Nutrição X Alimentação Parte 2

Um sistema de alimentação de sucesso pode ser definido como aquele que entrega a cada vaca a quantidade de nutrientes que ela precisa para atender suas exigências, o mais economicamente possível. (Michael Hutjens, 1998).

A fase da lactação e da gestação, junto com a produção de leite e peso corporal do animal, são fatores fisiológicos que definem a quantidade de nutrientes que o animal precisa para atender suas necessidades nutricionais e atingir o seu potencial produtivo. Fatores ambientais também causam outros desafios que interferem no status nutricional do animal.

Vários são os desafios encontrados pelo nutricionista para desenvolver o seu trabalho. Ele precisa entender os objetivos da fazenda e do produtor, identificar os possíveis pontos a serem melhorados e que estão impactando na capacidade do rebanho em mostrar seu potencial produtivo, definir as prioridades em comum acordo com o produtor, identificar as limitações da fazenda em termos de quantidade e qualidade dos alimentos disponíveis, de instalações, clima, mão de obra e das características do rebanho.

Um bom programa nutricional deve começar com os cuidados no período seco. As vacas nessa fase não podem estar com excesso de peso, porque tal fator impacta na ingestão de alimentos, reduzindo a disponibilidade de energia para o animal.

A estabilidade no consumo de matéria seca e um bom balanceamento da dieta no pré parto garantem o fornecimento de nutrientes necessários para o animal suportar o alto desafio metabólico do período de transição.

Essa fase consiste no período de três semanas pré e três semanas pós parto, e é o período de maior desafio para a vaca leiteira devido às variações fisiológicas e hormonais, o alto metabolismo, imunossupressão e balanço energético negativo. Todo esforço para ajudar a vaca a passar bem essa fase, gera resultados para uma lactação mais saudável e produtiva.

Depois de uma boa conversa com o produtor, o nutricionista deve levantar informações sobre a produção e reprodução do rebanho, pois a análise de alguns parâmetros auxiliam na identificação de alguns pontos a serem trabalhados.

Avaliação da curva de produção de leite

A vaca deve atingir o pico de produção de leite ao redor de 8 a 10 semanas após o parto. Vacas de primeira criadevem atingir pico acima de 75% das vacas de terceira ou mais crias. Por exemplo, se as vacas de mais crias estão atingindo picos de 40 kg de leite, as primíparas deveriam estar com pico de 30 kg. Picos abaixo do esperado são indicativos de problemas de manejo e/ou alimentar. Se os picos estiverem mais altos, provavelmente seja oriundo de um ganho genético.

Observar o pico de produção das vacas é interessante, pois a cada litro a mais que se obtém, corresponde em torno de 200 litros a mais na lactação.

Se as vacas não tiverem atingindo a produção de leite esperada no pico, é recomendado fazer uma avaliação refinada da dieta. Picos baixos podem significar falta de proteína na dieta. Se as vacas de primeira e segunda cria não estão apresentando bons picos de produção, este é um indicativo de restrição de espaço na fase inicial de lactação.

Após o pico, inicia-se a fase de queda na produção, conhecida como “persistência da lactação”. Nessa fase, as vacas de primeira cria perdem em torno de 0.2% da produção de leite ao dia. Já as multíparas têm uma redução maior, em torno de 0.3%. Quedas maiores podem ser resultado de restrição energética. Vacas de alto potencial genético tendem a ter um pico mais alto e uma maior persistência.

Avaliação dos componentes do leite: proteína e gordura

A porcentagem de gordura e proteína do leite são parâmetros que variam entre as raças. A relação de proteína e gordura no leite deve estar próxima de 0.90 para Pardo-suiço, de 0.85 a 0.88 para Holandês e de 0.80 paraa Jersey. Valores acima sugerem problema no teste de gordura e valores abaixo sugerem problema no teste de proteína. Baixos valores de proteína podem surgir pelo excesso de gordura na dieta, falta de proteína ou de proteína não degradável no rúmen. Se ocorrer inversão na relação de proteína e gordura, quer dizer que a porcentagem de gordura é menor que a porcentagem de proteína. Quando a inversão é maior que 0.4 pontos percentuais, pode ser um indicativo de acidose.

A gordura do leite é o componente que responde mais fácil ao balanceamento da dieta: resposta da proteína bem menor e a lactose é o componente mais difícil de alterar. Para maximizar a proteína do leite, o balanceamento da dieta deve visar o crescimento da flora ruminal, porque essas bactérias são fontes de proteínas e aminoácidos absorvidos no intestino delgado da vaca. Atenção aos níveis de suplementação de proteína, proteína solúvel, proteína degradável e não degradável e de carboidratos fermentáveis no rúmen. A suplementação de gordura pode ser um inibidor do crescimento microbiano no rúmen e afetar a proteína do leite. Para aumentar a gordura do leite, deve ser maximizado o consumo de forragem. Forragem de alta digestibilidade permite aumentar a participação na dieta. Outro ponto importante é a efetividade da fibra da dieta. Dietas com mais fibra efetiva aumentam a ruminação, promovendo maior aporte de saliva para o rúmen e aumentando o tamponamento ruminal.

Atenção à taxa de fermentação dos carboidratos utilizados na dieta. Monitorar o nível de fibra e a taxa de fermentação de carboidratos pode ajudar a previnir acidose ruminal.

Durante o verão deve ser dada atenção à qualidade do alimento oferecido. O calor inibe o consumo e aumenta a fermentação do alimento no cocho. Fornecer maior volume da dieta nas horas mais frescas do dia ajuda no consumo. O uso de leveduras auxilia na digestão de fibras e os tamponantes compensam a diminuição da produção de saliva.

Avaliar o consumo de matéria seca

Aumentar o consumo de matéria seca ajuda a diminuir a incidência de desordens metabólicas e melhorar os resultados reprodutivos. Há trabalho mostrando que a menor ingestão de matéria seca antes do parto impacta na ingestão da mesma nas quatro primeiras semanas pós parto. Também há dados que vacas com grau diferenciado de metrite tiveram menor consumo de matéria seca antes e depois do parto comparado a vacas saudáveis. E vários trabalhos mostraram atraso ao primeiro cio e menor resultado de prenhez ao primeiro serviço em vacas com metrites.

Monitorar o peso corporal das vacas pós parto

Devido ao baixo consumo de matéria seca e ao aumento da demanda energética logo após o parto, as vacas ficam em balanço energético negativo, ou seja, a quantidade de energia ingerida pela vaca não atende a maior demanda devido à produção de leite. Para compensar, a vaca mobiliza gordura corporal para produzir leite, levando à perda de peso. O excesso de gordura que chega ao fígado começa a ser depositado pela capacidade de metabolização, podendo causar uma série de desordens metabólicas relacionadas.

O monitoramento do peso corporal serve como informação do balanço energético da vaca. O escore de condição corporal é um método prático de avaliar essa alteração.

A vaca deve parir com escore corporal em torno de 3.5. O recomendado é que as vacas não percam mais que um ponto de escore no início da lactação. Perdas superiores podem levar a problemas com doenças metabólicas e perdas reprodutivas.

O monitoramento desses parâmetros ajuda na identificação prévia de problemas que podem causar consideráveis perdas econômicas ao produtor.

  • Rogério Isler

    Rogério Isler

    Médico Veterinário formado pela UFLA e Gerente de Negócios de Bovinos de Leite da Nutron Alimentos.

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