminoácidos glicina+serina passam a ser limitantes. A exigência de glicina+serina para frangos jovens foi estimada como 1,85%. Este valor está muito acima de 1,25%, proposto pelo NRC (1994).

DIÂMETRO GEO MÉTRICO MÉDIO

NIR et al. (1994) mostrou que pintos com 7 dias de idade preferiram dietas grosseiramente moídas do que finamente moídas. Isto não foi confirmado por KRABBE (2000). O autor, avaliando diferentes granulometrias das dietas pré iniciais, constatou que partículas pequenas e grandes podem comprometer o desempenho dos pintos O mesmo autor não identificou qualquer efeito do DGM no consumo de água das aves durante os 7 dias de vida mas identificou que o aumento do DGM proporcionou um aumento no peso relativo da moela e no comprimento relativo do intestino, efeitos que desapareceram quando os frangos completaram 14 dias de idade. Ele observou que dietas com DGM maiores proporcionaram uma redução na quantidade de proteína, cálcio, fósforo e sódio consumidas. Porém, também verificou que dieta finamente moída (561 micra) comprometeu a energia metabolizável e a retenção de nitrogênio e de matéria seca da dieta, que melhoraram com o aumento da granulometria.

CONCLUSÃO

A dieta pré-inicial permite que sejam empregados níveis de proteína e sódio superiores e de gordura inferior aos empregados nas dietas iniciais. Também para esta dieta é possível a separação de ingredientes de melhor qualidade e o uso de aditivos importantes como vitaminas, minerais, antioxidantes e antifúngicos. Esta dieta deve ser usada em quantidade próxima de 100 a 150 g ou pelo período máximo de 7 dias.

  • Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz é Doutor em Nutrição Animal pela Universidade da Califórnia - EUA, Mestre em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Diretor Técnico da Provimi América Latina.

Acompanhe
Clique e compartilhe