Nutrição de frangos de corte na última semana

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A evolução genética dos frangos vem trazendo aos profissionais que atuam na avicultura constantes desafios, muitos deles relacionados à nutrição e ao consumo de alimento. O período de vida destes animais vem diminuindo consideravelmente ao longo dos anos e, como consequência, o mesmo se aplica às diferentes fases de alimentação. Destas, a fase final merece especial atenção, pois a curta duração (5 a 8 dias) e o alto consumo relativo de ração, comparado com as outras fases, faz com que as aves dificilmente apresentem ganhos compensatórios de desempenho após erros de manejo. Dandu e Angel (2003), citando o NRC (1994), estimaram que em frangos abatidos aos 49 dias de idade 25,6% de toda a ração consumida ocorre de 41 a 49 dias de idade.

No entanto, a duração dessa fase pode ser afetada por fatores, como sexo, uniformidade, temperatura ambiente, densidade etc. Estes fatores podem comprometer a administração correta de energia e nutrientes durante esta fase e também sobre os prazos de retirada de aditivos que requerem período de carência.

Em geral, nas dietas de frangos é observado aumento nos níveis de energia metabolizável aparente (EMA), diminuição dos níveis da maioria dos nutrientes e aumento ou manutenção dos níveis de aminoácidos digestíveis em relação à lisina digestível, com o progresso das diferentes fases de alimentação. Em relação à dieta da última semana há alguns aspectos importantes a ser considerados. Os mais importantes são a idade de abate das aves, se há separação por sexo e se cada sexo recebe alimentação diferenciada e qual o manejo alimentar (a dieta é administrada à vontade ou há restrições, que podem ser por regime de luz ou alimentação por quantidades fixas ou “budget”). Ainda é importante saber qual o objetivo da produção de frangos. As aves serão vendidas vivas, vendidas inteiras, na forma de carcaças ou na forma de cortes, o que impacta diretamente nas exigências de aminoácidos da fase final. No último caso, as exigências são maiores, pois a musculatura esquelética do peito requer mais aminoácidos do que o desenvolvimento de outros tecidos.

Energia

Um fator a ser levado em conta na hora de definir os níveis energéticos das dietas são as condições ambientais nas quais os frangos são criados. As linhagens atuais, de rápido crescimento, apresentam altas taxas metabólicas, o que se reflete na necessidade diária de energia. Na fase final de crescimento, frangos submetidos a altas temperaturas apresentam concomitantemente maior gasto energético com a mantença e a redução no consumo de energia, o que cria déficit energético que se traduz em menor ganho de peso (Olanrewaju et al., 2010). Um experimento conduzido no Centro de Pesquisas em Nutrição Animal (CPNA), da Cargill Alimentos – Nutron, avaliou, a partir da metodologia de superfície de resposta, a interação entre diversos níveis de lisina digestível e de energia metabolizável em frangos machos Cobb 500, mantidos em ambiente com temperatura termoneutra ou estresse térmico (Figura 1). Aos 43 dias de idade, o peso foi mais afetado pela variável consumo de energia (kcal/ave no eixo X) nas aves mantidas em estresse térmico (Figura 2). Nesse gráfico, é possível observar que em situação de estresse térmico (cerca de 30ºC durante 14 horas/dia, a partir dos 21 dias de idade) as diferentes faixas de peso (diferentes cores), aos 43 dias de idade, tenderam a ser mais “perpendiculares” ao eixo “X” que em temperatura termoneutra (ver a seta azul no gráfico). Isso significa que quando se desloca no eixo “X”, no sentido do maior consumo de energia (para a direita), as mudanças nas faixas de peso ocorrem mais rapidamente nas aves em estresse térmico, indicando maior resposta

Figura 1 - Experimento CPNA-A-0312: Sala mantida em temperatura termoneutra (esquerda) e em estresse térmico (direita) 

por unidade de energia consumida (Figura 2). Também é possível observar esse efeito nas equações resultantes desta avaliação, em que o fator que multiplica o consumo de energia (ME int) foi maior (0,155) nas aves mantidas em estresse térmico do que naquelas mantidas em temperatura termoneutra (0,140) (ver equações abaixo da Figura 2, em azul). Esta maior resposta para energia, em situação de estresse térmico, é compatível com a expectativa teórica explicada acima. O fato da resposta para o consumo de lisina ter sido menor no ambiente de estresse térmico (nas mesmas equações, em vermelho) reforça a

Figura 2 - Experimento CPNA A-0312: Efeito do consumo de lisina digestível e de energia metabolizável sobre o peso aos 43 dias de idade de frangos Cobb 500, machos, mantidos em temperatura termoneutra (normal) e em estresse térmico (HS) 

conclusão de que em ambientes quentes a energia tende a se tornar o componente nutricional mais limitante.

Proteína e aminoácidos

Corzo et al (2006), em um estudo com frangos Hubbard Ultra Yield, de 42 a 56 dias de idade, concluíram que para a otimização do desempenho e as características de carcaça a exigência de lisina total foi de 0,93% para machos (0,85% de lisina digestível), enquanto para fêmeas não foram observadas diferenças significativas nos níveis testados (intervalo de 0,68 a 1,10% de lisina total). Dozier III et al (2008) avaliaram exigências de lisina digestível para frangos da linhagem Ross x Ross 708, de 49 a 63 dias de idade, e concluíram que as exigências para machos foram de 0,87% para crescimento e de 0,90% para rendimento de peito, enquanto para fêmeas a exigência de lisina digestível para crescimento foi de 0,81%. Ambos os trabalhos mostraram que em idades mais avançadas as diferenças nas exigências de aminoácidos entre machos e fêmeas podem ser substanciais, justificando a possível criação de sexos separados como forma para diminuir o custo de alimentação. Dozier et al (2010) também observaram diferenças entre linhagens de alto desempenho, em estudo empregando frangos de genéticas Ross x Ross TO16 e Cobb x Cobb 700, no período de 28 a 42 dias de idade. As exigências de Ross e Cobb foram de 0,988% e 0,965% (ganho de peso), de 1,053% e 1,012% (conversão alimentar),

Figura 3 - Efeito do nível de lisina digestível da dieta sobre o peso corporal aos 34 dias de idade de frangos machos Cobb 500 e Ross 308 (adaptado de van der Hoeven- -Hangoor e Wijtten, 2012) 

de 0,939% e 1,029% (peso de carcaça) e de 0,962% e 0,987% (peso de peito), respectivamente. Um trabalho realizado em 2012, na Estação Experimental da Cargill, na Holanda (Figura 3) mostrou que, embora frangos machos Cobb 500 e Ross 308, avaliados no período de 1 a 35 dias de idade, tenham mostrado o máximo ganho de peso suplementados com nível semelhante de lisina digestível, a taxa de resposta foi bastante mais alta na linhagem Ross, sendo que ela foi essencialmente diferenciada pela variação no consumo de ração.

Além da lisina, também há estudos avaliando as exigências de outros aminoácidos. Kidd et al. (1999) avaliaram as exigências de treonina para ganho de peso, conversão alimentar e rendimento de peito em machos Ross x Hubbard, no período de 42 a 56 dias de idade, e observaram resposta quadrática com níveis crescentes do aminoácido para todos estes parâmetros, sendo a recomendação final de 0,67% de treonina total (0,60% de treonina digestível e relação com a lisina digestível de 0,70%). Mejia et al (2012) avaliaram a relação arginina digestível:lisina digestível para frangos machos Ross x Ross 708, no período de 21 a 42 dias de idade, submetidos a altas temperaturas, e concluíram que a conversão alimentar é otimizada quando a relação é de 110%, mesmo não sendo observadas diferenças estatisticamente significativas entre 105 e 120%. Não foram observadas diferenças no consumo alimentar, no ganho de peso, na mortalidade, no rendimento de carcaça e de peito e na gordura abdominal. Mejia et al (2011) demostraram que machos Ross x Ross 708, avaliados no período de 28 a 42 dias de idade, apresentaram relação isoleucina digestível:lisina digestível de 68,9% para desempenho e de 71,7% para rendimento de peito. Corzo et al (2004), avaliando as exigências de valina, no período de 42 a 56 dias de idade, para frangos machos Ross x Ross 308, concluíram, com base na conversão alimentar e nos dados de qualidade de carcaça, que o nível ótimo deste aminoácido na ração final é de 0,73% (total) ou 0,67% (digestível).

Minerais

Em estudo conduzido com frangos machos Ross 308, no período de 42 a 49 dias de idade, Dandu e Angel (2003) concluíram que a exigência de fósforo não fítico (nPP) é de 0,16% (considerando o de cálcio de 0,72%). Rousseau et al (2012) também demonstraram, em estudos conduzidos com frangos da linhagem Ross PM3, no período de 21 e 38 dias de idade, que é possível formular dietas com nível de fósforo não fítico abaixo dos comumente utilizados. Entretanto, os autores reforçaram que é necessário compatibilizar os níveis de nPP da dieta com os níveis de cálcio e com a suplementação com fitase.

Restrição alimentar

A restrição alimentar nas últimas fases de produção dos frangos exige avaliação caso a caso, levando-se em consideração o início da restrição, a forma como ela é aplicada e sua intensidade. Sua utilização tem como objetivo basicamente diminuir problemas metabólicos que aparecem, sobretudo, no período final de produção (ascite, morte súbita, problemas de perna etc), que ocasionam aumento excessivo na mortalidade ou, então, para melhorar a conversão alimentar do lote. Entretanto, alguns fatores fazem com que esta prática não seja recomendada na fase final, sendo dada a preferência para ser realizada em idades anteriores, na qual é mais eficiente, além de propiciar mais tempo para as aves se recuperarem, apresentando ganho/consumo compensatório. Considerando sempre o abate final com o mesmo peso, a restrição ao final dificilmente não levará a perdas na conversão alimentar. Isso é especialmente verdade no frango moderno, pois até mesmo com fêmeas é difícil ver um platô na deposição de proteína corporal em animais consumindo ração à vontade (Kessler, 2010. comunicação pessoal).

A Tabela 1 mostra, com base em dados de campo, que a melhor correlação com a conversão alimentar ajustada é obtida com o ganho de peso no período anterior ao abate em relação ao peso ou ao ganho de peso, em qualquer das semanas anteriores. Somente o ganho de peso diário do período total de crescimento mostrou correlação melhor. Em outras palavras, lotes que ganham mais peso logo antes do abate melhoram mais acentuadamente a conversão alimentar do que aqueles que tiveram ganhos de peso mais altos nas semanas anteriores. Este dado deve ser levado em consideração antes de ser considerado fazer qualquer tipo de restrição alimentar nesta fase. Uma exceção é na ocorrência de surtos de calor em aviários com controle indevido do ambiente, quando a possibilidade de alta mortalidade é bastante provável.

Tabela 1 - Correlação (r) entre variáveis relacionadas ao peso/ganho de peso, com a conversão alimentar ajustada para 2,1 kg, em lotes mistos (análise de 840 lotes)

É importante ter em mente que em um programa de restrição alimentar não ocorre somente a restrição dos nutrientes ou da energia consumidos. Esta mesma restrição também restringe o consumo dos aditivos, tais como os melhoradores de desempenho, os anticoccidianos e os adsorventes, entre outros. Quando a restrição alimentar não é devidamente empregada, há risco de piora no ganho de peso e na conversão alimentar do lote, levando ao maior tempo de permanência do lote no galpão, na tentativa de recuperar o peso e a uniformidade comprometidos, bem como pode potencialmente levar a problemas sanitários, comprometendo a biossegurança do lote. Outro ponto a se considerar são as restrições alimentares que ocorrem involuntariamente, ou seja, por erros de manejo, podendo ser citados, como exemplos, a alta densidade de aves por comedouro, a falta ou a má qualidade da água de bebida e o estresse térmico, entre outros.

Conclusões

A última fase de um programa alimentar para frangos é mais complexa do que aparenta, pois antes de estabelecer os níveis de energia e de nutrientes da dieta é necessário definir qual a idade de abate das aves, se são criadas separadas ou não por sexo, se estão dentro ou fora da faixa de termoneutralidade ou se são submetidas à restrição alimentar (voluntária ou não). Ainda é importante saber qual o objetivo da produção de frangos, ou seja, se as aves serão vendidas vivas ou serão vendidas como carcaças inteiras ou em cortes. As decisões tomadas nesta fase podem afetar profundamente a lucratividade da produção.

  • Antonio Mário Penz Junior (Diretor Global de Contas-Chaves), Daniel Gonçalves Bruno (Nutricionista e Pesquisador), Alvaro Dubois (Consultor Técnico de Avicultura) e Rodrigo Uttpatel (Consultor Técnico de Avicultura), Cargill Alimentos – Nutron

    Antonio Mário Penz Junior (Diretor Global de Contas-Chaves), Daniel Gonçalves Bruno (Nutricionista e Pesquisador), Alvaro Dubois (Consultor Técnico de Avicultura) e Rodrigo Uttpatel (Consultor Técnico de Avicultura), Cargill Alimentos – Nutron

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