Milho: Um importante ingrediente para avicultura

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O milho é o principal ingrediente utilizado nas dietas de monogástricos e merece atenção especial em todo o processo da fabricação das rações.

É importante considerar que a composição do milho pode ser influenciada pelo tipo de solo, adubação, condições climáticas, tipo de híbrido, além da contaminação física, química e microbiológica, que afetarão sua composição nutricional.

Para a produção de alimento destinado ao consumo animal, a qualidade do milho é importante, uma vez que pode afetar o custo da produção, o desempenho zootécnico e a qualidade das carnes e dos ovos. Portanto, para o milho entrar na fábrica, deve seguir um plano de controle de qualidade, o qual será discutido neste artigo.

A qualidade bromatológica dos grãos varia durante o ano e a cada ano, como se pode observar nos gráficos 1 e 2, referentes a 7.304 amostras analisadas no laboratório da Nutron Alimentos, durante o período de 2007 a 2010.

Outro ponto importante a ser observado é que a incidência de micotoxinas depende de vários fatores, os quais serão abordados neste artigo, e que também podem variar a cada ano (Gráfico 3).

Há vários fatores que influenciam a qualidade dos grãos após terem sido armazenados no silo.

A secagem adequada é o procedimento mais aceito como prevenção contra micotoxinas após a colheita. Normalmente, a extensão do período pelo qual os grãos serão armazenados é considerada como um fator de alto risco para a produção de micotoxinas.

Mesmo que a umidade esteja controlada, os insetos e os roedores podem exercer um grande impacto sobre o desenvolvimento dos fungos nos grãos estocados (Figura 1). Assim, somente controlar a umidade dos grãos não é suficiente, pois tais pragas podem causar um aumento da quantidade de finos (pó) e comprometer a integridade do gérmen durante o armazenamento.

Qualquer aumento na área de superfície dos grãos, como finos, ou injúria do gérmen, fornecerá condições necessárias à proliferação fúngica e à produção de micotoxinas.

Normalmente, a maioria dos grãos destinados à produção de rações animais contém fungos e esporos viáveis. Muitas vezes, a contaminação ocorre no campo, durante o período que antecede a colheita. Nos últimos dois anos, observou-se o aumento na incidência de milhos contaminados por fumonisina, principalmente durante o período de inverno, em que se faz a colheita do milho safrinha.

Para montar um programa que evite a ocorrência de problemas relacionados às micotoxinas, é importante entender as necessidades dos fungos e como isso ocorre dentro do silo, pois as exigências para o desenvolvimento fúngico incluem uma fonte de nutrientes, presente nos grãos, além de umidade acima de 12%, temperatura quente, condição que ocorre nos silos, oxigênio e tempo.

Conforme os fungos desenvolvem-se, enzimas digestivas são liberadas pelas hifas e os nutrientes dos grãos são absorvidos e utilizados pelos fungos, os quais necessitam de uma fonte abundante de energia para sustentar o seu crescimento. Este papel será desempenhado pelo amido e pela gordura dos grãos (Figura 2). O amido encontra-se no endosperma e a gordura no gérmen.

O crescimento fúngico pode diminuir o conteúdo energético e ter um impacto negativo no perfil nutritivo dos grãos. Carboidratos, certas vitaminas, lipídeos e proteínas (aminoácidos) são invariavelmente afetados. Grãos fungados também terão menor rendimento na fabricação de rações e alguns metabólicos secundários (micotoxinas) são agentes responsáveis por problemas de saúde e de desempenho nos animais.

Uma vez que os grãos chegam à fábrica de ração e são estocados no silo, a sua qualidade começa a decair proporcionalmente ao tempo e às condições em que são armazenados. Assim, o objetivo deve ser manter a qualidade dos grãos tão próxima, quanto àquela existente no momento do armazenamento, diminuindo ao máximo a velocidade de deterioração.

A única maneira de alcançar tal padrão de qualidade é por meio de um bom gerenciamento de silos e da armazenagem dos grãos. A umidade é um fator limitante na velocidade de deterioração dos grãos devido à ação das bactérias e dos fungos.

Qualidade dos grãos recebidos

Quando os grãos chegam à fábrica de ração, a classificação deve ser feita antes do descarregamento e deve ter como base os padrões estabelecidos pela companhia.

Se os grãos forem de má qualidade, a empresa deverá adotar uma atitude defensiva. Isso significa fazer o possível para minimizar os danos que esses grãos poderão causar à saúde e ao desempenho dos animais.

Além da classificação, outro parâmetro importante para o recebimento dos grãos é a sua densidade (g/l). Apesar de existirem trabalhos contraditórios quanto à sua correlação com a energia, é indiscutível que o milho de melhor qualidade apresenta maior densidade.

Mantendo a boa qualidade dos grãos durante a estocagem

  1. Limpeza - O primeiro passo para a estocagem é a limpeza dos grãos (pré-limpeza). Com a limpeza, retiram-se as sujidades e as partículas finas, as quais, normalmente, contém maior quantidade de micotoxinas, quando comparadas aos grãos íntegros.

    Usualmente, os grãos íntegros não apresentam grande quantidade de micotoxinas, porque o gérmen e o amido não estão expostos. Geralmente, o material estranho, encontrado com os grãos, facilita o desenvolvimento fúngico por conter maior quantidade de esporos e de umidade.

  2. Secagem - O calor utilizado na secagem deve ser controlado, para que não haja quebra de grãos e condensação durante o esfriamento, expondo o produto à contaminação. O excesso de secagem causa o aumento de grãos quebrados e a formação de pó durante o manuseio e a moagem.

    Ainda que um lote de grãos, a ser ensilado, possua distribuição uniforme da concentração de umidade, tal condição não pode ser utilizada com garantia de segurança. Há um microclima dinâmico dentro dos silos.

    Após semanas ou meses de estocagem, a umidade dos grãos tende a migrar dentro dos silos. Isto é causado por correntes de convecção que se formam durante os dias quentes, seguidos de noites frias (Figura 3). A umidade existente nos grãos aquecidos evapora-se e sobe, direcionando-se às regiões mais frias dos silos. Em seguida, a água condensa-se e fica acumulada nas periferias. O acúmulo de umidade nessas áreas pode oscilar entre 16% e 17%, com consequente proliferação fúngica e formação de massas de grãos mofados e aglutinados, próximos das paredes dos silos.

  3. Aeração - Uma das melhores maneiras de minimizar a migração da umidade e dissipar o calor próximo às paredes dos silos é movimentar, periodicamente, o ar do microambiente. A movimentação do ar auxilia a manutenção da uniformidade da temperatura, prevenindo a condensação. O melhor horário para proceder à aeração é durante a noite, quando a umidade relativa do ar está entre 60% e 75%, o que previne secagem ou umidade excessivas.

    No entanto, em algumas vezes, o período noturno pode não ser o horário ideal, pois em regiões quentes e úmidas, a hora correta da aeração deve ser determinada pela empresa com o auxílio de termômetros e higrômetros.

  4. Minimização dos danos no desempenho - A maneira mais óbvia de prevenir que grãos contaminados com micotoxinas causem problemas no desempenho dos animais é não utilizá-los. Porém, em muitos casos, é impossível evitar que sejam usados. Se grãos de qualidade inferior têm que ser utilizados nas formulações, a empresa ou o produtor terá que implementar um plano específico para tal uso.

Procedimento de amostragem/ tamanho da amostra

É essencial amostrar adequadamente os carregamentos de grãos, variações nas concentrações de micotoxinas são normais e devem ser esperadas.

Uma empresa ou produtor que tenha à sua disposição um excelente método de detecção de micotoxinas, mas que falhe durante as etapas de amostragem e de moagem, pode não atingir o resultado desejado; ou seja, detectar a presença de micotoxinas com eficiência.



Inibidores de fungos/ Agentes adsorventes

Quando grãos de baixa qualidade são estocados, a probabilidade de deterioração é maior do que a esperada para grãos de alta qualidade, quando armazenados nas mesmas condições.

No caso dos grãos de baixa qualidade, a empresa recorre a uma posição defensiva. Se não existirem equipamentos adequados para a limpeza e/ou secagem dos grãos, uma maneira prática de prevenir a deterioração é inibir, prontamente, o desenvolvimento fúngico pelo uso de ácidos orgânicos ou outros inibidores.

Além da atenção durante o armazenamento, os cuidados devem continuar na dieta, certos adsorventes de micotoxinas podem ser utilizados depois que o tipo de micotoxina é identificado, é importante atentarse de que não são todas as micotoxinas que se ligam diretamente aos adsorventes. Ressalta-se que há adsorventes que não têm a mesma eficácia demonstrada no laboratório quando atuam in vivo.

Dessa forma, para avaliar a qualidade de um adsorvente, deve-se verificar a capacidade de adsorção in vitro e também avaliar se o produto foi testado in vivo em alguma instituição de pesquisa.

Gerenciamento nutricional

Há uma relação entre o conforto das aves e a sua respectiva resistência às rações contaminadas. Quando estressadas, as aves ficam suscetíveis aos efeitos deletérios das micotoxinas, mesmo quando estas estão presentes em baixas concentrações.

Tem-se demonstrado que as deficiências nutricionais comprometem os sistemas enzimáticos envolvidos nos mecanismos de desintoxicação, assim como o sistema imune dos animais; como o milho é o principal ingrediente da composição da ração, merece atenção especial; ou seja, necessita de monitoria constante aos pontos de: classificação, densidade, monitoria de micotoxina e análise bromatológica.

Na tabela 1, podemos verificar a importância do milho nas rações de frangos, e o melhor uso deste ingrediente, pode ser otimizado com análises rápidas e ajuste de formulação adequado. Devido à demora em conseguir o resultado de análise (via úmida), em geral, o ajuste nutricional do milho é feito com a utilização do histórico de resultados e, nem sempre, representa o lote em uso. Esse problema pode ser solucionado com o uso do NIRS (Near Infrared Spectroscopy), uma importante ferramenta para se obter os resultados bromatológicos de maneira rápida, para que o nutricionista possa otimizar o uso do milho e de outros ingredientes.

 

Gerenciamento das decisões

Toda empresa e/ou produtor deveria estabelecer uma escala de tolerância para as diferentes micotoxinas que permita alocar os grãos contaminados dentro do seu processo de criação (Tabela 2). Essa escala deve considerar a idade dos animais, o propósito a que se destinam e as condições sanitárias e de manejo adotadas.

Quando há interações de micotoxinas, as decisões sempre serão muito mais difíceis e deve-se considerar quais delas tendem a causar os maiores danos às diferentes categorias animais.

Conclusão

Neste artigo, observou-se que a qualidade do milho pode ser negativamente afetada nas várias etapas até ser consumido pelo animal. Entretanto, existem medidas de manejo que minimizam os danos aos animais. Dessa forma, todos os envolvidos no processo devem conhecer a importância das boas práticas em cada etapa para o melhor resultado zootécnico e econômico da produção animal.

  • Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz é Doutor em Nutrição Animal pela Universidade da Califórnia - EUA, Mestre em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Diretor Técnico da Provimi América Latina.

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