Diarreia Epidêmica Suína (PEDv), o grande desafio da suinocultura

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    Suínos

A diarreia epidêmica suína ou PEDv, sigla do nome em inglês Porcine Epidemic Diarrhea Virus, está apresentando novos casos e espalhando terror à suinocultura mundial desde a confirmação da primeira granja com diagnóstico positivo em maio de 2013, nos Estados Unidos. A doença não havia sido diagnosticada nos EUA antes (Stevenson et al., 2013) e o número de casos está crescendo tão rapidamente que seis meses após o primeiro diagnóstico já eram 1.069 casos positivos em 19 estados norte-americanos (Chen et al., 2014) e, um ano após a descoberta do surto, o vírus está presente em 25 estados do país e também em outros países do continente, como Canadá, México, Peru e

Colômbia (Mapa 1). Esta doença, atualmente considerada a enfermidade entérica de maior significância econômica na suinocultura (Stevenson et al., 2013), já havia sido descrita na Europa no início da década de 70, mais precisamente na Inglaterra (1971), se espalhou por outros países europeus e era denominada como diarréia viral epidêmica ou Epidemic Viral Diarrhea (EVD) antes de aparecer na Ásia nos anos 80 (Pensaert e Yeo, 2006). Porém, o vírus recém descoberto nos Estados Unidos parece ser um pouco diferente dos vírus diagnosticados nos outros países e está sendo chamado de Vírus da PEDv americano (US PEDv). No Brasil, não há evidencias da ocorrência da PEDv até o presente momento.

O vírus da PEDv é um vírus envelopado, RNA de fita simples, pertencente ao gênero Coronavirus e à família Coronaviridae (Magstadt et al., 2014). Suínos de todas as idades são acometidos, mas a forma mais grave ocorre em leitões. Após a transmissão fecal-oral, o vírus infecta os enterócitos, resultando em atrofia das vilosidades, diarreia aquosa, vômitos e anorexia dos suínos acometidos (Deouck and Penseart, 1980). O aparecimento dos sinais é rápido. Debouck et al. (1981) inocularam oralmente isolados do vírus em leitões de três dias e os animais apresentam os sinais 22 a 36 horas após a infecção. A enfermidade causa 100% de mortalidade nos leitões lactantes acometidos (Gráfico 1) durante 4 a 5 semanas após a infecção. Depois dessa fase, o plantel cria uma resposta imune e as matrizes começam a transferir imunidade aos leitões via colostro, o que contribui para a redução da mortalidade dos leitões a um número aceitável nos índices de produção. Em animais mais velhos ocorre inapetência, atraso no desenvolvimento, vomito e diarreia (foto abaixo).

A doença não é classificada como uma zoonose, pois tem o caráter espécie específico, não apresentando qualquer risco para outras espécies animais e também ao homem. A alta taxa de mortalidade dos leitões está ocasionando grande perda econômica não só para os produtores, mas para toda

Gráfico 1 - Percentual de leitões desmamados antes, durante e após a infecção de granjas com o vírus da Diarreia Epidêmica Suína

a cadeia suinícola envolvida (Goede and Morrison, 2014). Dados de órgãos norte-americanos apontam alguns números assustadores, indicando que a PEDv já matou cerca de 7 milhões de leitões lactantes, que a falta de animais prontos para o abate já alcançou aproximadamente 3 milhões de cabeças e que em setembro de 2014 poderá haver redução de 25 a 30% no número de suínos disponíveis para o abate nos três países da América do Norte. Uma ação que visa minimizar os prejuízos causados pela PEDv é o aumento de peso de abate dos animais que vão para a recria e engorda em países positivos para aumentar a oferta de carne no mercado.        

 Embora os vírus da PEDv e da gastroenterite transmissível dos suínos (TGE) – enfermidade que também não há diagnóstico no Brasil – sejam genética e antigenicamente distintos, os sinais clínicos e lesões histopatológicas dessa enfermidade são semelhantes, como coloração fecal do períneo, flacidez, grande presença de liquido (Foto 2), afinamento e transparência das paredes das alças do intestino delgado (ID) (Fotos 3), atrofia da vilosidade com degeneração ou necrose das células epiteliais do ID (Schiltz et al., 2014). Porém, o vírus da PEDv parece ser muito mais patogênico que o vírus da TGE. Em um surto de PEDv em uma granja nos EUA, Dufresne e Robbins (2014) encontraram concentração maior de PEDv de 10.000 a 1.000.000 de vezes maiores quando compararam com o vírus da TGE, o que nos permite dizer que podemos encontrar mais PEDv em uma grama de fezes contaminada do que TGE em uma tonelada de fezes contaminadas. Essa informação da grande quantidade de vírus excretado nas fezes e sua sobrevivência por duas semanas nas instalações – pois é necessário o aquecimento a 60°C por 30 minutos para inativar o vírus (Pensaert e Yeo, 2006) – podem explicar a rápida disseminação da doença.

O diagnóstico não pode ser realizado apenas pelos sinais clínicos, pois surtos de diarreia em animais de várias idades faz com que a PEDv seja facilmente confundida com a TGE. Por isso, um conjunto de fatores deve ser considerado para realizar o diagnóstico. Além do exame histopatológico que deve ser realizado e analisado juntamente com os sinais clínicos, já existem alguns kits comercias disponíveis que podem realizar testes rápidos de PEDv em nível de campo e também algumas provas que podem auxiliar no diagnóstico, como microscopia eletrônica, imunohistoquímica, PCR, sorologia e imunocromatogrofia. Porém, algumas provas possuem alguma forma de limitação.

No passado, os surtos da doença eram poucos e não eram tão críticos. Portanto, o desenvolvimento comercial de vacinas para a PEDv não era economicamente viável. Contudo, hoje, o pensamento é diferente e especialistas de várias instituições estão trabalhando para a produção de vacinas contra a PEDv. Entretanto, é difícil obter um isolado de US PEDv que cresça eficientemente em células de cultura para estudos da patogenia, desenvolvimento de ensaios, provas de diagnósticos e desenvolvimento de vacinas eficientes para o controle da doença (Chen et al., 2014).

Alguns países já proibiram a importação de animais e subprodutos para alimentação animal que contenham carne suína provenientes de países positivos. China e Japão já vinham restringindo a importação de carne suína dos EUA, já a França foi o primeiro país europeu a tomar essa medida. Como até o momento não conhecemos todas as fontes de transmissão e possíveis formas de entrada da doença – como já citado anteriormente não há diagnostico positivo para a PEDv no Brasil – e algumas medidas em nível de importação de produtos e material genético ainda estão sendo estudadas por órgãos competentes para evitar a possível introdução do agente nos rebanhos brasileiros, o emprego de boas práticas de manejo de prevenção e biossegurança sem dúvida são fundamentais para o país continuar livre dessa doença.

 

 

  • Diogo Luis Fontana (Coordenador de Assistência Técnica de Suinocultura), MSD Saúde Animal

    Diogo Luis Fontana (Coordenador de Assistência Técnica de Suinocultura), MSD Saúde Animal

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