Estudo sobre a prevalência do vírus da Bronquite Infecciosa

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A Bronquite Infecciosa das galinhas (BIG) é uma doença viral, descrita pela primeira vez no início da década de 1930, no estado da Dakota do Norte (EUA). É uma enfermidade que tem distribuição mundial, afetando principalmente frangos de corte, matrizes e aves de postura comercial de todas as idades. Sua patologia de curso agudo, com disseminação muito rápida dentro do lote (período de incubação entre 18 e 36 horas) provoca fortes impactos econômicos na cadeia produtiva. Sua transmissão ocorre por via horizontal, através de aerossóis (espirros e estertores), que contaminam a água e fômites.

O vírus da BIG (VBIG) pertence à família Coronaviridae e gênero Coronavirus, sendo um vírus RNA de fita simples, envelopado, arredondado e apresentando espículas em sua superfície. O gênero Coronavirus está classificado de acordo com suas características em três grupos, sendo os Grupos I e II compostos pelos vírus que acometem principalmente os mamíferos e o Grupo III onde está inserido o VBIG. Por possuir envelope lipídico, o VBIG é sensível à grande maioria dos desinfetantes, embora seja tolerante a variações de pH entre 2 e 12, dependendo das cepas e temperaturas envolvidas.

O VBIG possui um genoma que codifica quatro proteínas estruturais, a glicoproteína S (spike), a glicoproteína de membrana (M), a proteína de nucleocapsídio (N) e a proteína de envelope (E). A proteína N está relacionada com a replicação viral e a glicoproteína S está relacionada à adsorção com receptores de células-alvo e sítios antigênicos, voltados para a interação com anticorpos neutralizantes ou inibidores da hemaglutinação. A glicoproteína S é onde acontecem as principais variações genéticas do VBIG, o que a campo leva ao aparecimento de novos casos clínicos e isolamentos de estirpes variantes do vírus, com mudanças importantes na patogenicidade e tropismo em relação a sorotipos anteriormente identificados.

Embora estas alterações sejam muito pequenas, são suficientes para levar à ineficácia da imunidade conferida pelos programas vacinais normalmente utilizados (principalmente aqueles com vacinas clássicas, como as H120). Estes novos sorotipos, porém, mantém a maior parte de seu genoma inalterado, o que pode explicar porque uma vacina mais antigênica, apesar de pertencer a um determinado sorotipo, consiga prover proteção contra um sorotipo diferente.

Este fenômeno agrupa sorotipos virais diferentes dentro de uma mesma categoria, pela capacidade que uma ou mais cepas apresentam de proteger as aves contra um terceiro vírus, imunogenicamente distinto. Este agrupamento foi denominado Protectotipo®.

Devido aos seus diferentes tropismos, a patogenia do VBIG é variável. Porém, o trato respiratório superior é o sítio inicial de replicação do vírus. Neste local a multiplicação viral provoca a perda do revestimento de células ciliadas, que são protetoras da mucosa dos seios nasais e da traqueia. Estas lesões aumentam a incidência de infecções secundárias, que se manifestam como quadros respiratórios com alta morbidade, níveis variáveis de mortalidade e aumento das condenações de abatedouro por aerossaculite. Após uma rápida viremia, o vírus dissemina-se para diversos tecidos e órgãos, podendo ser detectado em vários sistemas além do respiratório, como os tratos gastroentérico, reprodutivo e urogenital, apresentando-se com diversos sinais clínicos nas aves, dependendo da estirpe envolvida.

MEDIDAS DE CONTROLE DA BI

O controle da bronquite infecciosa das galinhas, não difere de outras patologias virais, sendo baseado em duas premissas básicas, a biosseguridade e a correta imunização das aves.

A primeira visa minimizar a exposição das aves ao vírus, através da implementação de medidas de higiene, manejo e boas práticas, tais como o estabelecimento de corretos procedimentos de limpeza e desinfecção nos períodos entre lotes e alojamento por microrregiões.

A segunda tem por objetivo conferir proteção através da imunização ativa das aves, com a adoção de programas vacinais desenhados conforme a realidade de cada região, ou de acordo com a disponibilidade de vacinas e legislação vigente.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico de BI é baseado na análise epidemiológica, na sintomatologia clínica, em achados de necropsia e principalmente no resultado de exames laboratoriais como o teste de ELISA, soroneutralização (SN), isolamento viral e técnicas de biologia molecular (RT-PCR e sequenciamento).

PREVALÊNCIA DA BRONQUITE INFECIOSA NO BRASIL

A BIG é considerada endêmica no Brasil, com prevalências que chegam até a 85,42% em frangos de corte, sendo uma das principais enfermidades da avicultura atualmente.

No ano de 2012 foram colhidas mais de 400 amostras de frangos de corte, poedeiras comerciais e matrizes pesadas em várias regiões do país, com o objetivo de se pesquisar a presença de cepas não-clássicas (variantes) do VBIG e estabelecer o diagnóstico de bronquite infecciosa com base em técnicas de biologia molecular (RT-PCR e sequenciamento).

Nos quadros abaixo estão apresentados parte dos resultados obtidos com este trabalho, com amostras de órgãos de 45 lotes de matrizes pesadas e frangos de corte, todos com histórico de queda de parâmetros zootécnicos.

Na tabela 1 foi observado que 89% das granjas pesquisadas apresentaram positividade quando analisado para variantes, confirmando assim a alta prevalência de cepas variantes dentro de granjas no Brasil, demonstrada em trabalhos científicos recentes.

De acordo com a análise dos dados apresentados pela Tabela 2, as amostras de intestino apresentaram o maior percentual de positividade dentro os órgãos avaliados, seguidas pelas

tabela1

amostras de rins e de traqueias e pulmões. Esta análise sugere que estes são os materiais de eleição para amostragem e envio de material para diagnóstico laboratorial em frangos de corte. Devemos sempre realizar a colheita de vários tipos de órgãos para a pesquisa de VBIG, pois devido à grande variação de tropismo entre as cepas, podemos encontrar diferentes sistemas afetados. Amostragens restritas a um ou outro tipo de órgão podem gerar resultados falso-negativos.

A Tabela 3 demonstra que as amostras colhidas em lotes de matrizes pesadas apresentaram comportamento similar àquelas de frangos de corte, com o maior percentual de positividade para cepas variantes sendo observado nas amostras de intestino, seguidas pelas amostras de órgãos do trato respiratório e genito-urinário.

tabela2

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Bronquite Infecciosa das galinhas é uma doença de ocorrência mundial, com alta prevalência em todos os plantéis avícolas ao redor do globo. No Brasil, ainda é responsável por grandes prejuízos econômicos, principalmente em função de perdas provocadas por queda de performance e aumento dos percentuais de condenação no abatedouro, no caso do frango de corte. Em matrizes pesadas e poedeiras comerciais, o vírus é capaz de provocar quedas de produção e perda de qualidade dos ovos.

O tratamento com antibióticos visa diminuir os efeitos negativos das infecções secundárias causadas por bactérias presentes no ambiente de criação e evitar maiores perdas por condenações de abatedouro. No entanto, esta medida vem se tornando cara e muitas vezes inviável, pela limitação no uso destas drogas e a necessidade de observação dos períodos de carência (retirada do produto antes do abate).

A vacinação ainda é a medida mais efetiva e econômica, reduzindo a ocorrência de quadros clínicos e suas consequências. Os programas vacinais devem levar em consideração os desafios locais, o esquema de alojamento da granja ou reunião (idade única x idade múltipla) e as cepas disponíveis.

Atualmente são frequentes os casos clínicos mais tardios em frangos de corte, e uma vacina capaz de conferir proteção mais eficaz e duradoura, quando aplicada no primeiro dia, pode evitar os transtornos ligados a uma segunda dose de reforço no campo.

tabela3

 

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