Alianças mercadológicas na pecuária de corte

Na última década, o consumo de carne bovina sofreu profundas alterações relacionadas com as mudanças nos padrões alimentares da sociedade, ocasionados pelo crescimento da renda, pela mudança nos preços relativos de outras carnes e a preocupação com a saúde e a conservação do meio ambiente. De modo a encarar estes desafios, o ambiente das empresas está cada vez mais competitivo. Firmas locais e globais estão competindo pelo tempo, dinheiro e atenção dos clientes. Aliança mercadológica no sistema da carne bovina é definida como uma iniciativa conjunta de supermercados, frigoríficos e pecuaristas, objetivando levar ao consumidor uma carne de origem conhecida e qualidade assegurada. Entretanto, não há porque não ampliar esta definição de modo a incluir outros agentes como açougues e serviços de alimentação.

Alianças estão surgindo, pois clientes finais que consomem a matéria prima carne recebem na maioria das vezes um produto tratado como commodity e raramente seus anseios chegam ao frigorífico. Menos ainda ao pecuarista. Somente analisando a cadeia produtiva como apresentada em sua totalidade (Figura 1), fica evidente seu nível de complexidade e pode-se constatar que as poucas modificações alcançadas devem-se à estratégias setoriais de curto prazo, sem aplicação de conceitos modernos visando à diminuição das tensões entre os elos e maximização do poder de adaptação às mudanças de mercado (Lazzarini et al, 1996). As alianças na cadeia da carne bovina são estratégias comerciais utilizadas em vários países. Tanto na Austrália quanto nos Estados Unidos, na França e Inglaterra, esta iniciativa é feita na maioria das vezes em conjunto com associações de raças e com apoio do governo. Na Austrália, basta existir relacionamento em apenas dois elos da cadeia para ser considerada uma aliança, ou seja, uma iniciativa em conjunto com produtores e supermercado ou qualquer canal de distribuição pode-se enquadrar no conceito.

Uma estratégia através da aliança mercadológica visa trazer vantagens a todos os segmentos que a compõem. Para o pecuarista, participar de um programa de qualidade, aumentar o giro de capital dentro da sua propriedade devido ao fato de estar trabalhando com uma matéria prima mais precoce, e também pela possibilidade de haver uma remuneração extra pela qualidade de seu produto. A indústria terá a garantia do fornecimento de sua matéria prima em quantidade e qualidade, com regularidade, pré determinada entre as partes. O varejo poderá promover aproximação entre o consumidor e o produto garantido. Algumas vantagens e desvantagens gerais são descritas na Tabela abaixo.

Vantagens e desvantagens das alianças estratégicas na cadeia produtiva de gado de corte
Vantagens Desvantagens
  • Compartilhamento de recursos, capacidades e competências
  • Agregação de valor ao produto
  • Melhoria de acesso ao mercado
  • Fortalecimento das operações da cadeia
  • Gestão e controle das atividades da cadeia
  • Melhoria da capacidade tecnológica
  • Desenvolvimento de habilidades organizacionais
  • Incremento de rentabilidade
  • Alocação de recursos específicos
  • Necessidade de investimento
  • Redução de flexibilidade
  • Necessidade de exclusividade
  • Rigidez nas estruturas organizacionais
  • Redução de controle gerencial
  • Impossibilidade de barganha

Existem muitos desafios que poderiam ser traduzidos em incertezas ligadas ao ambiente e ao comportamento dos agentes: os pecuaristas encontram dificuldade em trabalhar com oferta concentrada de novilhos ou bois para obter melhor fluxo de oferta, forçando as alianças a criar uma estratégia operacional, determinando um fluxograma ou programação de produção mensal/anual de novilhos acabados de acordo com os padrões estabelecidos para o abate e, com relação ao peso das carcaças, os quais afetam diretamente a produtividade industrial e padronização dos cortes. O custo operacional onera o produto, motivo pelo qual os pesos das carcaças são tão relevantes.

Outra das principais dificuldades do sistema de alianças é promover uma harmonia de interesses dos participantes, que muitas vezes são conflitantes e requer transparência do processo de coordenação dos objetivos e das etapas a serem cumpridas por cada parte. Existe uma enorme diferença entre o poder de barganha dos distintos agentes. Segundo Perosa (1999), este poder de barganha ora se apresenta maior para o pecuarista, ora pelos frigoríficos e, mais recentemente, para os distribuidores varejistas, observando ainda hoje a postura oportunista dos elos quando diz respeito a ganhos momentâneos. Tal postura dificulta estabelecer um planejamento e uma modernização ao longo da cadeia. Adiciona custos de transação e reduz a confiança das partes na relação.

Para obtenção de sucesso entre os relacionamentos organizacionais, alguns aspectos devem ser levados em consideração. A excelência individual de cada participante, com adequado padrão produtivo e tecnológico que possam realmente contribuir para a produção de um produto diferenciado, pronto a atender as exigências dos consumidores, torna-se importante para a parceria. As relações entre os participantes devem ser congruentes com objetivos estratégicos a fim de beneficiar todos os parceiros, devendo haver dependência mútua.

  • Sabrina Coneglian

    Sabrina Coneglian

    Sabrina Coneglian é Zootecnista, Doutora em Nutrição de Ruminantes pela Universidade Estadual de Maringá e integrante do Departamento Técnico da Serrana Nutrição Animal.

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