Redução do impacto ambiental com aumento da produtividade leiteira

Todo sistema de produção de alimentos tem impacto sobre o ambiente, independentemente de como e onde esse alimento seja produzido. A crescente sensibilização pública em relação às questões como o meio ambiente e a sustentabilidade da produção de alimentos visando às gerações futuras demonstra a necessidade crítica de adotarmos sistemas de produção de leite que reduzam o impacto ambiental da produção agrícola. Isso pode ser obtido por meio do uso de tecnologias que estimulem a gestão e a conservação ambiental no nível da fazenda, bem como melhorando o processamento e o transporte do leite e seus derivados para minimizar os eventuais custos econômicos e ambientais para o consumidor. Nas seções a seguir, discutiremos o potencial para melhoramento da produção como ferramenta que atenue o impacto ambiental da produção de leite.

 

Por que a produção de leite é importante quanto ao aspecto ambiental?

Em todo o mundo, estima-se que a agropecuária seja responsável por aproximadamente 18% do total da emissão de gases causadores do efeito estufa (Steinfeld et al., 2006), tendo a pecuária leiteira uma grande contribuição nesse impacto total.

O gráfico 1 mostra o impacto ambiental ao longo de todo o processo produtivo de 1 litro de leite, desde a fazenda até a gôndola do supermercado. A emissão de gases de efeito estufa “dentro da porteira” representa 67% de toda pegada ecológica de carbono* da produção leiteira, sendo, portanto também o ponto em que há a maior oportunidade para mitigação desses efeitos ambientais.

Sendo assim, a adoção de técnicas de manejo que aumentem a eficiência e reduzam o impacto ambiental da produção de leite na fazenda demonstraria o comprometimento do setor leiteiro com a conservação ambiental e representaria uma oportunidade significativa de atenuação do impacto do sistema de produção como um todo.

Eficiência produtiva e o efeito da diluição da mantença

A idéia de eficiência vem sendo discutida há muitos anos, com o objetivo de produzir “mais com menos”. Produzir mais leite com a mesma quantidade de recursos (ou a mesma quantidade de leite com menos recursos) reduz a demanda por insumos não renováveis (incluindo solo, água, combustíveis fósseis e fertilizantes) e promove a conservação ambiental.

O processo biológico ligado à melhora da eficiência produtiva é conhecido como efeito da “diluição da mantença”. As exigências nutricionais diárias de todos os animais dentro de um rebanho leiteiro incluem uma quantidade específica necessária para manter as funções vitais dos animais (a chamada exigência de mantença), mais nutrientes adicionais para garantir as exigências de crescimento, gestação e/ou lactação.

Como identificado no gráfico 2, a exigência energética de mantença de uma vaca em lactação de 650 Kg não altera em função da produção, mantendo-se constante em 10,3 MCal/dia. A exigência de energia, entretanto, cresce com o aumento da produção de leite, reduzindo assim a proporção da energia total utilizada para mantença.

Uma vaca leiteira de alta produção necessita de mais nutrientes por dia comparandose a uma vaca de baixa produção, porém todos os nutrientes adicionais consumidos são usados para a produção de leite. Por essa razão é possível utilizar a teoria da Diluição da Mantença para mostrar que o mais importante é o total da energia consumida por litro de leite produzido e não por vaca por dia. A comparação do gráfico da “Diluição da Mantença” representa uma prova eficaz do conceito da eficiência produtiva, traduzido por “produzir mais com menos”.

O propósito maior da indústria leiteira é produzir leite suficiente para atender às necessidades da população. O impacto ambiental, portanto, deve ser acessado com base no resultado por unidade de alimento produzido, ou seja, por quilo de leite, queijo ou manteiga. Essa metodologia permite comparações válidas entre diferentes sistemas de produção e também relaciona a produção com a demanda de leite, facilitando a avaliação precisa dos recursos necessários para atender às exigências da humanidade por alimentos. Por exemplo, utilizando os valores do gráfico 2, é possível calcular que para produzir 29 mil quilos de leite por dia são necessárias 4.143 vacas de baixa produção (7 Kg/dia), mas somente mil vacas de alta produção (29 Kg/dia). Quando se considera o restante do rebanho necessário para se ter esse número de vacas em lactação, fica fácil entender que o efeito da diluição da mantença não somente reduz o número necessário de vacas em lactação mas também diminui a quantidade de vacas secas, novilhas e touros a elas associados dentro de uma população e os respectivos recursos para manter essa população e seus dejetos.

Eficiência produtiva – o exemplo histórico

A pecuária leiteira vem passando por grandes avanços em eficiência nos últimos anos. O aumento da produção de leite é uma tendência mundial, mesmo com a diminuição do número de animais ordenhados, confirmando o que estamos demonstrando em termos de eficiência.

Esses avanços estão sendo conseguidos pela introdução de práticas de manejo e de técnicas para maximizar o potencial de produção das vacas, com ênfase na saúde e no bem-estar animal. Entre as práticas utilizadas, é possível destacar o uso de inseminação artificial e acasalamento genético, análise de matérias-primas e formulação de dietas com uso de modernos softwares e de vagões de mistura total das dietas. Também houve bastante progresso nos sistemas de ordenha e de controle de mastite, bem como nos modernos e rígidos programas sanitários adotados nos rebanhos e nos sistemas de conforto das fazendas leiteiras atuais. Por último, podese destacar o uso de biotecnologias e de aditivos alimentares para maximizar a produção de leite.

Por outro lado, a percepção do consumidor comum é de que os métodos antigos de produção de alimentos eram mais amigáveis ao meio ambiente do que as práticas modernas. Isso é frequentemente reforçado pela mídia, que mostra as cenas dos “bons e velhos tempos” comparando com a visão atual da “fazenda empresa”. Essa visão, no entanto, precisa ser desmitificada, e o ponto crucial é que se tenha entendimento da forma correta de avaliar o impacto. A pegada ecológica de carbono da produção de leite nos Estados Unidos em 1944 comparada com 2007 está mostrada no gráfico 3.

As barras da esquerda são quantificadas de acordo com o processo-base (isto é, por vaca) e, como esperado, as vacas de baixa produção de 1944 têm menor pegada ecológica de carbono que as modernas e produtivas vacas atuais. A vantagem conferida pelo aumento da eficiência produtiva dos modernos sistemas de produção de leite, entretanto, pode ser claramente observada quando os dados são expressos por unidade de produto final, ou seja, por Kg de leite. De 1944 até 2007, houve uma redução de 63% na emissão de gases causadores de efeito estufa por Kg de leite produzido. Hoje, é utilizada uma quantidade muito menor de recursos para produzir a mesma quantidade de leite (tabela 1).

Eficiência produtiva – o exemplo tecnológico

Produtores de leite estão sendo encorajados a adotar práticas de manejo que melhorem a gestão e a conservação ambiental. Isso inclui iniciativas para cortar os gases causadores de efeito estufa, reduzindo a produção entérica de metano e minimizando a perda de nutrientes pelo eficiente balanceamento das dietas e pela eficiente aplicação de fertilizantes.

Esses produtores também são estimulados a utilizar o metano gerado como resíduo, convertendo-o em energia a ser usada na fazenda. Não existe uma única tecnologia que possa remover esse impacto, muito embora considerável progresso possa ser feito pelo uso de várias estratégias. De qualquer forma, o maior impacto na redução do impacto ambiental será obtido pelo uso de tecnologias que aumentem a eficiência de produção.

Nesse sentido, desde sua aprovação na década de 1990, a somatotropina bovina (bST) foi a maior contribuição tecnológica para o aumento da produtividade da produção leiteira. A resposta em produção de leite à somatotropina bovina está bem documentada, assim como seu potencial como ferramenta para aumento da eficiência produtiva e, portanto, redução do impacto ambiental.

Um estudo recente (Capper et al, 2008b) fez uma completa avaliação de ciclo de vida, computando os recursos necessários e os dejetos originados por uma população de um milhão de vacas tratadas com somatotropina bovina, em comparação à produção da mesma quantidade por uma população não tratada. O estudo baseou-se numa resposta média de 4,5 Kg de leite por dia pelo uso da somatotropina quando as vacas foram tratadas em intervalos de 14 dias por um ano. Um resumo dos principais resultados pode ser observado na tabela 2 e mostra claramente a economia de recursos e a redução na emissão de gases de efeito estufa que o uso intensivo dessa tecnologia pode proporcionar.

Conclusão

Os produtores de leite obtiveram consideráveis ganhos na eficiência produtiva nos últimos anos e devem continuar se esforçando para evoluir neste sentido. Na realidade brasileira, a oportunidade de melhoria ainda é muito grande. Segundo dados da FAO, (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) para que se consiga produzir todo o alimento necessário para alimentar a população do planeta em 2050 (100% mais do que é produzido atualmente) a maior parte (70%) desse crescimento deverá vir de práticas que aumentem a eficiência, ou seja, pelo uso de tecnologias. Tecnologias como a somatotropina bovina estão à disposição dos produtores e, para manterem-se na atividade, eles precisarão utilizá-las. Paralelamente, é essencial informar e educar consumidores, varejistas, processadores e responsáveis por políticas públicas sobre a importância do uso de tecnologias na produção de alimentos para atender as demandas das gerações futuras.

  • José Roberto Peres

    José Roberto Peres

    José Roberto Peres é Engenheiro Agrônomo formado pela ESALQ/USP, Mestre em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ/USP e Gerente de Negócios para a Área de Produção de Leite da Elanco Saúde Animal.

  • Nelson Ferreira Jr.

    Nelson Ferreira Jr.

    Consultor técnico-comercial da Elanco Saúde Animal.

  • Wagner Nagao de Abreu

    Wagner Nagao de Abreu

    Consultor técnico-comercial da Elanco Saúde Animal.

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