Fatores sazonais relacionados à produção, nutrição e qualidade de pintos de 1 dia

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    Aves

A atividade reprodutiva das aves é um evento fisiológico complexo, resultado da interação entre o sistema neuroendócrino e reprodutor, sofrendo estímulos externos ambientais e resultando em respostas relacionadas a eventos reprodutivos.

O principal fator que regula a reprodução das aves é o fotoperíodo: quanto mais nos aproximamos de regiões temperadas, maior será a variação do comprimento do dia. Este é o fator extrínseco primário para ativar o eixo hipotalâmico hipofisário gonadal e determinar a dinâmica reprodutiva das aves.

As linhagens comerciais de frangos de corte obviamente vêm sendo desenvolvidas para ganhar peso e reduzir a conversão alimentar na progênie, exercendo efeito antagônico na reprodução (Robinson, 1993). Em contrapartida, a indústria vem aplicando técnicas para minimizar este efeito, como a criação das reprodutoras em locais com pouca luminosidade ou “Dark House” e buscando um novo perfil de conformação corporal nas reprodutoras, já que as linhagens modernas têm alta tendência de deposição de carne, com impacto negativo para um ótimo desempenho reprodutivo.

O fotoperíodo e o ciclo reprodutivo das aves

A produtividade de uma matriz pesada depende de vários fatores, como uniformidade, linhagem, peso corporal, estímulo luminoso, ambiência, nutrição ajustada, níveis vitamínicos, volume de alimento consumido e resposta imune, sendo que a combinação adequada destes fatores resultará na maior produtividade das aves e na melhor qualidade do pinto de um dia.

Quanto mais distante da linha do Equador for o local da criação, maior será a diferença entre o comprimento dos dias curtos (21/06) e longos (21/12). Lotes com inicio de produção em luminosidade crescente, principalmente entre julho e novembro, tendem a ser fisiologicamente mais estimulados, com inicio de produção antecipado e índices produtivos mais elevados. Consequentemente, estes lotes tendem a produzir ovos menores, em alguns casos com percentual de gema menor em relação a outras épocas do ano, apresentando maior risco de obter um pinto de um dia menor, menos uniforme e com maior tendência de pior desempenho zootécnico.

Em contrapartida, lotes com inicio de produção em luminosidade decrescente, principalmente entre fevereiro e maio, tendem a ser fisiologicamente menos estimulados com tendência a atraso no inicio de produção, picos de produção moderados em relação a outras épocas e com consequente maior peso dos ovos e pintos de maior tamanho. Porém, com tendência de produzir melhores pintos de um dia.

A quantidade de horas de luz diárias, principalmente de luz natural, é também um fator de maior gasto energético das reprodutoras. Wiernuz (2011) relatou que a intensidade e duração da luz pode gerar gasto de 104 Kcal ou 3,7% da energia contida na ração de uma reprodutora pesada.

Relação entre peso do ovo, peso do pinto e peso do frango

As aves são ovíparas, portanto, o desenvolvimento embrionário será feito fora da cavidade materna. Consequentemente, os óvulos das aves são muito maiores que os óvulos de mamíferos, tornando evidente que a nutrição da matriz no momento da postura tem efeito sobre o tamanho e composição do ovo (percentual de gema), demonstrando sua importância na qualidade do pinto de um dia. O peso do pinto representa de 67% a 71% do peso do ovo. Portanto, ovos grandes tendem a produzir pintos maiores e, como consequência, pintos maiores tendem a produzir frangos mais pesados. Por isso, precisamos pensar na nutrição das matrizes e na transferência de nutrientes e anticorpos maternos para os pintos. O peso corporal e a uniformidade do lote também definem o peso e uniformidade dos ovos na produção, assim como a qualidade dos pintos de um dia.

O peso excessivo no inicio de produção estimula a maturidade sexual do lote e ocasiona grande desenvolvimento dos folículos prematuros, causando ovulações duplas e ovos defeituosos que reduzem a viabilidade do embrião (Neves, 2005).

Além disso, vários estudos têm demonstrado que o tamanho do ovo também pode ser manipulado por certos nutrientes, como ácido linoleico e aminoácidos, que aportados de maneira adequada podem suportar a taxa de síntese de lipoproteínas necessárias para a formação da gema (Ribeiro, 2007).

Ambiência

Conforme mostra a Figura 1, quanto mais as aves se afastam da sua zona de conforto térmico maior é o gasto energético para se ajustar à temperatura ambiente. Este ponto tem de ser cuidadosamente avaliado quando se desenha a estratégia nutricional de um plantel de reprodutoras, principalmente em situações extremas de temperatura, pois o desconforto térmico excessivo pode causar efeitos na composição corporal, produtividade e no peso dos ovos dos lotes, já que as reprodutoras mobilizarão suas reservas corporais para se ajustar ao ambiente.

Segundo Wiernuz (2011), o gasto energético de uma reprodutora para se ajustar a uma temperatura fora da zona de conforto pode chegar a 100-150 Kcal em relação à energia contida na ração, ou seja, ao redor de 4,5% da dieta.

Qualidade da casca

O calor é responsável por importante perda na deposição da casca em reprodutoras. A concentração de sódio e potássio circulante na ave diminui à medida que a temperatura aumenta (Borges, 1997) enquanto a concentração de cloro aumenta (Belay & Teeter, 1993).

Elementos, como sódio (Na), potássio (K) e cloro (Cl), têm primariamente função eletroquímica, que é manter o balanço ácido-base, bem como o controle osmótico da distribuição de água no corpo. As alterações no equilíbrio ácido- -base e desequilíbrio na suplementação destes eletrólitos causam inapetência, redução no ganho de peso, piora na conversão alimentar, queda na produção, piora na qualidade de casca dos ovos e aumento da mortalidade quando os desequilíbrios não são compensados (Mongin, 1981).

A qualidade da casca é fator capaz de alterar as taxas de eclosão, sendo que mudanças na espessura, número e diâmetro dos poros da casca podem diminuir a condutância de gases para o embrião, interferindo em alguns processos bioquímicos com consequência no desenvolvimento embrionário (Araújo e Albino, 2011).

É de conhecimento da indústria que pintos oriundos de ovos muito grandes (acima de 70 g) com espessura e densidade de casca abaixo do desejado são de baixa qualidade, apresentam deficiência na cicatrização de umbigo e são mais susceptíveis a problemas de campo.

A associação de calcário fino e grosso, o uso adequado do balanço eletrolítico nas formulações, minerais orgânicos (preferencialmente de baixo peso molecular e formado pela ligação de um mineral a um aminoácido) e formas mais ativas de Vit. D3 são ferramentas nutricionais importantes na manutenção da qualidade de casca e, consequentemente, na qualidade dos pintos de um dia.

Qualidade das matérias-primas

Entre as matérias-primas utilizadas para produções de rações de matrizes, o milho é a que tem rastreabilidade de origem mais dificultada, pois são inúmeras as origens (mesmo quando o cerealista ou a cooperativa são considerados fornecedores). Este ingrediente merece atenção especial, pois é muito sensível aos efeitos climáticos sazonais na lavoura e sofre maior deterioração no armazenamento em relação a outros grãos.

Quando pensamos nas demais matérias-primas que compõem uma dieta, é fácil associarmos a uma origem, como no caso do farelo de soja, que na maioria das vezes é comprado de um grupo de três ou quatro processadores regionais, assim como calcário, fosfato e farelo de trigo e, no caso de micronutrientes, o próprio fornecedor pode informar a composição pelo laudo.

O milho

Trata-se de uma commodity agrícola e a diferenciação comercial por qualidade é difícil. Como forma de minimizar as perdas, devemos determinar padrões de qualidade ao recebimento, como teor de ardidos, quebrados, impureza, umidade, densidade, brotados, fungados etc.

Uma característica que vem se alterando no Brasil no decorrer dos anos é a participação importante do milho produzido na safra de inverno. Na safra 2012/2013, a área destinada ao milho de primeira safra foi de 6,783 milhões/ha ou 34,577 milhões de toneladas, contra 9,046 milhões/ha ou 46,929 milhões de toneladas de milho de safra de inverno, ou 57,5% de toda a área de milho (Conab, 2014). Para a safra 2013/2014, é prevista participação ainda maior, chegando a 60% do milho de safra de inverno, sendo estes grãos mais sujeitos a alterações de qualidade pelas adversidades climáticas desta época do ano, apresentando maior risco do comprometimento do seu valor nutricional.

Além das características físicas ou bromatológicas, existem outros fatores que podem alterar a qualidade nutricional do milho. Kaczmarek et al. (2007) relata que alta temperatura de secagem é um fator determinante na digestibilidade do amido. O amido do milho não é homogêneo, sua composição pode variar consideravelmente e o excesso de temperatura pode torná-lo insensível à amilase pancreática.

Atualmente o amido tem sido caracterizado com base na taxa e grau de sua digestão (Englyst & Hudson, 1996; Englyst & Kinkmann, 1990), pelo aumento do amido resistente (amilose e amido retrogrado) (Brown, 1996), podendo chegar a apenas 75% de digestibilidade, com consequente perda de energia metabolizável para a ave, gerando maior quantidade deste nutriente no intestino grosso com maior fermentação microbiana e aumento de substrato para bactérias.

Considerando que o milho compõe a maior parte da energia da dieta das reprodutoras pesadas (aproximadamente 80% da energia ingerida pela ave em produção vêm do milho), o ideal é que houvesse uma estratégia de armazenagem diferenciada para esta matéria-prima, contemplando controle no recebimento do milho úmido, secagem e armazenagem, pois uma possível perda de produtividade afetará toda a cadeia da agroindústria da integração até o frango abatido. A proposta é que para o milho destinado a reprodutoras, os parâmetros de qualidade no recebimento fossem mais rigorosos, assim como controle de temperatura de secagem, limpeza, uso de mesa densimétrica e tratamento com ácidos orgânicos quando armazenada por um período superior a 90 dias ou com umidade desfavorável (ácido propiônico, por exemplo).

Suplementação vitamínica mineral da matriz e o desempenho do frango de corte

Existem vários trabalhos ligando a suplementação vitamínica e mineral das reprodutoras com o desempenho da progênie e, sem dúvidas, a suplementação da matriz

tem efeito sobre seus parâmetros zootécnicos e resposta imune. As vitaminas e minerais nutrientes presentes em menores quantidades nas dietas são fundamentais para o funcionamento das rotas metabólicas (Rutz et al., 2005).

Kidd (2003) relatou que a nutrição da matriz atua na viabilidade e crescimento da progênie e recomenda atenção às suplementações de manganês, zinco e vitamina E, pois interferem diretamente em imunidade. Rebel et al. (2004) no mesmo sentido reforça o papel da suplementação vitamínica e mineral com poder de influenciar positivamente o sistema imune da progênie.

As concentrações de vitaminas lipossolúveis (A, D e E) e algumas hidrossolúveis (biotina e ácido pantotênico) podem aumentar o tamanho do ovo e influenciar na qualidade do pinto (Etches, 1996; Baião & Lúcio, 2005).

Ao se desenhar a suplementação vitamínica e mineral das reprodutoras, é importante considerar que as matrizes jovens têm menor capacidade de transferência de nutrientes para o ovo e, por isso, nesta fase é recomendada suplementação superior vitamínica e mineral. O uso de antioxidantes sintéticos ou naturais também é uma boa opção, sendo que a cantaxantina tem se mostrado um grande aliado neste sentido.

Conclusão

Fica clara a compreensão da necessidade dos ajustes nutricionais de reprodutoras pesadas, com o objetivo de melhorar a produtividade e a qualidade dos pintos de um dia. Essa nutrição não é estática e devemos ajustar, além do perfil nutricional das matérias-primas, também as necessidades da ave, considerando fatores estruturais, ambientais, oscilações de luminosidade, produtividade, linhagem, digestibilidade do alimento, forma física, granulometria, tempo de consumo, tamanho dos ovos, peso e composição corporal das aves.

Os manuais de linhagem ou das próprias companhias nos mostram a direção a ser seguida, mas a diversidade entre regiões e empresas que temos no Brasil torna delicado afirmar qual a quantidade fixa de nutriente a ser ingerido pela ave e, por isso, devemos acompanhar os controles e os dados zootécnicos para obter os melhores resultados.

  • Claudio R.F. Carvalho (Consultor Técnico de Matrizes), da Cargill Alimentos - Nutron

    Claudio R.F. Carvalho (Consultor Técnico de Matrizes), da Cargill Alimentos - Nutron

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