O uso de floras de exclusão competitiva no controle de salmoneloses

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    Aves

Exclusão Competitiva é o mecanismo no qual as bactérias de uma microbiota intestinal saudável colonizam e previnem a instalação de bactérias patogênicas. Nas aves, as bactérias de exclusão competitiva estabelecem de forma rápida uma flora saudável, mantendo a saúde intestinal. Em condições naturais, os tecidos da mucosa do TGI (trato gastro intestinal) das aves são colonizados e estabelecem uma flora entre os 7 e 10 dias de vida. A utilização de floras de exclusão competitiva visa encurtar este período, reduzindo o risco de contaminação e doenças causadas pela instalação de bactérias patogênicas.

Os produtos desenvolvidos para exclusão competitiva são compostos por vários tipos de bactérias, alguns gêneros anaeróbios facultativos como Lactobacillus, Enterococcus e Bifidobacterium, que modulam a composição e equilíbrio da microbiota cecal. Outros gêneros possuem funções mais específicas, como o Ruminococcus, importante na fermentação de carboidratos e Fusobacterium que compete com as Salmonellas por sítios de ligação no TGI. Relaciona-se: Bifidobacterium sp, Propionibacterium sp, Ruminococcus sp, Enterococcus sp, Fusobacterium sp, Escherichia coli não patogênica, Eubacterium sp, Lactobacillus sp, Bacillus sp, e Bacteroides sp.

COMO FUNCIONA A FLORA DE EXCLUSÃ O COMPETITIVA :

Barreira Física: no TGI há concorrência por locais de fixação das bactérias e as bactérias anaeróbicas fixam-se firmemente nas superfícies mucosas e têm filamentos que penetram na camada superficial do epitélio formando uma densa camada de diferentes anaeróbios, criando uma barreira física impedindo a fixação de outras bactérias na mucosa intestinal.

Ação Química: As bactérias anaeróbicas criam um microambiente com baixa tensão de oxigênio, desfavorável ao crescimento de enterobactérias microaerofílicas, tais como Salmonella spp. A flora cecal produz ácidos graxos voláteis (ex. ácidos lácteos ou propriônicos) que reduzem o pH inibindo os enteropatógenos tais como Salmonella ou E. coli.

Ação Bioquímica: Muitos microorganismos intestinais como Lactobacillus spp. e E. coli produzem bacteriocinas ativas contra Salmonellas. Ação Nutricional: Estudos in vitro mostram que há concorrência entre anaeróbios da flora intestinal normal e a Salmonella spp. por aminoácidos essenciais e açúcares.

SITUAÇÕ ES DE USO

As floras de exclusão competitiva devem ser utilizadas para colonizar a mucosa do intestino, em diversas situações:

  • Estabelecimento de microbiota em pintos de 1 dia de vida;
  • Reposição de microbiota após a antibioticoterapia;
  • Reposição de microbiota após situações de stress tais como manejos e trocas drásticas de rações;
  • Stress fisiológico, como o período de pico de postura.

ESTUDOS DE EFICÁCIA

Diversos estudos vêm sendo realizados desde a década de 30, quando foi observado que distúrbios na microbiota intestinal normal eram responsáveis pela instalação de bactérias patogênicas no trato entérico das aves. Entretanto, somente na década de 70, constatou-se que as aves recémnascidas eram muito mais susceptíveis, principalmente a Salmonella spp, em relação às aves adultas (NURMI; RANTALA, 1973).

Diversos autores apresentam estudos comprovando que, para a formação de uma boa microbiota nas aves e impedir a intalação de patógenos, a colonização por bactérias de exclusão competitiva deve ocorres o mais precoce possível. Uma forma de preventiva às enterites.

Na avicultura industrial atual há uma busca constante por melhores resultados zootécnicos com a maximização dos ganhos econômicos. Muitos produtos são desenvolvidos com a finalidade de prevenção e/ou tratamento, como as floras de exclusão competitivas que auxiliam na manutenção dos ganhos econômicos, devido a manutenção da qualidade intestina.

Estudos realizados recentemente, demonstraram que diversos produtos desenvolvidos com o conceito de exclusão competitiva atuam prevenindo a infecção por patógenos esécíficos. Por exemplo, as salmoneloses, um flagelo atual que pode impedir o desenvolvimento e crescimento do setor avícola.

Em testes realizados na USP, em 2006, foram comparados alguns produtos de exclusão competitiva, tendo nos resultados diferenças significativas.

Nestes testes, aves de recebiam individualmente, via inglúvio, o produto de acordo com o tratamento, no 1º dia de vida. No dia seguinte, 2º dia de vida, as aves foram desafiadas com 104 UFC de Salmonella Tiphimurium.

No 7º dia de vida, as aves foram sacrificadas, e no trato entérico foi avaliado a presença de salmonella, tendo como resultado:

CONCLUSÕES – PONTOS CHAVES

As bactérias de floras de exclusão competitiva proporcionam às aves uma colonização precoce da mucosa intestinal, desenvolvendo uma microbiota equilibrada, impedindo o desenvolvimento de infeções por agentes patógenos.

O uso de floras de exclusão competitiva auxilia na:

  • Proteção das aves contra a colonização de diversos sorotipos de Salmonela, E. coli patogênica, Clostridium perfringens;
  • Melhora a qualidade e integridade intestinal, consequentemente as condições ambientais (contaminação e qualidadede cama);
  • Recomposição da flora intestinal, após a utilização de antibióticos terapêuticos;
  • Modifica e melhora a flora ambiental e
  • Auxilia no processo de sustentabilidade da produção avícola.

REFERÊNCIAS

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  • Marco Aurélio Elmer Lopes

    Marco Aurélio Elmer Lopes

    Médico Veterinário pela USP, Mestrado em Patologia Aviária pela USP e Coordenador Técnico da MSD Saúde Animal

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