Restrição alimentar durante a cria e recria e seus impactos sobre a fase de terminação

Dois artigos científicos publicados recentemente em um periódico muito importante da área de Zootecnia, feitos nos Estados Unidos e no México, chamam a atenção quanto à qualidade das carcaças produzidas. No estudo americano, 18.000 carcaças foram avaliadas em oito frigoríficos ao redor do país, abrangendo praticamente todos os tipos biológicos de bovinos utilizados para a produção de carne. Uma das conclusões do trabalho foi que 87,3 % dos animais abatidos eram dente de leite, ou seja, apresentavam menos de 20 - 22 meses de idade. Sabemos que o sistema de produção de carne nos Estados Unidos é altamente intensivo, empregando raças britânicas de grande potencial de ganho de peso e o confinamento para terminação dos animais, com dietas de alta participação de concentrado, o que permite aos animais expressarem todo o seu potencial genético.

No trabalho mexicano, realizado no estado de Tabasco, localizado no sudeste do país, as condições foram muito parecidas com as nossas, ou seja, clima tropical, sistema de produção a pasto, utilização de machos inteiros, com forte influência de animais Bos indicus. Foram avaliadas as carcaças de 23.184 animais no principal frigorífico do estado, e os dados demonstraram que um terço da população (34,1 %) foi representada por animais abatidos com menos de 24 meses e, cerca de 52,8 %, foram animais inteiros com menos de 30 meses. No Brasil, infelizmente, não temos dados confiáveis da idade de abate média dos animais, mas estima-se que seja em torno de 40 meses.

Não há estudos que tornem público qual a estratificação dos animais abatidos em função da idade, mas o fato é que ainda enviamos animais de idade relativamente avançada para o gancho, considerando o potencial que temos em termos de uso de tecnologias em todos os níveis para atingirmos, no mínimo, a mesma classificação mexicana, por exemplo.

E por que ainda a maioria do gado abatido no Brasil é de idade acima de três anos de idade, deixando-nos em posição desfavorável em relação aos nossos concorrentes, como Estados Unidos e México? Vários fatores podem explicar essas diferenças, como o fato de termos grande parte de nossas pastagens degradadas, por não utilizarmos forma mais massiva, animais geneticamente superiores nos rebanhos, etc, etc, etc. O fato mais contundente, no entanto, é que abatemos animais velhos por uma simples e clara razão: passam fome durante alguma fase de sua vida. Assim, a restrição nutricional, seja ela quantitativa e/ou qualitativa, faz parte da realidade da grande maioria dos bovinos de corte em solo brasileiro.

O plano nutricional prévio à entrada dos animais no confinamento exerce grande influência sobre o ganho de peso e a eficiência alimentar durante a fase de terminação. O ganho compensatório é um exemplo clássico disso, pois representa uma fase de alto desempenho, em peso vivo, de animais que foram realimentados após terem passado por um período de restrição. Geralmente, esse ganho compensatório está associado a um aumento no consumo de matéria seca, redução das exigências de mantença e pronunciado desenvolvimento de tecidos viscerais. No entanto, a pergunta que fica no ar é até que ponto esse crescimento compensatório é vantajoso. Como confinadores, nos preocupamos, grande parte das vezes, no animal a partir do momento em que ele adentra os currais de engorda, e não nos damos conta de qual foi a rota de crescimento que esse animal passou antes de chegar ao ponto de ser enviado ao confinamento. Se o animal é de compra, pior ainda, pois muito pouco sabemos do seu histórico de vida.

A proposta que temos é de tentarmos fazer uma viagem mais profunda ao longo da linha do tempo da vida de um boi magro ou de um garrote que entra no confinamento, de forma a entendermos melhor os resultados que esse animal pode deixar depois de ser abatido e de faturamos o valor de sua carcaça. A capacidade de crescimento de um bovino é determinada bem cedo, inclusive antes do que grande parte de nós imagina. O que todos buscamos é um boi confinado que coma bem e que ganhe bastante peso, concentrando esse ganho em carcaça, que é composta, principalmente, por músculos, que serão transformados então, em carne após o abate. O crescimento muscular, portanto, é essencial para o nosso objetivo, que é termos alta eficiência de conversão da dieta em carcaça, resultando em um animal lucrativo. Mas, continuando a história, a formação do tecido muscular ocorre durante a fase pré-natal, quando o bezerro ainda está na barriga da vaca. Nessa fase, principalmente no terço médio de gestação, são formadas as chamadas fibras musculares primárias e secundárias, que nada mais são do que as células que compõem o tecido muscular. E o crescimento em número dessas células, também chamado de hiperplasia, é que vai permitir que o bezerro nasça com capacidade de crescer e se desenvolver sem qualquer tipo de impedimento. A questão é que essas células do tecido muscular só são formadas em plenitude se houver disponibilidade de nutrientes, principalmente glicose e aminoácidos, trazidos pelo sangue da mãe. Portanto, vaca que sofre restrição nutricional durante a gestação, notadamente no terço médio, produzirá um bezerro de menor ímpeto de crescimento. Estudos recentes têm demonstrado que vacas suplementadas durante a gestação, de forma correta e no momento oportuno, produzem bezerros mais pesados a desmama, mantendo essa vantagem até o momento do abate. Portanto, estabelecer um plano nutricional para o rebanho de matrizes pode ser considerado um ponto crítico do processo de produção de carne de qualidade, advinda de animais jovens.

Por outro lado, de nada adianta também ter um bezerro de qualidade, nascido de uma vaca bem nutrida, se não lhe for dada condições para que possa expressar todo o seu potencial de crescimento. A restrição nutricional pós-natal afeta não mais o número das células musculares, mas a sua capacidade de aumentar de tamanho, processo conhecido por hipertrofia muscular. A fase de recria, que vai da desmama até o garrote, ou boi magro, é a fase mais longa do ciclo pecuário, justamente por ser o momento em que ocorrem as maiores limitações, na maioria das vezes nutricionais, para o crescimento contínuo dos animais. O animal que é mais bem nutrido ao longo da recria, chegará mais pesado e mais jovem ao confinamento, apresentando ainda alta capacidade de ganho de peso, de deposição de carcaça, produzindo,assim, uma carne de melhor qualidade.

Em trabalho que está sendo conduzido nas dependências do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, três níveis nutricionais durante a recria estão sendo testados, bem como seus efeitos residuais durante a fase de terminação em confinamento. Imediatamente após a desmama, os animais foram separados em três grupos com o mesmo peso corporal médio e foram alocados a diferentes planos nutricionais, simulando uma recria ruim, média ou boa, quando receberam dietas capazes de proporcionar ganhos de peso de 0; 0,6 e 1,2 kg/dia, respectivamente. Permaneceram em recria durante 112 dias, quando apresentaram ganho de peso médio de -0,05; 0,67 e 1,09 kg/dia, portanto, muito próximo do que havia sido planejado inicialmente. Em seguida, foram adaptados a uma dieta de alto concentrado, sendo terminados por mais 112 dias. O experimento ainda está em andamento mas, após 84 dias de confinamento, os animais apresentaram GMD de 1,43; 1,15 0,88 kg/dia, para os animais que foram submetidos a uma recria ruim, média e boa, respectivamente. Ou seja, mesmo após 84 dias, o compensatório ainda está presente. O desempenho dos animais que vieram de planos nutricionais superiores durante a recria pode parecer baixo, mas o que interessa é o ganho total de arrobas de carcaça total, ao longo de todo o período de recria / engorda. Os dados finais serão disponibilizados em breve, mas o estudo vem demonstrar que nem sempre alta taxa de ganho de peso vivo é o mais lucrativo, mas sim animais que apresentam crescimento contínuo de carcaça!

Portanto, a qualidade do animal a ser confinado é ponto chave do processo de engorda! Tanto é que pecuarista que é pecuarista e produz um animal de qualidade, não vende, prefere engordá-lo, pois sabe que será um animal lucrativo. Portanto, devemos investir cada vez mais na nutrição do boi não só dentro do confinamento, mas antes mesmo de nascer e durante sua adolescência. Para isso, consulte sempre um técnico capacitado!

  • Pedro Veiga Rodrigues Paulino

    Pedro Veiga Rodrigues Paulino

    Gerente Global de Tecnologia da Nutron Alimentos

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