Fertilidade em reprodutoras pesadas

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Considerando a evolução genética que vem ocorrendo na avicultura de corte não é difícil imaginar a sua continuidade para as próximas décadas, porém existe um paradoxo entre o desempenho dos reprodutores e o de frangos de corte. Suportando este fato podemos citar na evolução da produção de pintos de corte a partir dos anos 80 / 90 podemos citar o uso de grades de restrição para fêmeas, dietas por fases para fêmeas em produção, dieta para machos, esquemas de restrição de consumo, dark house, evolução na ambiência, obstáculos que vem sendo transpostos por técnicos e pesquisadores no mundo.

Tratando-se da reprodução de reprodutoras pesadas são vários aspectos envolvidos, segundo Leeson (1999), existe uma relação negativa entre a taxa de crescimento e a reprodução, e isto significa que não podemos permitir que a fêmea ou o macho expressem seus potenciais genéticos de crescimento, porque a reprodução de aves muito grandes seria anti-econômica. Mauldin, (1998) encontrou como principais causas da perda de eclosão a infertilidade correspondendo a 41,6%, mortalidade precoce 27,9%, mortalidade intermediária 6,3% e mortalidade tardia 24,2%.

A influência da fase de cria e recria na fertilidade do lote.

Os princípios básicos de manejo para reprodutores machos de frangos de corte são muitas vezes similares aos das fêmeas, mas existem características específicas nos programas de nutrição e alimentação (BRAKE, 1999). O crescimento inicial adequado é importante não apenas quando se considera a influência do peso corporal inicial na futura fertilidade, mas também sobre a uniformidade do plantel. Principalmente para linhagens de conformação os machos devem estar no peso alvo ou acima desde principalmente até a 6ª semana de idade com boa uniformidade pela necessidade de preparar machos com um bom tamanho de carcaça principalmente a 4ª semana, mas também a 8a e 12ª semanas, permitindo a distribuição de forma mais adequada da massa muscular destes reprodutores na vida adulta. Vários autores citam desenvolvimento corporal / comprimento das pernas (coxas), como fator chave na fertilidade. A ingestão acumulada de proteína aos 28 dias influencia a composição corporal das aves Wiernusz, 2005 e a produtividade das aves Sbanotto, (1999). A ingestão acumulada de proteína deve ficar em torno de 200 gramas até o 28° dia de vida dos machos (Cobb-Vantress).

A uniformidade é componente chave no manejo de machos, sendo desejável terem uniformidade superior a 90% dentro do lote e nas categorias o mais próximo a 100%. Para atingir os níveis de uniformidade desejados é necessário seleciona-los pelo menos aos 7 dias, e a 4ª, 8ª e 12ª semanas, dependendo da uniformidade na recepção, a separação entre as classes deve ser iniciada a partir do primeiro dia de vida. Machos que não atingirem os pesos e características desejadas nas primeiras semanas de vida devem ser descartados do lote. O espaço de comedouro tem influencia significativa sobre a uniformidade e crescimento (deve ser analisado a falta e o excesso). Os comedouros devem ser aumentados gradualmente conforme a idade da ave.

IDADE ESPAÇO DE COMEDOURO / MACHO

  • 1-5 semanas - 5 a 8 cm
  • 6-10 semanas - 10 a 15 cm
  • 10-15 semanas - 15 a 20 cm
  • >15 sem - 20 cm

A densidade adotada durante a cria / recria tem influencia significativa sobre a qualidade dos machos e fertilidade potencial e deve ser de 3?/m2, nunca superior a 3,5?/m2, pois a densidade elevada pode levar a uma perda de uniformidade, maior agressividade entre os machos e também com as fêmeas fato que poderá gerar um comportamento destas de evitarem os machos, com consequente piora da fertilidade e uma aumento da mortalidade das reprodutoras em casos extremos.

A debicagem uniforme dos machos têm influencia direta no desempenho reprodutivo do lote, sendo que falhas neste procedimento proporcionará grandes prejuízos à fertilidade, já que os machos utilizam os bicos para segurar as fêmeas no momento da cópula.

Entre a 2ª e a 12ª se encontram as proliferações das células de Sertoli, sendo que estas tem a função de proteção das células espermáticas em maturação. O número das celulas de Sertoli será proporcional ao tamanho dos testículos, portanto, estreitamente relacionado com a capacidade para produzir espermatozoides em machos adultos, menores pesos testiculares podem estar relacionados com o menor número das células de Sertoli (Drumond et al, 2003) .

Fase adulta.

Antes de discutir fatores que podem afetar a fertilidade, é importante conhecer como a fertilidade é avaliada. Pois existem dois métodos para avaliação, abrindo os resíduos de eclosão que é muito impreciso e difícil distinguir um ovo infértil de uma mortalidade muito precoce, pois o conteúdo do ovo começa a se deteriorar. A ovoscopia entre 9-12 dias e a abertura dos ovos claros permite uma avaliação mais precisa e indicada para esta avaliação.

O excesso de peso corporal é apontado em diversos trabalhos como responsável pela redução da fertilidade do plantel já que a carcaça muito pesada e excessiva conformação é prejudicial para um bom acasalamento e uma boa fertilidade (ADJANOUHOUN, 1994). Por outro lado distúrbios na espermiogênese são frequentes em galos com peso corporal abaixo do peso padrão (JAENICH et al, 1990).

Devemos ter um bom controle dos ganhos de peso dos machos em produção, pois uma curva adequada de ganho de peso, trará maior longevidade aos machos com boa capacidade de fertilização. Individualmente os machos tem sua melhor capacidade reprodutiva entre os pesos de 4,2kg a 5,2kg, portanto quanto maior a quantidade de animais dentro desta faixa de peso e por um maior período de tempo melhor será o resultado de fertilidade. Obviamente devemos ter em mente a composição corporal destes animais, tamanho de carcaça e respeito aos ganhos de peso mínimos sugeridos.

Efeito Nutrição sobre a fertilidade de machos.

Segundo Hocking (1990), machos alimentados com baixo teor proteico (11%) apresentaram melhora significativa na fertilidade, particularmente no período final de reprodução (depois das 50 semanas). Isto pode estar associado a maior deposição de cristais de acido úrico nas articulações de machos que recebem dietas ricas em proteína (16%), reduzindo a eficiência de acasalamento. Também o excesso de cálcio interfere na absorção de zinco, que tem papel importante na espermatogênese.

Segundo Borges et al.(2006), o manejo nutricional da matriz tem recebido maior ênfase, enquanto a nutrição do macho tem sido relegada ao segundo plano. Apesar dos machos reprodutores constituírem apenas 10% do plantel em relação às fêmeas, representam 50% da carga genética e da fertilidade. Este mesmo autor demonstrou que formulas de rações destinada a machos reprodutores com níveis de proteína elevados após a 28ª semana de vida contribuiu negativamente na fertilidade.

Neste trabalho foi relatado também que a melhor qualidade de sêmen foi obtida a partir de 16 gramas de consumo de proteína diários, o que é impossível de se obter com rações destinadas às fêmeas contendo PB 15,5%. A utilização de ração específica para machos em produção pode apresentar algumas vantagens.

Existem evidencia que alguns aminoácidos em excesso causam alterações no PH do albúmen no oviduto, e este fato poderia reduzir a viabilidade dos espermatozoides antes que estes cheguem às glândulas hospedeiras do infundíbulo.

Dados levantados em um grande produtor de pintos de corte no Brasil por Garcia e Marques (2010) analisando variáveis como peso corporal dos machos, eclosão e fertilidade às 45, 50 55 60 e 65 semanas, concluíram que é altamente viável o uso de dietas específicas para machos, tendo este efeitos benéficos sobre os parâmetros controle de peso corporal, maior eclosão e fertilidade tardias. Foi concluído também que existe uma correlação linear entre as variáveis peso corporal e infertilidade para lotes de machos entre os pesos compreendidos entre 4,5 e 5,9 kg, ou seja, quanto menor o peso corporal dos lotes de machos, maior o percentual de fertilidade.

A influência dos antioxidantes já é muito conhecida sobre a fertilidade de matrizes. O Selênio tem importante propriedade antioxidante intra-celular, segundo Surai et al (1998), este segundo na forma orgânica utilizando (0,3mg/kg) em machos reprodutores aumentou a atividade da glutationa peroxidase protegendo o sêmen contra a peroxidação de lipídios. A vitamina E tem também vital importância como antioxidante intracelular, porém os resultados dos trabalhos são variados utilizando diferentes níveis desta vitamina.

Outro fator importante quando se trata de dietas de machos, é que estas chegam a ter na sua composição até 30% de farelo de trigo, que em realidade é um sub-produto da indústria alimentícia, podendo ter grandes variações nos níveis de fibra, energia, amido e no teor de proteína dependendo da qualidade do grão de trigo, da eficiência como é beneficiada e destino final da farinha obtida, assim torna-se bastante critica a inclusão deste ingrediente em uma proporção tão elevada da dieta de machos, que compõe 50% do resultado que é um ovo fértil. A recomendação é evitar ter vários fornecedores deste ingrediente para evitar oscilações no perfil nutricional da dieta de machos.

Efeito infertilidade fêmeas.

Foi demonstrado da mesma forma que ocorre para machos, que o excesso de proteína bruta total em relação à energia para matrizes pesadas (Lopez e Leeson, 1995) assim como aminoácidos individuais (De Beer and Coon, 2006), podem reduzir a fertilidade. Leeson e Summers (2000) afirmam que após a ovulação, caso os espermatozoides estiverem presentes no infundíbulo ocorrerá à fertilização. A galinha pode armazenar espermatozoides nas glândulas hospedeiras útero vaginais e do infundíbulo durante um longo período após a inseminação artificial ou monta natural, resultando em produção de ovos férteis durante vários dias (Bakst et al, 1994). Porém, a duração da sobrevivência espermática é afetada por fatores intrínsecos do macho ou da fêmea. Ocorrem variações individuais ou de linhagens, na fertilidade, indicando diferenças na capacidade de armazenar e liberar espermatozoides. O efeito da fêmea sobre a fertilidade tem sido atribuído a diferenças na produção de ovos (Beaumont et al., 1992) ou na composição corporal (Goerzen et al., 1996). Além disto, fêmeas com pior qualidade de ovos a incubar geralmente apresentam pior fertilidade (Kirby et al., 1998). Embora tenham observado diferenças na fertilidade, este autor não registrou diferenças na duração da fertilidade, ou seja, o número de dias em que a fêmea permanece fértil depois da inseminação. Ressalta-se que o efeito sobre a duração da fertilidade ocorre devido a uma interação entre a capacidade absoluta da célula espermática sobreviver no oviduto e do número de espermatozoides utilizados na inseminação (Bask et al., 1994).

Efeito físico e comportamental de fêmeas e machos na fertilidade.

No processo de fertilização a reprodutora tem que ter interesse de copular, capacidade de armazenar e liberar espermatozoides e de promover seu deslocamento através do oviduto para ocorrer à fertilização no momento da ovulação, são também necessários machos preparados fisicamente para finalizar o processo de cópula, deve ser observado a qualidade de patas, aprumos, peso, conformação para concluir o processo de cópula, além disto, estar fisiologicamente aptos para produzir espermatozoides em quantidade, qualidade e motilidade para chegarem ao óvulo.

O excesso de peso ou desequilíbrio na conformação das aves resultará em acumulo de massa muscular, principalmente peitoral (fleshing), que dificultará a execução completa da cópula. Nas fêmeas, o excesso de peso acarretará na redução da produção de ovos, da capacidade de armazenar os espermatozoides além da redução do interesse pela cópula, ainda as reprodutoras mais pesadas dentro de um grupo de fêmeas acima do peso, somente serão dominadas por machos acima do seu próprio peso, consequentemente, estes machos terão maior chance de serem incapazes de concluir a cópula.

Efeito temperatura sobre a fertilidade em produção

Diferentemente dos mamíferos que mantém os testículos sob uma temperatura inferior a corporal, os galos têm a particularidade de apresentar os testículos dentro da cavidade abdominal, a uma temperatura de 41 a 43ºC e mesmo assim ocorre à espermatogênese, o que seria impossível em outras espécies.

Neste contexto a ambiência é um fator crítico que contribui para a fertilidade dos ovos, onde altas temperaturas são responsáveis por um menor número de espermatozoides que atravessam a membrana perivitelínica. Isto pode estar relacionado aos machos perderem qualidade de sêmen quando submetidos a altas temperaturas, assim como também as fêmeas que diminuem a capacidade de manter estes espermatozoides viáveis.

Por outro lado, regiões com invernos muito rigorosos geram nas reprodutoras o comportamento de formar grupos ao final da tarde com objetivo de manter a temperatura corporal, horário de grande atividade sexual dos machos, o que pode reduzir a fertilidade em baixas temperaturas, portanto a sugestão é o uso do calcário grosso ou mesmo grãos grossamente partidos e jogados a lanço durante estes períodos para ativar a movimentação do lote de reprodutoras assim possibilitando o acesso dos machos as fêmeas.

Efeito da estrutura da granja na fertilidade.

Com relação ao uso de divisões internas nos aviários (Boxes), este é um fator ambíguo e o seu sucesso dependerá do manejo adotado. Considerando o comportamento animal quanto menor o grupo de aves melhor será o resultado e menor o gasto energético pela menor movimentação dos animais. O ideal seriam boxes de no máximo 2.500 fêmeas em produção, porém em contrapartida se o controle da mortalidade, pesagem de alimento principalmente dos machos não for realizada com a precisão necessária, associado ainda a toda a atividade de pessoas em uma granja de matrizes, possibilitando passagem de animais de um box a outro, a associação destes fatores pode comprometer os resultados do lote em muitos aspectos.

Em função de uma possível escassez e alto custo da mão de obra nos próximos anos, outro fator que poderá ser crítico na fertilidade, é a opção por equipamentos automáticos para coleta de ovos (ninhos automáticos), portanto a escolha da área de superfície de Slats e distribuição dos equipamentos nestes aviários devem ser pontos chave na decisão do projeto. Deve-se evitar que as reprodutoras encontrem condições de se manterem sobre os Slats por muito tempo e consequentemente degradando a fertilidade do lote. É importante evitar excesso de Slats em aviários com ninhos automáticos e as reprodutoras devem ser condicionadas para moverem-se desta área para o chão, isto deve ser feito logo depois que as aves cheguem ao aviário.

O efeito da idade sobre a fertilidade

MANUTENÇÃ O DA FERTILIDADE DE MACHOS:

É sabido que a fertilidade do lote diminui com o tempo, aparentemente muitas coberturas pelo macho dominante não são bem sucedidas e aquelas que parecem bem sucedidas nem sempre resultam na transferência de espermatozoides (Birkhead e Pizzari, 2009) é possível que a qualidade espermática em si diminua. Diferentemente do que imaginamos FISIOLOGICAMENTE machos velhos mantém a habilidade para fertilização, dependendo do período de formação deste macho, porém FISICAMENTE Machos mais velhos tornam se menos capazes para fertilização. Esta é justamente a função do manejo dos machos no resultado de fertilidade dos lotes o MANEJO deve melhorar a frequência de acasalamento e reduzir as limitações físicas frequentemente observadas com a idade, ocontrole de peso corporal não significa peso leve.

MANUTENÇÃO DA FERTILIDADE FÊMEAS :

Fisiologicamente fêmeas velhas são menos férteis, pois possuem menor capacidade de armazenar espermatozoides, assim tem o volume e o número de espermatozoides presentes reduzidos, não fertilizando o ovo com a mesma eficiência, assim podemos concluir que fêmeas mais velhas requerem espermatozoides adicionais para manter a fertilidade.

Efeito SP IKING E INTRA SP IKING na fertilidade.

A introdução de novos galos no lote (spiking) ou a transferência de galos entre galpões do mesmo lote (intra-spiking) podem reduzir a taxa de declínio da fertilidade durante a postura. Ambos os métodos perturbam a hierarquia social e porque galos jovens tendem a ter melhor conformação corporal,aumentando o sucesso das coberturas. Segundo Canovas, (2008), o objetivo destes procedimentos é provocar uma desorganização da hierarquia social, causando uma reação na maioria dos machos do grupo para que estes agora dentro de um grupo diferente e completamente homogêneo se a seleção foi bem realizada, passem a disputar um grupo de fêmeas criando novamente uma ordem de dominância.

Pizzari et al., (2007) mostrou que os machos mudam a qualidade do sêmen produzido alguns dias depois de mudarem sua posição hierárquica. Além dos fatores comportamentais, este procedimento é uma grande oportunidade para recontagem dos animais, principalmente quando se utiliza vários boxes ou divisórias dentro do aviário.

A recomendação para a execução do intra-Spiking em lotes de reprodutoras é variado e depende da degradação da uniformidade e da fertilidade do lote, este manejo pode chegar a ser feito no acasalamento, as 30, 40 e 50 semanas de vida em casos extremos, lembrando que o Intra-Spiking é um manejo preventivo, e não corretivo. Com relação ao Spiking o ideal seria fazer no máximo uma vez a cada lote devido aos riscos sanitários, sendo que ambos manejos podem ocorrer de forma conjugada, classificando os machos velhos por categorias de peso, descartando se os excessivamente pesados, leves e com problemas de conformação, e adicionando os novos em um box separado ou com outros machos com características similares.

Deve se ter cuidados relacionados à execução deste procedimento, pois o Spiking baseia se na reposição de machos jovens com no mínimo 4,2kg e 29 semanas, que devem ser introduzidos em “grupos” de pelo menos 30% quando jovens, e devem estar adaptados ao sistema de alimentação e manejo dos machos mais velhos dentro do grupo. É muito importante que possuam as mesmas características de peso do grupo que será introduzido. Não sendo incomum observarmos machos oriundos da recria, com pesos muito diferentes serem introduzidos ao sistema de “restaurante” e durante vários dias terem grande dificuldade de acesso ao alimento dos machos já condicionados para esta forma de alimentação.

CONCLUSÕES:

Sabemos que existem fatores que influenciam a fertilidade dos reprodutores e existem evidencias de como controla-los de forma eficiente e segura, contudo há necessidade de controlar estes fatores e de conhecer como estes fatores se relacionam. Com o avanço da seleção genética a reprodução destes reprodutores será cada vez mais desafiador.

  • Claudio R. F. Carvalho

    Claudio R. F. Carvalho

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