Nutrição x Alimentação de bovinos de leite

Para conseguirmos o maior desempenho produtivo para rebanhos leiteiros temos que aliar uma boa alimentação a boas práticas de manejo com os animais. Os passos de um bom programa nutricional são: garantir a qualidade dos alimentos que serão oferecidos; elaborar um bom balanceamento da dieta, assim como prepará-la de forma homogênea e fidedigna conforme a proposta do especialista em nutrição animal; e monitorar para que os animais não selecionem os alimentos no momento da ingestão.

O nutricionista é o responsável por elaborar o balanceamento da dieta que melhor atenda as necessidades dos animais. Esse trabalho visa maximizar o desempenho produtivo e a maior rentabilidade para o produtor. Já o operacional da fazenda deve garantir o preparo fidedigno da mistura elaborada pelo nutricionista, observar as variações que podem ocorrer, principalmente nos alimentos volumosos e no manejo de cocho dos lotes. Garantir a homogeneidade da mistura da dieta, assim como observar se as vacas estão selecionando os alimentos devem ser foco de atenção.

Por isso, dizemos que existem três dietas para a mesma categoria animal dentro de uma fazenda:

  • a elaborada pelo nutricionista.
  • a preparada pelo tratador.
  • a ingerida pelo animal.

Na primeira, podemos ter a interferência dos valores dos alimentos que definimos para o programa de formulação utilizado pelo nutricionista. Na segunda, quando o tratador está preparando o que foi receitado, pode haver erros de pesagem dos alimentos e sair diferente da formulada. Na terceira, a vaca seleciona os alimentos na hora de comer, ou seja, a vaca não está ingerindo a dieta correta. Isso afeta o resultado na produção de leite esperado. Todos sabemos que certa variação sempre vai ocorrer e o sucesso depende do envolvimento de todos. Portanto, todo esforço deve ser aplicado para minimizar essas diferenças.

O papel do nutricionista

Para elaborar um bom programa alimentar o nutricionista deve estabelecer, junto com a fazenda, um programa de controle de qualidade dos alimentos, com análises visuais e laboratoriais. Em nutrição de rebanhos leiteiros, sempre falamos em consumo de matéria seca porque a forragem, que é o alimento mais volumoso da dieta, tem grande variação no teor de umidade. Por isso, é muito importante que a fazenda tenha um controle sistemático do teor de matéria seca do volumoso para manter a dieta equilibrada. Esse trabalho pode ser feito através do Koster, um equipamento simples e de fácil manuseio.

O importante para o nutricionista é a quantidade de nutrientes (proteína, energia, minerais, aminoácidos, entre outros) que o animal consome através da dieta. A necessidade de nutrientes de uma vaca está relacionada ao seu peso corporal e à quantidade de leite produzido. Assim, o nutricionista faz o balanceamento da dieta para suprir essas necessidades e até desafiar o potencial produtivo dos animais.

Todo esse esforço visa aumentar o consumo de matéria seca para garantir a ingestão de uma maior quantidade de nutrientes. Além das características do próprio alimento e do balanceamento correto de nutrientes, existem outros fatores que afetam o consumo. No início da lactação, as vacas têm baixa capacidade de consumo para atender a alta demanda de nutrientes para a produção de leite. É o período em que a vaca está em balanço energético negativo, fator que exige um grande esforço para minimizar os impactos nutricionais desse período. Por isso, essa fase exige maior atenção do nutricionista e do tratador.

Alimentos frescos estimulam o consumo do animal. Os fermentados, as silagens e os pré secados exigem maior atenção, pois a fermentação indesejável pode produzir ácido butírico, mofos, fungos e micotoxinas que reduzem a ingestão de matéria seca, a imunidade e até problemas reprodutivos. Algumas características do cocho também interferem na adequada alimentação do rebanho. Entre elas está o barro, fator marcante nas fazendas que não possuem calçamento próximo do cocho, o que dificulta a chegada do animal ao local. Vacas preferem cocho com superfície lisa, isso também facilita a limpeza reduzindo a contaminação do alimento oferecido. A altura do fundo do cocho deve estar entre 5 a 15 cm acima da sola do casco,isso aumenta a salivação e o tamponamento ruminal. O espaço de cocho varia conforme seu tipo e a disponibilidade de alimento. Numa pista de trato, a recomendação é que se tenha de 55 a 70 cm de cocho por animal. Naqueles com acesso aos dois lados essa recomendação aumenta de 80 a 100 cm.

O tempo de acesso ao alimento também influencia no espaço de cocho e no consumo. Vacas comem de 3 a 5h por dia, fazendo de 9 a 13 refeições. Para motivar o máximo de ingestão os animais devem ter alimento disponível 20 horas por dia. Se o tempo para a disponibilização da dieta for menor do que essa recomendação, o espaçamento de cocho deve ser aumentado para diminuir o efeito da competição por alimento.

O consumo é maior nos horários mais frescos do dia, ou seja, início da manhã, final de tarde e início da noite. Portanto, a disponibilidade de comida deve ser maior nesses horários. O efeito da dominância é marcante em lotes de vacas multíparas e primíparas. Com a separação em lotes distintos, obtém-se um resultado positivo no consumo das primíparas por diminuir a competição. O importante é que o nutricionista conheça como esses fatores podem prejudicar o desempenho das vacas e trabalhe junto ao produtor e a equipe da fazenda para minimizar o impacto desses aspectos no resultado produtivo do rebanho.

O papel do tratador

O tratador deve ser um funcionário muito bem preparado. Ele é responsável por manejar mais de 50% do custo variável de uma fazenda. Esse é um trabalho de grande responsabilidade e que deve ser muito bem feito, pois asfalhas acarretam em grandes prejuízos econômicos para a fazenda.

A pesagem correta dos ingredientes no preparo da mistura do concentrado e da dieta é fundamental para obter o equilíbrio nutricional prescrito pelo nutricionista. Erros na adição dos ingredientes podem causar desde um desbalanceamento nutricional, o que impossibilita às vacas expressarem seu potencial produtivo, a deficiências nutricionais, intoxicação e até a morte de animais.

Por ser a pessoa que está diretamente envolvida no preparo e distribuição de alimentos, o tratador precisa ser bem treinado. A adequada capacitação desse profissional vai permitir que, no dia a dia, ele esteja apto a fazer os ajustes necessários da disponibilidade do alimento no cocho e a evitar desperdícios na conta de maior impacto no custo de produção de leite.

A seleção de alimentos pela vaca

A má qualidade de mistura da dieta oferecida aos animais é o erro mais grosseiro do manejo nutricional do rebanho, pois permite a seleção de alimentos pela vaca. Atenção ao tamanho de partículas dos alimentos volumosos e a efetividade da fibra no rúmen da vaca são fundamentais para manter a saúde ruminal e, consequentemente, a do animal. Quando se trabalha com volumosos de partículas maiores corre-se o risco da vaca selecionar o alimento que vai ingerir e, assim, modificar a dieta que foi preconizada.

Rodelas de sabugo e palhas esgarçadas na silagem de milho são alimentos facilmente separados pelo animal. Quando feno é adicionado na dieta, o comprimento não deve exceder o tamanho do focinho do animal para dificultar que o mesmo selecione o alimento. Outro ponto importante a ser avaliado é a qualidade da sobra de trato que é recolhida no dia seguinte. Na gestão do manejo de cocho deve sempre ser observado se a sobra de alimentos está semelhante à dieta oferecida. Caso contrário, o nutricionista deve ser avisado para identificar os problemas e definir as mudanças necessárias.

Conclusão

Na prática, uma dieta pode funcionar muito bem em uma fazenda e contribuir para acidose em outra (Firkins, 2002). A seleção dos animais contra a fibra longa ou diminuição do número de refeições com o aumento do tamanho das mesmas para compensar a ingestão total são dois fatores que poderiam colocar uma quantidade razoável de animais em acidose, mesmo que no computador esta dieta esteja perfeitamente balanceada.

Em um próximo artigo abordaremos práticas fundamentais a serem observadas no dia a dia da alimentação do rebanho. Por enquanto, lembre-se: a comunicação, o envolvimento e a integração entre todos os envolvidos no processo de manejo de animais, como nutricionistas, técnicos e equipe da fazenda, são fundamentais para se obter os melhores resultados produtivos dos animais, gerando economia e maior rentabilidade para o produtor.

Termino a primeira parte deste artigo com uma célebre frase de palestrante num congresso de nutricionista:

Prestem atenção nas vacas!!!! Só elas estão 100% certas sobre produção de leite.
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