Nutrição e meio ambiente, o que deve mudar na nutrição para atender estas novas exigências?

  • Publicado em
  • Categoria

    Suínos

A produção de aves continua crescendo em ritmo acelerado, sobretudo devido ao crescimento da população mundial. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), em 2008, 56,8 bilhões de aves foram abatidas para o consumo humano. Este aumento na demanda tem exigido uma intensificação na produção de aves e, em contrapartida, tem se observado um aumento na produção de dejetos por unidade de área. Por fim, estamos observando um rigor cada vez maior nas legislações ambientais e um dos desafios da atividade avícola do século 21 será a diminuição de seu impacto sobre o meio ambiente. É de conhecimento geral que uma nutrição otimizada diminui o potencial poluidor da produção de aves. O objetivo deste texto é de sugerir estratégias do ponto de vista nutricional e de manejo alimentar que possam ser empregadas para minimizar a excreção excessiva de nutrientes (poluentes) no ambiente.

1. Estratégias para diminuir a excreção de nutrientes de forma geral

De maneira geral, medidas que propiciem uma dieta com níveis nutricionais mais ajustados para cada fase e categoria animal, evitando a formulação com amplas margens de segurança, implicam em redução na excreção ambiental de nutrientes. Estas medidas estão relacionadas, por exemplo, à formulação mais precisa das dietas, evitando margens de segurança muito amplas. Para tanto, é necessário ter dados precisos da composição nutricional das matérias-primas; que se obtenha os pesos precisos dos ingredientes e das batidas, e que se formule as dietas com base nos valores disponíveis dos nutrientes, e não somente com base nas análises químicas. Uma valiosa ferramenta que se apresenta promissora para o futuro é a tecnologia NIRS, que dará a oportunidade de se obter a composição de cada lote de ingrediente na fábrica de ração rapidamente, e a um baixo custo, permitindo ajustes nas matrizes nutricionais antes da produção da ração. Outros conceitos, como a segregação de ingredientes nas fábricas de acordo com sua qualidade nutricional, também irão culminar na otimização destes para as necessidades das aves e diminuição da sua excreção por excesso de ingestão. O aumento no número de fases alimentares com a finalidade de diminuir a excreção de nutrientes está fundamentado no conceito de que, conforme as aves crescem, suas exigências nutricionais mudam. Quando o programa nutricional está dividido em poucas fases, as aves passarão maior número de dias alimentando-se com uma dieta cujos níveis nutricionais estão aquém ou além dos exigidos para a idade; no primeiro caso, sua performance será menor do que seu potencial genético permite, enquanto que, no segundo caso, a excreção de nutrientes para o ambiente é aumentada porque a ave não está sendo capaz de utilizá-los totalmente em sua síntese de tecidos. A microbiota presente no trato gastrintestinal das aves exerce pronunciado efeito sobre o seu crescimento e sua eficiência de utilização dos nutrientes, podendo afetar a morfologia do lúmen intestinal, alterando também a utilização de nutrientes exógenos e endógenos no lúmen. Assim, caso a microbiota esteja desbalanceada, a retenção de nutrientes é comprometida e a excreção de nutrientes ao ambiente é aumentada. Portanto, aditivos que possuem ação benéfica sobre a microbiota diminuem a excreção de poluentes.

2. Estratégias específicas para diminuir a excreção de nitrogênio

Onitrogênio dos dejetos animais apresenta-se, principalmente, como óxido nítrico (NO3) e amônia, que são emitidos à atmosfera, e como nitrato que, através da penetração no solo e da lixiviação pela água das chuvas, atinge as águas dos lençóis freáticos, rios e lagos. Na atmosfera, a amônia forma aerossóis com propriedades ácidas e, ainda, é uma fonte de odores na avicultura, com implicações negativas sobre o bem estar das aves e críticas em algumas regiões em que há grande proximidade entre as granjas e os centros urbanos. Uma das maneiras de reduzirmos a excreção deste nutriente é a diminuição da quantidade de proteína bruta da dieta, através da formulação com base na digestibilidade dos aminoácidos e da relação entre eles, além da utilização de aminoácidos sintéticos nas fórmulas. Pesquisadores australianos estão também tentando aplicar em frangos um conceito bem conhecido entre os nutricionistas da espécie suína: o da formulação com base na energia líquida. Esta é definida como a energia metabolizável menos a perda de energia causada pelo incremento calórico (ou calor produzido durante a digestão do alimento, do metabolismo dos nutrientes e da excreção). Como as proteínas são substâncias que são submetidas à síntese e ao catabolismo, a sua metabolização acarreta gasto energético. No sistema de energia líquida, o custo da energia ($/tonelada, dividido pela energia) é diferenciado, de modo que o custo/kcal aumenta para alimentos ricos em proteínas, e é menor para aqueles ricos em gordura, quando comparado com os sistemas que utilizam energia digestível ou energia metabolizável, forçando a limitação da utilização de ingredientes caros, ricos em proteína.

3. Estratégias específicas para diminuir a excreção de fósforo

É um dos principais nutrientes que causam eutroficação, poluindo as águas superficiais e subterrâneas. Assim, atualmente, é importante entender a forma com que o fósforo é excretado e/ou disponibilizado na natureza (solúvel ou insolúvel). Por fim, a otimização da utilização de fósforo possui um impacto econômico bastante acentuado, sendo um dos nutrientes mais caros nas formulações, ficando somente atrás da energia e da proteína. Cerca de 50 a 80% do fósforo presente nos cereais não está disponível para os animais monogástricos, pois está complexado com o ácido fítico, sendo, consequentemente, excretado no ambiente. Assim, o uso de fitases exógenas, utilizadas para tornar o fósforo fítico mais disponível aos frangos, é uma alternativa importante para diminuir a sua excreção e para baratear o custo das fórmulas, diminuindo a inclusão de fontes inorgânicas de fósforo. Deve-se evitar, no entanto, associar o uso de fitase à formulações com altas margens de segurança, pois há evidências científicas de que, quando há excesso de fósforo na dieta, a utilização de fitase aumenta a eliminação da forma solúvel do fósforo no ambiente. Além da fitase, há ainda outros aditivos que estão associados a aumento na absorção de fósforo, tais como os ácidos orgânicos e a vitamina D3 e seus metabólitos (1,25 dihidroxicolicalciferol (1,25-(OH)2D3), 1a colicalciferol (1a-OHD3), 25 hidroxicolicalciferol (25-OHD3)). Importante também atentar para a relação entre cálcio e fósforo das dietas, uma vez que o primeiro prejudica a absorção do segundo, sendo recomendado uma relação Ca:P de não mais que 2,2:1 para frangos. Outras estratégias em termos de tecnologia na fabricação de alimentos podem ser empregadas ainda, destacando-se a utilização de dietas com maior tamanho de partícula, o que, segundo alguns autores, aumentaria a absorção de fósforo e outros nutrientes, pois ficam retidas por mais tempo na moela. No campo do melhoramento genético, o desenvolvimento de variedades de milho com baixa presença de fitato já é uma realidade.

4. Estratégias específicas para diminuir a excreção de microminerais

No caso dos microminerais, uma abordagem para minimizar a inclusão de fontes inorgânicas de microminerais na dieta é a formulação baseada no conteúdo de minerais que os ingredientes possuem. Para exemplificar, autores observaram que a disponibilidade de magnésio, manganês e cobre no farelo de soja é de 50 a 78%; ainda, fosfatos defluorinados contém até 10.000 ppm de ferro, sendo este mineral, em média, 50% biodisponível. A forma na qual os minerais estão disponíveis influencia sua absorção intestinal e, consequentemente, a excreção destes no meio ambiente. Em geral, quando os minerais estão na forma de sulfatos são mais disponíveis do que na forma de óxidos. Nas últimas décadas, vem também intensificando-se as pesquisas sobre outras fontes de minerais teoricamente mais biodisponíveis que as inorgânicas, como as fontes orgânicas e básicas. Enquanto as primeiras consistem, de maneira simplista, em moléculas de minerais complexadas a moléculas orgânicas (aminoácidos, polissacarídeos e proteinados) e, por isso, mais facilmente absorvidas pelo epitélio intestinal, os minerais básicos são menos reativos com os outros nutrientes nas condições fisiológicas do trato gastrointestinal.

5. Conclusão

A busca por melhorias nas dietas pode ser uma maneira efetiva de diminuir a eliminação dos principais poluentes pelas excretas das aves, bem como a produção de odores. Princípios básicos de nutrição, como a utilização de matérias primas de qualidade, a diminuição da amplitude das margens de segurança a partir do melhor conhecimento do teor nutricional dos ingredientes, bem como a utilização do processamento e o conhecimento relativos ao tamanho de partícula dos ingredientes, irão permitir melhorar a retenção destes nutrientes pelas aves e diminuir sua excreção no meio-ambiente. Novas fontes de minerais, com melhor biodisponibilidade, estão sendo pesquisadas. O advento das fitases é uma tecnologia que permitiu a diminuição da inclusão de fontes inorgânicas de fósforo. Essas estratégias, se bem empregadas, podem, além de diminuir o impacto ambiental da atividade avícola, trazer benefícios econômicos ao produtor, que irá baratear o custo das dietas.

  • Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz é Doutor em Nutrição Animal pela Universidade da Califórnia - EUA, Mestre em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Diretor Técnico da Provimi América Latina.

  • Daniel Gonçalves Bruno

    Daniel Gonçalves Bruno

    Atualmente trabalha na Provimi América Latina, com pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Graduou-se em medicina veterinária na USP e fez mestrado na mesma Universidade, na área de Nutrição e Produção Animal.

Acompanhe
Clique e compartilhe