Como combater a Disenteria e a Colite Espiroquetal Suína?

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Por Vivian Ferreira da Silva (Coordenadora de Produtos – Medicamentos), Cargill Alimentos-Nutron

Os tratamentos comumente utilizados são, em geral, direcionados para combater a forma aguda da doença. Desta forma, casos de recidivas são comuns e os gastos com medicamentos são normalmente altos, o que leva à necessidade de erradicação da doença. A erradicação consiste em eliminar a infecção dos suínos e do ambiente (quebra do ciclo de infecção).

Para a eliminação do agente nos suínos é necessário utilizar drogas que combatem a doença, sendo as mais eficientes drogas à base de valnemulina e tiamulina, ambas as moléculas pertencentes ao grupo das pleuromutilinas. Para eliminação do agente do ambiente deve-se elaborar um programa de limpeza e desinfecção das instalações e de seus arredores que se adapte à granja, com foco total na eliminação da matéria fecal. O ideal é iniciar o programa de erradicação nos períodos quentes e de seca, quando a resistência da bactéria no ambiente é menor. Além disso, deve-se realizar um intenso combate a roedores e insetos, assim como a outros possíveis vetores do agente.

A profilaxia da Disenteria e a Colite é feita a partir da quarentena dos novos animais antes de introduzi-los em plantéis livres, adotando um programa permanente de monitoramento para os animais de reposição. Outras medidas de importância para o controle e/ou prevenção da infecção incluem:
• Fornecer água limpa e abundante
• Manter os animais em piso com pouca umidade e em ambiente com conforto térmico
• Controlar vetores como ratos, camundongos e moscas
• Minimizar o estresse, principalmente nas fases de transporte e de alojamento dos leitões
• Utilizar um programa de medicação profilático na primeira semana após a transferência para as recrias e/ou terminações
• Utilizar um programa de desinfecção eficiente
• Utilizar sistema de manejo do tipo “all in - all out”
• Adotar cuidados para garantir a compra de animais de reposição a partir de plantéis livres
• Povoar instalações de recria ou terminação com animais de apenas uma origem e da mesma idade

Em casos de necessidade de controle da Desinteria e da Colite Espiroquetal devem ser medicados todos os animais doentes e não apenas aqueles com diarreia dentro de uma baia. Devem também ser tratados os lotes das baias adjacentes. Todas as medidas de manejo capazes de reduzir a contaminação fecal/oral podem diminuir a pressão infectante e auxiliar no controle de surtos da doença, tais como a retirada periódica das fezes do piso das baias. Desta forma, é possível reduzir o risco de animais portadores virem a infectar outros que não tenham tido prévia exposição ao agente e não eram imunes à doença. Alguns fatores importantes para interromper a cadeia infecciosa são:
• Utilizar equipamentos e vestuário exclusivos para manejar os animais doentes (principalmente botas). O objetivo desta prática é evitar a difusão horizontal da infecção entre baias
• Eliminação de carcaças de forma eficiente, que não tragam riscos de difusão de infecções
• O contato dos animais com o conteúdo de canaletas de dejetos e/ou lâminas de água que fluam de maneira contínua entre diferentes baias cria uma fonte importante e não controlável de difusão de patógenos

Algumas possíveis alternativas para os leitões doentes que não responderem à medicação são separá-los dos animais sadios e tratar agressivamente com drogas antimicrobianas por via parenteral e os animais cronicamente infectados devem ser sacrificados ou remetidos ao abate.

Programas de erradicação da Disenteria Suína pela medicação, desinfecção e controle de vetores foram usados com variados graus de sucesso em diversos países, inclusive no Brasil (Mores & Sobestiansky, 1984). Nos programas foram utilizadas moléculas terapêuticas como tiamulina, valnemulina e oxitetraciclina. A Colite Espiroquetal também pode ser eliminada por essa rotina de manejo (Hampson & Trott, 1995). Práticas gerais a ser seguidas para erradicação incluem:
• Iniciar o programa em períodos nos quais a temperatura ambiental média seja superior a 15ºC
• Tentar reduzir ao máximo o número de animais do plantel com a interrupção da cobrição por três semanas e retirada de animais mais jovens que 10 meses de idade (estes animais podem ser terminados em instalações externas à granja)
• Se as parições estiverem ocorrendo em lotes, realizar o programa na época em que não estiverem ocorrendo partos
• Utilizar um programa eficiente de controle de vetores, principalmente roedores e insetos
• Limpeza diária das baias com remoção do esterco e da cama
• Limpeza semanal das calhas com remoção do material orgânico, lavagem e desinfecção
• Todos os prédios e instalações da granja que não estiverem alojando suínos devem ser lavados, desinfetados e caiados
• Medicar simultaneamente todos os animais da granja com uma droga ativa contra Brachyspira spp. e que inativa o agente no intestino por um período de 6 a 8 semanas. Corrigir a dosagem para os animais que eventualmente estiverem num regime de restrição alimentar (por exemplo, porcas na fase inicial da gestação)
• Medicação coletiva de todos os suínos da granja, com um medicamento na dose terapêutica
• Uma semana após o início da medicação todos os equipamentos usados para o manejo dos animais, da ração e para a limpeza devem ser lavados e desinfetados
• Durante o período de erradicação, deve ser feito esforço para limpar e desinfetar os pisos internos dos prédios com frequência
• Evitar excessos de lotação
• Evitar a entrada de pessoas, veículos e outros animais alheios à granja
• Para a opção de eliminação da B. hyo com despovoamento total do rebanho somente deverá ser adotado após estudo meticuloso dos custos da operação e sua viabilidade. Em alguns casos, este método é a única alternativa de erradicação da B. hyo

Por meio da aplicação cuidadosa da metodologia sugerida acima pode ser esperado para a erradicação um sucesso na ordem de 80 a 90%. Para monitorar se a infecção foi realmente eliminada recomenda-se que uma vez concluído o processo sejam mantidos animais com dieta não medicada por 3 a 6 meses. Considerando os ganhos na conversão alimentar, estima-se que com o uso de um programa de erradicação como o sugerido acima os custos com a medicação possam ser recuperados em 6 a 12 meses. Outra forma de erradicação viável seria o uso do desmame precoce segregado.

Até o momento, não foram desenvolvidas vacinas eficientes para o controle das infecções pela B. pilosicoli ou pela B. hyodysenteriae. Os animais doentes podem ser tratados com antimicrobianos fornecidos na ração ou pela água de bebida. De maneira geral, a Brachyspira spp. apresenta boa resposta à terapia com antimicrobianos como aivlosina, bacitracina, josamicina, lincomicina, tetraciclinas, tiamulina, tilmicosina, tilosina, valnemulina e virginamicina. Entretanto, já foram descritos casos de resistência a vários desses compostos, indicando a necessidade de orientação e acompanhamento veterinário da terapia.

Tabela 1 – Medicamentos indicados para o controle da disenteria suína nos EUA.

Nos EUA, a frequência de diagnóstico de Brachyspira spp. em suínos se manteve muito baixo até meados dos anos 1990. Porém, a partir dos anos 2000 a doença retornou. Em um estudo realizado em 2011 em Iowa, isolados de Brachyspira spp. demonstraram maior frequência de isolamento e também de potência hemolítica, ou seja, patogenicidade. A resistência destas bactérias aos antibióticos utilizados na produção de suínos tem sido estudada em testes de concentração inibitória mínima (CIM).

Este teste consiste em avaliar qual é a menor concentração do fármaco capaz de inibir o crescimento do agente testado. Utilizando a técnica da CIM, ao longo de 2008 até 2010 foi reportada resistência às moléculas lincomicina (80% das cepas estudadas possuíam MIC entre 32 e 64) e gentamicina, enquanto a resistência para valnemulina e tiamulina se mantinha a taxas muito baixas de 4,7% e 3,2%, respectivamente. Novotna et al. (2002) corroborou com estes dados em estudo realizado com cepas isoladas de animais com sinais de diarreia e diagnosticados com B. hyo. Neste trabalho, as cepas isoladas e identificadas por PCR foram testadas para obtenção do MIC para as moléculas tilosina, tiamulina e valnemulina, sendo que 16 de 17 cepas foram resistentes à tilosina (MIC 64 e 256 ?g/l) e apenas uma cepa dentre 19 foi resistente à tiamulina (MIC das cepas sensíveis variou entre 0,016 a 0,25 ?g/ml) e valnemulina (MIC das cepas sensíveis variou entre 0,016 a 0,064 ?g/ml).

Estudos europeus citam que as moléculas mais indicadas para o tratamento da Disenteria e da Colite são a tiamulina e valnemulina, em menor grau a doxiciclina e gentamicina e apresentando taxas de resistência as drogas à base de tilosina e lincomicina (Clothier et al., 2011; Pringle et al., 2012; Zmudzki et al., 2012).

Trabalhos nacionais demonstram que a B. hyo é muito sensível à tiamulina e em menor grau à oxitetraciclina e gentamicina, e praticamente resistente à clortetraciclina, tilosina e estreptomicina.

Dessa forma, concluímos que para a prevenção e controle das doenças causadas pelas bactérias do gênero Brachyspira é necessário um bom manejo dos animais, boas condições de ambiente e instalações, além da escolha correta dos medicamentos e da dose a ser utilizada para o tratamento e erradicação.

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