Glicerina bruta em substituição ao milho em dietas de terminação

O milho, sem dúvida nenhuma, é a principal fonte dietética de energia em dietas para bovinos confinados, sendo o alimento referência usado no Brasil. De acordo com mais de 600 dados de análises químico-bromatológicas realizadas no país, o nosso milho contém, em média, 9,05% de proteína bruta, 86,10% de NDT e teor de amido de 70,80%. A concentração de energia irá variar em função de alguns fatores, como variedade, grau de processamento, nível de inclusão na dieta, etc. Mas o que interessa mesmo no momento de se decidir sobre quanto e como utilizar o milho em dietas de bovinos confinados é o seu preço no mercado. Mesmo diante da forte estiagem que atingiu o sul do país, especialmente o Rio Grande do Sul, há uma boa expectativa quanto à produção do milho safrinha, o que pode resultar em certa compensação na oferta do grão, não causando, dessa forma, elevação do seu preço, pelo menos no curto prazo. Entretanto, por se tratar de uma commoditie, não é raro esbarrar em situações em que o preço do milho atinge valores proibitivos para seu emprego de forma mais intensa em dietas de bovinos em confinamento. Nesse cenário de alta de preço do milho, nutricionistas e pecuaristas que realizam engorda intensiva passam a ter que tomar decisões importantes, com o intuito de maximizar a receita, o que é possível não através do uso de dietas de custo mínimo, mas sim formulando rações que permitam obter ganho de carcaça o mais econômico possível. Ou seja, a idéia é usar dietas que permitam o menor custo por unidade de carcaça ganha.

Portanto, o que mais interessa não é somente o ganho de peso vivo, mas quanto desse ganho realmente foi ganho de carcaça. Bem, em cenários de preço de milho alto algumas alternativas podem ser adotadas, como diminuir a participação de alimentos concentrados na dieta, ou buscar alternativas ao milho, como sorgo, casca de soja, polpa cítrica, etc. O fato é que muitos pecuaristas e técnicos também correm em busca desses alimentos substitutos, fazendo com que seu preço também aumente.

Dentro desse contexto, a glicerina bruta surge como uma opção muito interessante. A glicerina bruta é um subproduto resultante da fabricação de biodiesel, sendo que para cada tonelada de biodiesel produzido, gera-se 100 kg de glicerina, um rendimento, portanto, de 10%. À medida que a produção de biodiesel aumenta no país para atender as normas do governo quanto ao seu uso na matriz energética brasileira, maior é a disponibilidade desse subproduto, fazendo com que seu preço caia. O problema, no entanto, é que as glicerinas disponíveis no Brasil têm apresentado uma variação muito grande quanto à sua composição, principalmente de três frações: glicerol (fonte de energia), gordura (restante dos lipídeos não recuperados durante a produção do biodiesel) e metanol (um álcool usado na agroindústria durante a produção do biocombustível). O MAPA, inclusive, já determinou os níveis mínimos e máximos de alguns componentes para fins de registro da glicerina para uso como ingrediente em dietas animais: mínimo de 80% de glicerol, máximo de 13% de umidade e máximo de 150 ppm de metanol.

A glicerina bruta é um líquido viscoso, como se fosse um melado, e sua inclusão na dieta se dá na forma líquida. Embora o glicerol tenha sabor adocicado, a glicerina é meio salgada, isso porque apresenta sódio em sua constituição, já que o soda ou hidróxido de sódio, é usado como um catalisador durante a produção de biodiesel. Considerando-se então que a glicerina bruta tem 87% de matéria seca (13 % de umidade), e 80% de glicerol, restam 7% para outros constituintes, principalmente gordura e matéria mineral. O glicerol, principal constituinte da glicerina, tem dois destinos quando ingerido pelo animal: cerca de metade dele é fermentada no rúmen a ácidos graxos voláteis, principalmente propionato, e a outra metade é absorvida diretamente pela parede do rúmen. Portanto, o glicerol presente na glicerina é um importante substrato para a produção de glicose no organismo dos bovinos, que é então utilizada para diversos fins, inclusive para a deposição de gordura de marmoreio.

Em experimento realizado recentemente em Viçosa, foram testados níveis crescentes de glicerina bruta na dieta de tourinhos meio sangue Red Angus x Nelore confinados. Um grupo de animais foi alimentado com uma dieta controle, com milho como única fonte de energia no concentrado, e outros 4 grupos foram alimentados com deitas contento de 5, 10, 15 e 20% de glicerina bruta, respectivamente, em substituição ao milho. O peso médio dos animais ao início do experimento foi de 331,50 kg, e um grupo de quatro animais foi abatido imediatamente antes do período experimental propriamente dito para se obter o rendimento de carcaça inicial, informação indispensável para calcular o ganho de carcaça dos demais animais que permaneceram em alimentação. O abate inicial demonstrou rendimento de carcaça inicial de 52,7 %, acima, portanto, dos 50 % normalmente empregado nos confinamentos comercais. O resultado final foi muito animador: não houve nenhuma diferença nas principais variáveis de desempenho e de carcaça mensuradas: ganho médio diário de 1,98 kg/dia, eficiência alimentar de 0,210 g de ganho de peso por quilo de matéria seca consumida, rendimento de carcaça de 58,32 %, área de olho de lombo de 78,09 cm2 e espessura de gordura subcutânea de 5,28 mm. Como no início do experimento um grupo de animais foi abatido, foi possível determinar, de forma mais exata, o ganho de carcaça e a eficiência de deposição de carcaça. O ganho de carcaça médio, que não foi diferente entre os animais que comeram só milho como fonte de energia e os que receberam glicerina, foi de 1,45 kg/dia, ou seja, do ganho de peso vivo apresentado pelos animais, cerca de 73% foi ganho real de carcaça, que é o que interessa no final das contas. A eficiência de deposição de carcaça, também chamada de eficiência biológica, foi de 98,04 kg de MS ingerida para cada arroba de ganho de carcaça, um número muito interessante. Na prática, almejam-se valores da ordem de 120-150! É importante destacar que essa eficiência biológica de 98 kg MS / @ ganha só foi possível de ser obtida em função da alta taxa de ganho de peso dos animais e do rendimento de carcaça acima da média que os animais apresentaram.

Tecnicamente, portanto, pode-se afirmar que não há nenhum problema em utilizar glicerina bruta na dieta de bovinos confinados até o nível de 20%, considerando-se uma glicerina com no mínimo 80% de glicerol, máximo de 6% de gordura, e animais de boa qualidade, de cruzamento industrial. Para animais Nelore ou mais apurados em Zebu, os dados preliminares mostram que o nível ótimo de inclusão seria menor, ao redor de 12%. Porém, mais estudos precisam ser realizados, inclusive em dietas com incorporação de subprodutos (polpa ou casca de soja), para determinar qual seria o nível mais recomendável para animais Nelore, em dietas mais quentes ou com mais participação de subprodutos. Diversos estudos estão sendo conduzidos no Brasil procurando essas respostas.

O que vai determinar, no entanto, o uso da glicerina na formulação de dietas é o seu preço, em relação ao preço do milho. Além disso, torna-se necessário corrigir a proteína da dieta, já que não há proteína na glicerina. Se substituirmos, por exemplo, 10% do milho da dieta por glicerina, precisamos repor 0,9 ponto percentual da dieta em proteína, o que pode ser feito com qualquer fonte, como farelo de soja ou mesmo uréia. Considerando-se os custos atuais da diária de um confinamento ao redor de R$ 5,50 por dia, o que corresponderia a R$ 0,55 por quilo de matéria seca, para um consumo médio de 10 kg de MS por animal por dia, o e usando-se os valores reais de eficiência de deposição de carcaça observados no trabalho, podemos determinar que o custo da arroba ganha seria de R$ 53,92/@. O custo da arroba produzida com a inclusão da glicerina irá depender, grandemente, do preço desse alimento frente ao preço do milho, visto que o ganho de carcaça será praticamente o mesmo para níveis de inclusão de glicerina de até 15 % da MS total da dieta, para animas Nelore. Assim, reduções no custo de cada quilo da dieta irão resultar em menor custo de produção da arroba.

A glicerina traz outros benefícios, como diminuição da purulência da dieta, dando mais consistência à mistura. Entretanto, como trata-se de um alimento líquido, dificuldades de manuseio e necessidade de alterações na logística do confinamento são pontos importantes a serem considerados. A glicerina oriunda de agroindústrias que usam sebo bovino para a produção de biodiesel não pode, no entanto, ser utilizada na alimentação de bovinos, sob a alegação de riscos de conter resíduos de origem animal. Além disso, o MAPA exige que a glicerina a ser utilizada seja devidamente registrada.

  • Pedro Veiga Rodrigues Paulino

    Pedro Veiga Rodrigues Paulino

    Gerente Global de Tecnologia da Nutron Alimentos

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