Uso racional dos antimicrobianos na suinocultura moderna

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A história do uso de antibióticos na produção animal vem de longa data! Nas décadas de 20 e 30, a descoberta da penicilina e das sulfas revolucionou a forma do homem tratar suas doenças e também de criar os animais.

O uso de antimicrobianos, como aditivos na alimentação animal, proporcionou um aumento no ganho de peso, na diminuição do tempo necessário para que o peso considerado como ideal para o abate seja atingido, na diminuição do consumo de ração, no aumento da eficiência alimentar e, entre tantos outros, na prevenção de patologias infecciosas e parasitárias com diminuição da mortalidade. Efeitos como estes tornaram a produção animal mais eficiente, reduzindo assim seus custos.

No entanto, a utilização indiscriminada e muitas vezes incorreta dos antibióticos favoreceu o aparecimento de cepas resistentes aos microorganismos, tornando mais difícil e oneroso o controle de doenças, além de ser um risco à saúde pública.

E, conforme foi ocorrendo o aumento da resistência aos antimicrobianos, foi necessário adotar medidas ligadas à segurança alimentar, à biossegurança e ao bemestar animal, para aqueles que desejam produzir e/ou exportar produtos agropecuários em um mercado globalizado. Desta forma, os antimicrobianos devem ser utilizados de forma correta, através da escolha do produto, da dosagem, do tempo de tratamento, etc.

A percepção dos consumidores está cada vez maior! E a pressão pelos produtos chamados “naturais”, “orgânicos” e livres de antibióticos ganha força no mundo todo. Sendo assim, este SUINEWS tem o objetivo de informar sobre o que está acontecendo no Brasil, nos dias de hoje, com relação aos procedimentos regulatórios e quais são as alternativas para se adequar às exigências nacionais e internacionais.

O que consta na legislação nos dias atuais?

As exigências dos consumidores, quanto à qualidade dos alimentos de origem animal e quanto à forma com que estes são produzidos, têm causado profundo impacto na produção em todo o mundo e, via de regra, na legislação que a regulamenta. Com isto, algumas normativas foram publicadas com relação ao uso de medicamentos veterinários e, em especial, de antibióticos nas dietas para aves e suínos. A seguir, algumas normativas recentes da legislação brasileira, já regulamentada pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA):

Instrução Normativa nº 4 (IN4)

A Instrução Normativa nº 4 tem como um dos objetivos garantir as Boas Práticas de Fabricação (BPF). Esta normativa envolve todos os estabelecimentos que fabricam e/ou industrializam produtos destinados à alimentação animal, onde são estabelecidos princípios de higiene ambiental, operacional e pessoal. Entre alguns aspectos que constam das Boas Práticas de Fabricação estão as matérias-primas; as edificações e as instalações; os equipamentos e os utensílios; a higienização; a higiene pessoal; o controle de pragas; a identificação, o armazenamento e a distribuição; a garantia e o controle de qualidade e a garantia de rastreabilidade.

Instrução Normativa nº 65 (IN65)

Aprova o Regulamento Técnico sobre os procedimentos para a fabricação e o emprego de rações, suplementos, premixes, núcleos ou concentrados com medicamento para os animais de produção. Ou seja, trata da inclusão de substâncias medicamentosas em suplementos nutricionais e/ou rações. A recomendação deve ser feita mediante a prescrição de um médico veterinário, incluindo dosagem e período de retirada. A IN65, no momento, é a que está sendo mais discutida entre os produtores rurais e empresas que fabricam os alimentos para os animais, pois esta normativa deixa claro que não é permitido o uso de medicamentos em empresas de alimentação animal que não estejam previamente autorizadas pelo MAPA. Para esta autorização, estar no grupo I de BPF (acima de 91 pontos) será um pré-requisito. Mais informações sobre a IN4 e a IN65 podem ser obtidas consultando o site oficial do MAPA que é

http://extranet.agricultura.gov.br/sislegis-consulta/consultarLegislacao.do

Desta maneira, os antibióticos devem ser utilizados de forma racional e as dietas devem ser produzidas avaliando a qualidade das matérias primas, do ambiente e dos instrumentos utilizados para a produção dos mesmos! Com isto, estas ações devem vir acompanhadas por uma lista de medidas investigativas para o rebanho, apontando para fatores predisponentes e recomendando mudanças de manejo, de nutrição, de higiene, entre outros. Será necessária uma mudança de atitude para que a atividade não perca a produtividade e a rentabilidade.

A situação atual não permite que as decisões sejam postergadas!

As doenças infecciosas devem ser controladas com biosseguridade e com programas de contenção, aliadas aos esforços contínuos para aperfeiçoar as estratégias de nutrição. Em um futuro, que cada vez está mais próximo, os antibióticos passarão a ser utilizados estritamente quando necessários e serão substituídos por aditivos que permitam a manutenção dos resultados zootécnicos do rebanho.

Quais as principais medidas de Biossegurança?

O conceito de biossegurança engloba a segurança de seres vivos, por intermédio da diminuição da ocorrência de enfermidades, através do desenvolvimento e da implementação de normas rígidas que terão como função proteger o rebanho contra a introdução de agentes específicos.

A figura abaixo ilustra bem os três aspectos determinantes da ocorrência de uma doença. E ocorrer um equilíbrio entre o suíno (e sua defesa imunológica), os microorganismos do meio e o ambiente.

Figura 1: Equilíbrio entre agente, suíno e ambiente

A seguir, algumas medidas de biossegurança que objetivam evitar a entrada de novos agentes na granja:

  • Trânsito de pessoas e veículos: visitantes, antes de ingressar na Granja, devem tomar banho e vestir roupas próprias da granja. Veículos devem passar por um rodolúvio antes de entrar na granja, onde este veículo será desinfetado.
  • Cerca: é uma medida de biossegurança muito importante, evitando o ingresso de pessoas estranhas à propriedade, e também de animais. A presença de cercas-vivas, como, por exemplo, o sansão do campo, é também uma medida eficaz.
  • Controle de vetores (roedores e insetos).
  • Quarentena: é uma medida importante, tanto para que os animais recém adquiridos não levem novos patógenos para a granja, quanto para que estes não entrem em contato com a população de microorganismos presentes na granja e expressem doença.
  • Também algumas medidas de manejo auxiliares na manutenção da saúde dos plantéis suinícolas incluem: - Manejo das instalações: tudo dentro/ tudo fora (all in/all out). Este manejo permite que lotes de idades diferentes não entrem em contato entre si, havendo contaminações dos leitões mais novos pelos mais velhos. A esta medida, deve ser aliado um bom programa de limpeza e de desinfecção.

  • Produção em sítios separados: é uma medida que cada vez ganha mais importância em outros países, permitindo que animais de diferentes idades não entrem em contato entre si.
  • Outras medidas de manejo incluem a correta vacinação dos suínos, além de evitar a mistura de lotes provenientes de locais diferentes na mesma propriedade. Outro detalhe que deve ser considerado é a taxa de descarte de fêmeas no plantel. Altas taxas de descarte (maiores que 30% ao ano) acarretam em uma alta quantidade de primíparas no plantel.O colostro destas fêmeas tem menos imunoglobulinas do que o colostro das fêmeas com ordem de parição maior. Assim, por conseqüência, os leitões provenientes de fêmeas primíparas são mais susceptíveis à manifestação de doenças. Por fim, o bem estar dos suínos não pode ser esquecido. Animais estressados possuem o sistema imunológico menos eficiente no combate aos microorganismos.

Além de todos estes fatores, a composição nutricional e a qualidade dos ingredientes da dieta são possíveis causas da alteração do equilíbrio da microflora intestinal e devem estar na lista de prioridades para a manutenção do desempenho dos animais.

E a qualidade dos ingredientes das rações, como devemos monitorá-la?

A qualidade dos ingredientes assume importância cada vez maior em um cenário em que o desempenho dos leitões não mais pode ser mantido através do uso contínuo de antimicrobianos na ração. Alguns aspectos devem ser observados, como:

  • Seleção de fornecedores de qualidade,
  • Alianças com empresas produtoras de suplementos vitamínicos e minerais que zelem pela qualidade do produto e que tenham um plano claro de controle de qualidade
  • Inativação de fatores antinutricionais dos ingredientes, em especial, da soja,
  • Processamento de grãos e das dietas: o processamento potencializa o aproveitamento dos nutrientes pelo animal, seja pelo aumento da digestibilidade, seja pela melhora da palatabilidade ou porque facilita a apreensão. Vários estudos comprovam que o desempenho dos suínos melhora quando consomem dietas extrusadas e peletizadas, em relação às fareladas. Além disto, dietas processadas têm a vantagem de, por passar por um processo térmico, apresentar um menor índice de contaminantes, como Salmonella.
  • Classificação dos grãos, especialmente milho, com separação de grãos avariados e com alta da umidade,
  • Granulometria da dieta ajustada para a idade,
  • Uso de tecnologias como o NIR (Near Infra Red) na análise rápida e precisa dos ingredientes, permitindo um ajuste maior à dieta, maximizando o desempenho dos animais.

E o uso dos aditivos nutricionais? Seria uma solução?

O uso dos aditivos nutricionais em substituição aos antibióticos é um assunto que há muito tempo vem sendo discutido. O que antes era uma preocupação distante dos brasileiros, sendo presente mais nos países da Comunidade Européia, agora apresenta outra realidade! Mas, é ilusão pensar que a simples substituição do antibiótico pelo aditivo irá manter os índices produtivos da propriedade.

Esta é apenas mais uma das medidas na busca por soluções que auxiliem na manutenção do desempenho dos animais juntamente com um melhor manejo sanitário, ambiental e, sobretudo, nutricional.

A lista dos aditivos nutricionais presentes no mercado é extensa! Aqui destacaremos alguns permitidos e registrados pelo MAPA e já validados pela Nutron Alimentos , fazendo parte do seu portfólio de produtos.

Substâncias húmicas

As substâncias húmicas podem incluir a maioria da matéria orgânica de vários solos, mas incluem especificamente os ácidos húmicos, os ácidos fúlvicos e as huminas como os principais constituintes. O uso das substâncias húmicas promove a diminuição significativa do nível de amônia nos dejetos e melhora a relação de nitrogênio e de fósforo nos dejetos. A estrutura macrocoloidal das substâncias húmicas proporciona uma proteção da membrana na mucosa do estômago e do intestino, das vilosidades e da mucosa afetada. Entre os benefícios do uso das substâncias húmicas, pode ser incluída a melhor utilização dos nutrientes, um aumento no ganho de peso e uma melhora na conversão alimentar.

Prebióticos

Os prebióticos são substâncias não digeríveis, que afetam o hospedeiro por estimular seletivamente o crescimento e/ ou a atividade de espécies bacterianas já residentes no trato digestório. A resposta vem minimizando a ação das bactérias patógenas e, consequentemente, possibilitando o aumento da microbiota benéfica do animal.

O produto desse grupo mais conhecido é o mananoligossacarídeo (MOS) que é altamente eficiente na aglutinação de patógenos, o que reduz o risco de sua colonização no intestino. Além disto, este composto tem atividades imunoestimulantes atuando no bem estar geral do animal e o fortalecendo contra os agente invasores. Assim, o uso do MOS é uma estratégia fundamental para a manutenção do desempenho dos animais consumindo dietas sem antibióticos.

Adsorventes de micotoxinas

Nem sempre é possível a realização de testes para a detecção da presença de micotoxinas nos grãos utilizados na ração. Com a diminuição do uso de antibióticos, o impacto das micotoxinas pode aumentar ainda mais, já que elas por si só tendem a causar diminuição no desempenho.Ainda, o quadro de infecções bacterianas tende a ser agravado na presença de algumas delas (por exemplo, aflatoxina e fumonisina), por causarem imunossupressão. Assim, a utilização de um bom adsorvente assume grande importância na manutenção da saúde e desempenho dos suínos.

Minerais orgânicos

Os micros minerais têm influência quantitativa e qualitativa na produção animal. O uso de minerais orgânicos tem ação direta na qualidade da absorção na mucosa intestinal do animal, o que proporciona melhor aproveitamento da dieta, além de reduzir a poluição causada pelos dejetos suínos.

Os minerais auxiliam o animal de diferentes formas. O zinco potencializa o sistema imunológico, diminuindo a incidência de doenças e alterações no metabolismo animal. O cromo melhora a taxa de ovulação e a sobrevivência embrionária. O manganês regulariza o cio e melhora a taxa de fertilidade. E o selênio proporciona melhor condição ao sistema imunológico para animais que vivem sob estresse ou desafio sanitário.

Sendo assim, um balanceamento nutricional correto e com microingredientes de qualidade, proporciona melhor eficiência produtiva e pode minimizar os prejuízos causados pela retirada de antibióticos nas dietas.

Enzimas

São proteínas, sem efeitos adversos para o animal e para o meio ambiente, sem restrições técnicas para espécie e idade do animal, com ampla diversidade de origens, sendo a indicação e a recomendação atreladas à formulação da ração, à qualidade dos ingredientes e ao custo de produção.

O uso das enzimas em dietas livres de antibióticos tem o principal objetivo de aumentar a digestibilidade da dieta, minimizando assim, o substrato para o crescimento de patógenos no trato digestório. Dentre as enzimas presentes no mercado, as mais utilizadas na produção animal incluem as fitases e os complexo enzimáticos com alfa-amilase, protease e xilanase.

Acidificantes

Reduzir o pH do trato digestório superior, com o objetivo de facilitar a digestão e reduzir a proliferação de microrganismos indesejáveis no estômago e no intestino, este é o principal motivo de utilização dos acidificantes na suinocultura. A secreção de HCl pelo leitão desmamado aos 21 dias é insuficiente e prejudica a digestão das proteínas. Para que a atividade do pepsinogênio não seja inibida é preciso um baixo pH no estômago.

Uma digestibilidade ileal deficiente da proteína induz a um aumento da fermentação protéica cecal com liberação de aminas biogênicas, como cadaverina e putrescina, capazes de provocar uma forte diarréia nos leitões. Corrigir a capacidade tampão do alimento também é função do uso dos acidificantes nas dietas.

Conclusão

O uso racional dos antibióticos nas dietas animais já se tornou uma realidade no Brasil. A Legislação já apresenta algumas restrições que forçam uma mudança nas atitudes para a manutenção da qualidade do plantel. As empresas devem buscar alternativas que tragam melhorias nas instalações, no ambiente, na genética, na nutrição e no manejo para compensar a a restrição dos antimicrobianos que têm sido empregadas com o propósito de garantir a eficiência da produção. O uso de aditivos alimentares se torna uma ferramenta essencial no plano de estratégias que assegurem a produtividade da suinocultura brasileira. Colaboradores: Graziela Silva, Daniel Bruno e Adriana Figueiredo.

  • Daniel Gonçalves Bruno

    Daniel Gonçalves Bruno

    Atualmente trabalha na Provimi América Latina, com pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Graduou-se em medicina veterinária na USP e fez mestrado na mesma Universidade, na área de Nutrição e Produção Animal.

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