Cloridrato de Zilpaterol: Tecnologia animal de forma sustentável em confinamento

Detentor do maior rebanho comercial do mundo e vivendo um momento de extrema expansão na produção de grãos, o Brasil tem se posicionado como país favorável para a utilização de técnicas intensivas de produção de carne bovina. Dentro deste cenário de oportunidades e também de desafios, a adoção de novas tecnologias no dia a dia no confinamento torna-se essencial.

Avanços científicos na área de nutrição de bovinos, objetivando aumentar o desempenho, elevar o retorno econômico e preservar os recursos ambientais são fatores vitais para uma pecuária moderna, competitiva e sustentável e, neste sentido, melhoradores de desempenho denominados de beta-agonistas representam este futuro.

Os beta-agonistas que são agentes melhoradores de desempenho ou agentes de repartição de nutrientes utilizados no meio zootécnico são farmacologicamente similares às catecolaminas, como a dopamina, a norepinefrina e a epinefrina, que são compostos utilizados na medicina humana há mais de 30 anos como bronco dilatadores. Nos animais de produção, os beta-agonistas são administrados pela via oral, por meio da adição direta destes à ração na fase final de engorda, durante os últimos 20 a 40 dias.

Inúmeros trabalhos científicos publicados nos últimos anos em diferentes países como: Estados Unidos, Canadá, México e África do Sul foram unânimes quanto aos efeitos positivos do uso do beta-agonista cloridrato de zilpaterol em confinamento. O cloridrato de zilpaterol tem sido amplamente utilizado na África do Sul desde 1997, no México desde 1999, nos Estados Unidos desde agosto de 2006 e mais recentemente, em 2009, o Canadá aprovou o uso deste composto em confinamento. Seguindo esta série histórica de adoção ao uso do cloridrato de zilpaterol em confinamentos, no dia 25 de julho de 2012, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) concedeu ao Brasil a licença para a comercialização do produto cloridrato de zilpaterol da MSD Saúde Animal tornando-se o primeiro laboratório veterinário a receber o certificado de registro do uso de beta-agonista em confinamentos nacionais.

Cloridrato de zilpaterol é um aditivo melhorador de desempenho que tem como objetivo: aumentar o ganho de peso diário, melhorar a conversão alimentar do animal e principalmente, elevar o rendimento de carcaça de bovinos de corte em fase de terminação em confinamento.

O cloridrato de zilpaterol é administrado pela via oral durante os últimos 20 a 40 dias de confinamento pela adição direta deste à ração total, com retirada do mesmo 3 dias antes do abate. Seu modo de ação se dá por modificações de alguns sinais metabólicos nas células musculares e de gordura dos bovinos, por meio de ligações entre o cloridrato de zilpaterol e receptores específicos na membrana celular. Dessa forma, o cloridrato de zilpaterol primariamente muda a partição de energia vinda do alimento ingerido, aumentando o aporte de energia da dieta para o tecido muscular em comparação ao tecido adiposo.

Os receptores específicos dos beta-agonistas em animais são divididos em três subtipos: receptores beta- 1, beta-2 e beta-3 e estes estão presentes na maioria das células de mamíferos. Contudo, a distribuição e a proporção dos subtipos de receptores variam entre os tecidos e as espécies. Em bovinos, por exemplo, predominam os receptores do tipo beta-2 nas células musculares e adipócitos, podendo chegar à proporção de 75% de beta-2 e 25% de beta-1 nas células de gordura. A maior afinidade do cloridrato de zilpaterol por receptores do tipo beta-2, justifica a razão desta molécula elevar o desempenho de bovinos, elevar o rendimento de carcaça, como também, proporcionar maior rendimento de carne à desossa da carcaça de animais alimentados com este beta-agonista.

Além de diversos experimentos conduzidos no exterior com cloridrato de zilpaterol, estudo realizado no Brasil utilizando a mesma molécula pela equipe do pesquisador e professor da ESALQ/USP Dante Pazzanese Lanna puderam concluir os benefícios do uso deste beta-agonista em confinamento. Utilizando em seu experimento animais não castrados da raça Nelore e cruzamentos com Nelore, tais autores demonstraram ganho adicional de 14 kg de peso vivo final, melhora na conversão alimentar de 13% e ganho adicional de peso de carcaça quente de 16 kg para os animais suplementados com Cloridrato de Zilpaterol em comparação à média dos animais não tratados com o beta-agonista.

Neste cenário, utilizando os dados de peso de carcaça quente oriundo dos animais suplementados com Cloridrato de Zilpaterol apresentados no trabalho a cima, conclui- -se que a cada 18 animais enviados ao frigorífico é possível obter um ganho bruto adicional de 288 kg de carcaça ou em outras palavras, 1 boi adicional a cada caminhão boiadeiro.

Por outro lado, além de elevar a lucratividade do confinador, torna-se importante ressaltar os benefícios ao meio ambiente quanto a economia de água, de alimento e a não eliminação de dejetos em confinamento ao se utilizar beta-agonista. Assim, ainda utilizando o mesmo raciocínio a cima, a cada boi adicional pelo envio de uma carreta ao frigorífico contendo bois suplementados com Cloridrato de Zilpaterol é possível prever economia de aproximadamente 5.300 litros de água, 600 kg de milho e a não eliminação de aproximadamente 320 kg de matéria seca de fezes em confinamento com duração de 100 dias alimentação.

Assim sendo, sabendo dos benefícios do beta-agonista no desempenho animal, torna-se imprescindível a implantação desta tecnologia em confinamentos brasileiros, pois produtores serão capazes de aumentar a rentabilidade na propriedade e frigoríficos terão oportunidade de receber uma carcaça com maior rendimento de desossa. Além disso, o uso de beta-agonistas poderá promover benefícios ambientais indiretos, ou seja, menores proporções de terra, água, alimento e fontes de energia serão gastos no sistema de produção de carne.

Referencia:

Moody, D.E.; Hanchock, D.L.; Anderson, D.B. 2000. Phenethanolamine repartitioning agents. Pages 65-95 in FArm Animal Metabolism and Nutrition. J.P.F. D’Mello, ed. CAB Int, New York, NY.

ALGUMAS QUESTÕES IMPORTANTES ENVOLVENDO O USO DE BETA-AGONISTAS COMO MELHORADORES DE DESEMPENHO PARA BOVINOS EM FASE DE TERMINAÇÃO

Os beta-agonistas são considerados hormônios?

Não. Beta-agonistas não são hormônios. Beta-agonistas são aditivos melhoradores de desempenho que atuam em nível celular e não afetam a concentração hormonal do animal.

Por que se recomenda a adição de beta-agonistas apenas por um curto período de tempo?

Experimentos científicos consagrados demonstraram que a utilização de beta-agonistas por mais de 40 dias não causaram aumento no desempenho dos animais. Teoricamente, o organismo do animal se adapta a atividade dos beta-agonistas após 40 dias, não apresentando resultados positivos no desempenho de bovinos após este período. Fisiologicamente qual o efeito quando se faz a retirada do beta-agonista na ração dos animais dias antes do abate?

Aproximadamente 3 dias após a retirada do beta-agonista na dieta, o desempenho do animal retornará ao nível de quando estes não eram suplementados com o aditivo alimentar, não havendo perda em desempenho animal. Neste período, o animal retornará a direcionar maior energia vinda do alimento para a síntese de gordura em detrimento da síntese de tecido muscular. O uso de superdosagem de beta-agonista trará maiores benefícios para animais em confinamento? Não. Pesquisas utilizando dietas com superdosagens não demonstraram efeito positivo no desempenho dos animais ou na deposição de tecido muscular.

É recomendadA a utilização de beta-agonistas em animais destinados a reprodução ou animais de exposição?

Não. Este produto não é aprovado para uso em animais destinados a reprodução ou animais em exposição.

  • Rodrigo Goulart

    Rodrigo Goulart

    Médico Veterinário, Ph.D. na área de Exigência de Fibra para Bovinos em Confinamento pela USP/ESALQ e Gerente Técnico da MSD Saúde Animal

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