Respeitar a tradição e planejar o futuro

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Der mensch denkt und Gott lenkt. O lema, que em português signifi ca “o homem pensa e Deus guia”, era repetido pela mãe de Theobaldo Persch todas as vezes nas quais ele saía para ir à procura de emprego. Hoje, ele preside a Cooperativa Ouro do Sul, em Harmonia/RS, mas continua com a mesma doutrina.

Em uma cidade na qual é comum ouvir as pessoas conversando em alemão ou se deparar com casas e costumes europeus, a determinação germânica é essencial para um trabalho de sucesso que, desde 1935, colabora com a força da suinocultura gaúcha e ultrapassa todas as crises em prol dos cooperados. O povo – que vivenciou muitas dificuldades no período da Segunda Guerra Mundial, quando o idioma era reprimido e as tradições quase se perderam – não desistiu de seus objetivos e se manteve unido para que tudo caminhasse da maneira como foi planejado.

"A criação da Ouro do Sul foi uma iniciativa ousada para a época”, analisa José Carlos Flach, jornalista e historiador do Vale do Caí. Ele preparou um livro sobre a história da cooperativa em comemoração aos seus 80 anos, que foram celebrados no dia 29 de julho. Em sua fundação, havia desde cedo a perspectiva real de que a realidade dos colonos poderia mudar a partir dela. O maior exemplo foi a Sociedade União Popular, primeira cooperativa da América do Sul, fundada em 1912 em Nova Petrópolis/RS pelo padre suíço Theodor Amstad.

O pensamento coletivo não veio com a cooperativa: ela foi uma consequência do sentimento de união que os produtores de suínos da localidade possuíam entre si. Com muita dificuldade de levar seus animais para o abate no Frigorífico Renner, que ficava na cidade vizinha de Montenegro, 38 senhores, presididos por Miguel Menz, se reuniram em 29 de julho de 1935 e fundaram a Cooperativa de Productos Suínos do Cahy Superior, hoje Cooperativa dos Suinocultores do Caí Superior ou, como é carinhosamente conhecida, Cooperativa Ouro do Sul. Naquele tempo, ela só se tornou realidade graças ao esforço dos moradores. Cada um doou uma parcela do seu tempo e até de suas economias para que o sonho se tornasse realidade. Os momentos árduos vieram, mas foram superados com iniciativas ousadas e muita confiança. “Esse modelo associativo foi fundamental para a renovação econômica da região colonial alemã, pois o mesmo partia do princípio de que os envolvidos tinham que trabalhar de maneira conjunta para melhorar de vida. Dessa forma, também combatia o individualismo”, acrescenta Flach.

O atual Presidente compactua do espírito batalhador de seus antepassados. Sua história na Ouro do Sul começou em 1959, como balconista, e o esforço fez com que logo fosse promovido para o Controle de Suínos, em um tempo no qual todas as operações matemáticas eram feitas à mão. De lá para cá, veio a Gerência, a Diretoria e, com o apoio dos colegas, a Presidência. Desde 1990, Persch é o rosto que guia os ideais dos cooperados. É preciso destacar que o único momento no qual se manteve afastado do cargo foi no período em que foi prefeito de Harmonia, de 1994 a 1998. O mandato atual na Ouro do Sul vai até março de 2016, mas o lema da mãe também guia a questão. “Sempre temos a ideia de seguir, mas não sabemos do futuro e, por isso, às vezes temos uma ideia totalmente nova e começamos outra coisa”, lembra-se.

A cooperativa como motor da cidade

Com quase 4.300 habitantes e emancipado em 1988, o município foi batizado a partir de um costume dos primeiros habitantes. As famílias alemãs se reuniam para cantar músicas sobre a terra natal e, com isso, o nome Harmonia surgiu para sintetizar o momento de união e de alegria. A agricultura representa 70% do Produto Interno Bruto (PIB) local e apenas a Ouro do Sul ajuda a gerar R$23 milhões ao ano (80%) para os setores comercial, industrial e de serviços da cidade.

Atualmente, a Cooperativa atua abatendo suínos e bovinos. São nove mil suínos por mês, dos quais cerca de cinco mil são produzidos em Unidade de Produção de Leitões (UPL) própria, que conta com 2,2 mil matrizes. Já na área de bovinos, trabalha apenas com o abate, que chega a aproximadamente 3 mil cabeças por mês.

Com sede e frigorífico localizados na região central, ao lado do supermercado que também é de propriedade da Cooperativa, viu o progresso chegar à sua volta e se transformou em motor para o desenvolvimento daqueles que ali habitam. No entanto, os números sempre podem ser ampliados. “Nossa expectativa é superar 100 mil animais abatidos ao ano”, aponta o Diretor Industrial Valmor Jensen.

Para o responsável pelo setor de Compras, Celso José Neis, manter e melhorar os índices também é uma meta prioritária. “O mercado não está em um momento muito bom. Nossa expectativa está no aumento das exportações por parte dos outros frigoríficos, o que ajuda a abrir espaço”, avalia. Após um 2014 de preços altos e grandes expectativas, os suinocultores passam, agora, por um momento delicado. Para ajudar, o início do ano não é uma época boa para esse tipo de carne, o que diminui a procura no mercado.
A crise, entretanto, não é novidade para o suinocultor gaúcho e nem para a Ouro do Sul. “A febre aftosa quase liquidou os suínos da região no passado”, lembra Valmor. Mas patinar no mesmo local até que o resultado seja alcançado não é o fundo do poço. A história de Menz, o primeiro Presidente, que chegava a passar 30 dias fora de casa, trabalhando pela construção do modelo ideal de negócio, é um exemplo a ser seguido, em um setor cheio de altos e baixos.

“Se hoje Harmonia ostenta um bom nível de vida, isso se deve muito à Cooperativa”, atesta Flach. O município é considerado o menos miserável do País, já que apenas 1% de sua população é considerada pobre.

Não basta produzir mais: é preciso produzir melhor

Em janeiro de 2015, a Ouro do Sul fechou uma parceria de sucesso, que vem rendendo mais frutos para o negócio. Trata-se do suporte da Nutron no setor de creche da UPL. Tal ação vem ao encontro do sentimento de coletividade e busca por novas maneiras de se obter mais lucros.

O Coordenador Técnico Comercial de Suínos da Nutron, Rodolfo Oppitz, que atua diretamente com a Cooperativa, tem muito o que comemorar, uma vez que o trabalho vem agregando um valor expressivo na conta fi nal. “Melhoramos o resultado referente à creche, com ganho de peso superior e conversão alimentar melhor, gerando maior retorno para a Ouro do Sul. A ideia é sempre ampliar os negócios e, neste momento, estamos realizando testes nas fases de crescimento e terminação para a confirmação dos resultados e a solidificação da parceria”, relata.

Meta: aumentar o consumo

A carne suína entra gradativamente no mercado. Para o prato dos alemães, ela é item fundamental. Mas a população brasileira, em geral, acaba dando preferência ao boi, ao peixe e ao frango. Com isso, a Ouro do Sul trabalha fortemente para garantir um espaço no coração dos brasileiros.

Dessa forma, o principal enfoque da Cooperativa é começar desde cedo. Valmor conta que foram fechados vários projetos de alimentação escolar, chegando, até mesmo, a ultrapassar as barreiras gaudérias. A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, é uma grande parceira neste projeto: cerca de 90 toneladas de carne suína foram negociadas para o ano de 2015.

“As escolas nunca tiveram tal alimento no cardápio. Mas, quando fizemos a demonstração, alguns alunos, ao verem a carne clarinha, chegaram a comentar que o frango estava muito bom”, comenta o Diretor.

 

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