Considerações sobre ambiente para suínos em fase de creche e terminação

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    Suínos

A intensificação da produção de suínos trouxe várias vantagens para a cadeia da suinocultura, porém devido a alta concentração de animais no mesmo espaço, a pressão de infecção aumenta e com ela também aumenta o risco de problemas sanitários. O tratamento de infecções tem alto custo com medicamentos e por isso, a maneira mais econômica é intensificar as medidas profiláticas e promover a saúde do animal, disponibilizando instalações, manejo e ambiente adequados para cada fase da produção de suínos. O desconforto, gerado por um ambiente inadequado, implica em estresse, em função do esforço realizado pelo animal com a finalidade de manter sua temperatura corporal constante, além de sofrer agressões no trato respiratório devido as altas concentrações de gases presentes no ambiente. Estas condições fazem com que o animal seja incapaz de demonstrar o máximo potencial genético, de manter seu estado perfeito de saúde e de aproveitar o potencial da nutrição fornecida, seja pelo consumo ou por digestibilidade. A manutenção do conforto do animal por meio do controle do ambiente é, portanto, complementar e fundamental para o bom desempenho dos animais criados intensivamente. Além disso, pouco se sabe sobre o quanto é possível atribuir a queda na produtividade ao consumo de ração, e sobre o ponto a partir do qual a influência é exclusivamente do ambiente.

Condições de temperatura ótima para suínos

Tanto na creche quanto na terminação de suínos, o controle da temperatura interna do galpão não é uma atividade frequente entre os produtores. Porém, a temperatura do ambiente é fundamental para que o animal tenha alta taxa de ganho de peso, pois não há desvio de energia para manter a temperatura corporal na zona de termoneutralidade. Esta zona (Tabela 1) é limitada pela temperatura crítica inferior, ou seja, pela temperatura ambiental abaixo da qual o animal aciona seus mecanismos termorregulatórios no sentido de produzir calor para balancear a dissipação de calor para o ambiente frio, e pela temperatura crítica superior, que é a temperatura ambiental acima da qual ocorre a termorregulação no sentido de auxiliar o animal na dissipação de calor corporal para o ambiente (SAMPAIO et al., 2004). Pode ser citada, como reação às temperaturas fora da zona de termoneutralidade, a ocorrência de tremor muscular quando a temperatura está abaixo da temperatura crítica inferior, ou de respiração acelerada ou suor, quando essa temperatura está acima da crítica superior CURTIS, 1983).

Uma maneira de medir o conforto térmico do animal é através de índices de conforto térmico. Os índices de conforto térmico mais usados são o de THOM (1958), denominado de índice de temperatura e umidade (ITU) que associa a temperatura de bulbo seco e a temperatura do bulbo úmido e o desenvolvido por BUFFINGTON et al. (1981), que propuseram um índice que considera em um único valor os efeitos da temperatura de bulbo seco, da umidade do ar, do nível de radiação e da movimentação do ar, que denominaram de índice de umidade e temperatura de globo (ITGU). BUFFINGTON et al. (1981) afirmaram que o ITGU seria um indicador mais preciso do conforto térmico e da produção animal quando comparado ao ITU em condições ambientais onde a radiação solar ou a movimentação do ar sejam altas, sendo que sob condições moderadas de radiação solar são igualmente eficientes, e quando se compara medições em locais com e sem cobertura, os ITUs não apresentaram diferenças significativas, enquanto que o ITGU apresentou diferenças significativas, principalmente para locais sem cobertura.

A carga térmica de radiação (CTR) é outro indicador de conforto térmico que expressa a radiação total recebida pelo globo negro proveniente do ambiente ao seu redor (ESMAY, 1982). Segundo BACCARI JR. (2001), o sombreamento pode reduzir de 30 a 50% a carga de calor sobre os animais, sendo possível reduzir até mais de 50% a CTR sobre os animais pela cobertura das instalações (TURCO, 1993). Além disso, sabe-se que o sombreamento (Figura 1a e 1b) das instalações também auxilia na redução da radiação sobre a cobertura, reduzindo a carga térmica sobre os animais, além de ser uma ação de baixo custo para o produtor.

Com a presença de sombreamento pode-se conseguir uma redução de até 16,1°C em relação a áreas com ausência deste. Com o objetivo de avaliar o efeito do estresse térmico no desempenho de suínos de 15 a 30 Kg de peso vivo, MANNO et al. (2005) compararam grupos de animais submetidos a temperatura de conforto (22°C) e em temperatura fora da zona termoneutra para animais dessa fase (35°C). Os autores concluíram que a alta temperatura ambiente, por meio da redução do consumo de ração, influencia negativamente o ganho de peso, a conversão alimentar e a deposição de proteína, além de aumentar a frequência respiratória e a temperatura retal de suínos (Tabela 2).

A diferença de 3,36 Kg no ganho de peso entre os tratamento tem muita importância nessa fase, já que representa um período onde o animal tem grande potencial de crescimento podendo gerar ao produtor maior rentabilidade. Porém, se há um fator limitante ao conforto dos animais (ambiente inadequado), estes não irão expressar o seu potencial máximo de crescimento. O baixo desempenho dos animais do grupo submetido ao estresse térmico deve-se principalmente a redução do consumo de ração e também ao maior gasto de energia para o organismo manter a temperatura corporal, fato que é evidenciado pela maior taxa respiratória dos animais criados em temperatura acima da zona de conforto.

Várias alternativas de acondicionamento térmico natural são sugeridas a fim de amenizar as adversas condições térmicas ambientais de verão, no interior dos alojamentos, tais como a escolha adequada do local, orientação longitudinal da instalação no sentido leste-oeste, cobertura refletiva, cobertura vegetal ao redor das instalações, beirais amplos, pé-direito elevado, presença de lanternim e aberturas amplas para entrada e saída de ar (BAÊTA e SOUZA, 1997). No entanto, em algumas regiões torna-se ainda necessária a utilização de recursos artificiais para melhorar o ambiente dos animais.

Uma alternativa é o sistema de resfriamento evaporativo que consiste na utilização de um ventilador acoplado com um sistema de nebulização (SARTOR et al., 2003). Comparando o sistema de resfriamento evaporativo (SRE) com um grupo testemunha (STE), SARTOR et al. (2003) constataram que a conversão alimentar do grupo SER foi 14,75% melhor que o grupo testemunha (3,32 vs 2,83). O ganho de peso diário também foi melhor nos animais submetidos ao sistema de resfriamento evaporativo (0,950gr. vs 1,050gr.).

Da mesma maneira que o calor, temperaturas ambientais abaixo da zona de conforto dos animais pode prejudicar o desempenho por demandar mais energia por parte do animal para manter a temperatura corporal constante. Dessa forma, a quantidade de energia que, em situações de ambiente adequado, seria deslocada para o crescimento, é redirecionada para o controle da homeotermia, gerando assim uma redução na oferta de energia para o desenvolvimento do suíno.

Em regiões com inverno rigoroso, além da ocorrência de temperaturas ambientais muito baixas, outro agravante é a ventilação/exaustão nas instalações de suínos. Com o objetivo de manter as temperaturas adequadas para os animais, as cortinas/janelas das instalações são mantidas fechadas por mais tempo e com isso, a taxa de renovação do ar fica prejudicada. Como consequência, há aumento da concentração de poeira e gases produzidos pelo organismo dos animais e pela fermentação dos dejetos.

A Figura 2 mostra o comportamento do nível de CO2 em uma instalação de suínos na fase de creche e a temperatura média interna do galpão em relação as horas do dia. Esse trabalho foi conduzido pela Nutron Alimentos Ltda em uma propriedade de suínos no extremo oeste de Santa Catarina nos meses de Janeiro e Fevereiro de 2012. Aproximadamente as 7 horas da manhã, as cortinas foram abertas pelo produtor pois a temperatura média interna estava aumentando. Ao mesmo tempo, nota-se que a concentração de CO2 começou a cair de 1.600 ppm até 615 ppm as 14 horas. No final da tarde, quando a temperatura começa a cair novamente (17 horas),verifica-se que a concentração de CO2 começa a se elevar, saindo de 615 ppm as 17 horas para um nível de aproximadamente 1600 ppm as 21 horas, mantendo esse patamar por toda a noite até que se abram as cortinas novamente para que ocorra a circulação e renovação do ar. Essa situação demonstra claramente a necessidade de renovação constante do ar em instalações de suínos. A produção de CO2 pelos animais está diretamente relacionada com sua produção de calor, sendo essa função do seu peso corporal e do seu ambiente térmico. Estudos realizados com o dióxido de carbono (CO2) evidenciam que, a partir de certos limites de concentração (3.000 ppm), esse gás afeta a saúde dos suínos (NADER et al., 2002) podendo causar letargia nos animais com consequente redução do consumo de ração. Em concentrações mais elevadas pode induzir a morte por asfixia.

Assim como o CO2, outros gases podem ser encontrados em instalações de suínos e podem prejudicar a saúde dos animais. Segundo a Commission Internationale du Génie Rural (CIGR, 1994), os gases originam-se da respiração dos animais e de outras fontes, como pela decomposição microbiana de urina e fezes, que é afetada pela temperatura, pH e atividade atividade água da massa de excrementos. As recomendações pela CIGR (1994) de concentração máxima de amônia, sulfeto de hidrogênio, monóxido de carbono e dióxido de carbono aos animais podem ser visualizadas na Tabela 3.

Nos suínos, a amônia é associada com redução do apetite, convulsão (STOMBAUGH et al., 1969) e problemas na respiração devido à ocorrência de atrofia de cornetos em leitões (ROBERTSON et al., 1990). BARKER et al. (2002) descrevem que em suínos expostos a 50 ppm de NH3 já se verifica redução no seu desempenho, além da possibilidade de ocasionar doenças respiratórias. Na concentração de 100 ppm ocorre também espirros, salivação e perda de apetite e acima de 300 ppm, ocorre também irritação no sistema respiratório e convulsões.

A importância de NH3 sobre o ganho de peso dos suínos é mostrada no experimento realizado por JENSEN (2002), o qual verificou que a redução do gás no ambiente dos animais usando uma mistura de água e ácido sulfúrico no dejeto (pHdiminuiu para 5,5), contribuiu para acréscimos de até 12% no ganho de peso dos animais (959 g/dia para 1074 g/dia), como mostra a Tabela 4. O experimento foi realizado com animais de peso médio de 25 e 95 kg.

DRUMMOND et al. (1980) encontraram redução no ganho de peso diário de 12, 30 e 29% (0,434, 0,345 e 0,346 kg/ dia) e inflamação na traquéia em suínos jovens (8,4 ± 0,26 kg) expostos durante cinco semanas às concentrações de 50, 100 e 150 ppm de NH3, respectivamente, quando comparados com os suínos mantidos sob controle (0,491 kg/dia). A redução de desempenho pode ser explicada pela diminuição significativa do consumo de ração verificado pelo mesmo trabalho (Figura 3).

SAMPAIO et al. (2007) avaliaram a concentração de NH3 e a temperatura de bulbo seco (TBS) em instalações de terminação de suínos de duas granjas (G1 e G2). Semelhantemente ao que ocorre em instalações de creche, a concentração de NH3 aumentou significantemente durante o dia (Figura 4) concordando com os resultados obtidos por SCHMIDT et al. (2002) e CHANG et al. (2001), sendo maior à tarde, nos horários mais quentes, devido à maior atividade de fermentação de dejetos. O mesmo comportamento foi observado na mesma instalação no período de inverno, sendo que a concentração máxima de NH3 durante o dia alcançou valores próximos a 25 ppm. Esses resultados comprovam a importância da ventilação mínima para a dissipação dos gases tóxicos aos animais.

Nesse contexto, ainda são poucas as instalações de suínos que possuem um sistema de exaustão eficiente para dias mais frios em que as cortinas permanecem mais fechadas. Os exaustores devem ser posicionados estrategicamente ao longo da instalação e ter seu funcionamento baseado em intervalos de tempo e não conforme a temperatura interna do galpão. Para a determinação do intervalo de tempo para acionamento do exaustor e o tempo de permanência em atividade, é necessária uma prévia avaliação da produção de gás e das características da instalação para determinar de forma precisa o intervalo de acionamento dos exaustores. Essa avaliação pode ser realizada através de instalação de sensores que determinam a concentração de gases e temperatura da instalação, podendo estes dados serem visualizados em tempo real. Dessa forma, consegue-se controlar a concentração de gases nocivos no interior do galpão sem alterar de maneira significativa a temperatura interna.

Outro ponto a considerar é a sinergia entre amônia (NH3), poeira e microorganismos, com a potencialização dos efeitos nocivos sobre o animal. A amônia e partículas de poeira facilitam ainda mais a entrada e a multiplicação de microorganismos infecciosos no trato respiratório (GUSTAFSSON, 1997), e a partir desta analogia, DONHAM (1999) recomenda como segurança, um máximo de 7 ppm de NH3 nas instalações para suínos.

No interior dos prédios, microorganismos podem se movimentar pelo ar na forma de aerossóis ou aderidos a partículas como pó de fezes ou de ração (BARCELLOS; BOROWSKI; WALD, 1998). Na medida em que aumenta o número de partículas em suspensão no ar, maior é a chance de infecção de indivíduos susceptíveis. Segundo AENGST (1984), os elementos integrantes da poeira em granjas de suínos são água (13,1%) e matéria seca (86,9%). Na mesma, encontram-se cinzas (14,6%), proteína bruta (23,9%), gorduras (4,3%) e fibra (3,4%). Medindo o nível de poeira depositado nas instalações, foram encontrados níveis diários médios de 2,61 g/m2. RYHR-ANDERSON (1990) estudou o efeito de aspersões com água como meio de reduzir a concentração de poeira em instalações ocupadas por leitões em crescimento. O volume testado foi de 0,3 litro/m2, usando 6, 9 e 36 aplicações diárias. A queda nos níveis de poeira foi respectivamente 15, 48 e 73%. Foi também observada redução na ocorrência de pleurite nos grupos tratados. No Brasil, BARCELLOS et al. (1998) avaliaram a utilização do sistema de aspersão de desinfetante a base de digluconato de clorhexidina em concentrações variando de 1:250 a 1:800, no volume de 80 mL por m2 de piso das instalações em relação à ocorrência dos sinais clínicos de tosse e espirro nos animais. Os resultados mostraram que para o controle dos espirros poderiam ser usadas diluições de até 1:500 a cada 24 ou 48 horas. Para o controle das tosses, os melhores resultados poderiam ser esperados com o uso das diluições de 1:500 (a cada 24 horas) ou 1:250 (a cada 48 horas). Os autores especularam que a queda nos níveis de poeira do ambiente e, eventualmente, de patógenos no ar, tenha resultado numa redução dos desafios e/ ou irritação do trato respiratório, com reflexo na diminuição dos sinais de tosses e espirros (BARCELLOS et al., 1998).

Mais recentemente surgiram para uso aparelhos de termonebulização que, segundo informações do fabricante, liberam partículas entre 1 a 50μ. Estes aparelhos geram uma fina névoa, com partículas capazes de penetrar no trato respiratório inferior e que podem ficar suspensas no ar por aproximadamente 20 minutos. O seu uso representaria um avanço real em relação à aplicação com a bomba costal (aspersão), pois o menor diâmetro dos aerossóis permitiria um efeito direto sobre áreas do trato respiratório inferior, podendo potencialmente contribuir para a redução da contaminação. MORES (2010) avaliou o sistema de termonebulização em um sistema de terminação de suínos. Os resultados podem ser visualizados na Tabela 5.

Comparando, ao abate, dados dos animais que tinham pulmões com e sem lesões de consolidação nos três grupos experimentais, observou-se que, no T1 (Controle), para os animais com consolidação pulmonar, houve uma redução média de 2,35% (24 gramas) do GPD total em relação aos animais sem consolidação. Nos grupos T2 e T3 não houve diferença de peso entre os animais com e sem lesões. Este resultado poderia refletir simplesmente o efeito do desinfetante em reduzir a microbiota do ambiente, melhorando as condições do ar ou ser um efeito determinado pela inalação do produto desinfetante e ação direto nas vias aéreas. Isso se justificaria pelo fato de que, com o aparelho de termonebulização usado, pelo menos parte das partículas geradas (1 a 50 micra) seria capaz de alcançar os tratos respiratórios superior e inferior (BARCELLOS et al., 2008).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O controle do ambiente em suinocultura é de extrema importância para primeiramente, realizar um diagnóstico de como se comporta a qualidade do ar no interior da instalação em função das características das instalações e do manejo aplicado. Sendo assim, o correto diagnóstico do ambiente permite tomar decisões efetivas para melhoria da qualidade do ar e ainda determinar modificações nas instalações que facilitem o controle da temperatura e umidade e eliminação de gases que comprometem a produção.

Porém, antes de realizar um diagnóstico acurado de uma propriedade, avaliando o comportamento da concentração de gases por meio de sensores instalados no galpão, faz-se necessário a utilização de um simples termômetro de máxima e mínima para conhecimento do clima da região e como se comporta a temperatura e a umidade dentro da instalação. Para evitarmos as perdas, seja por mortalidade ou por perda em desempenho, devemos prover saúde ao suíno. A melhor forma de atender essa exigência é melhorar a qualidade do ambiente em que os animais são criados.

  • Tiago J. Mores

    Tiago J. Mores

    Consultor Técnico de Suínos – Nutron Alimentos, Médico Veterinário com graduação na Universidade do Estado de Santa Catarina e Mestrado com ênfase em Sanidade Suína pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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