Enterites em aves causadas por E. coli e salmonelas

  • Publicado em
  • Categoria

    Aves

Algumas lesões nas fases iniciais da vida das aves podem comprometer o bom funcionamento do trato gastrointestinal até o final da sua vida. Nos frangos de corte, os pintinhos nascem com o trato gastrointestinal anatomicamente completo, mas o amadurecimento total deste órgão só ocorre por volta dos 30 dias de vida da ave.

Nesse período, o intestino cresce cinco vezes mais que o resto do corpo e, na segunda semana, as vilosidades intestinais dobram de comprimento. Após os 30 dias de vida, o intestino das aves não se modifica mais, exceto no processo fisiológico de renovação celular, que ocorre a cada dois a cinco dias.

Levando-se em conta a idade de abate atual (cerca de 42 dias de idade), durante praticamente dois terços da vida do frango o trato gastrointestinal encontra-se em desenvolvimento. Desnecessário dizer que durante esse período de amadurecimento, todo cuidado é pouco. As gastroenterites nos primeiros dias de vida podem comprometer irreversivelmente o sistema digestório do frango de corte, incapacitando-o de realizar suas funções fisiológicas e predispondo a ave a ter gastroenteropatias irreversíveis, má digestão e má absorção pelo resto do ciclo produtivo. Dessa forma, é preciso garantir a manutenção da integridade intestinal para obter o máximo desempenho zootécnico.

Embora a microbiota intestinal seja estabelecida nas primeiras horas de vida, muitos microrganismos podem ser introduzidos no trato gastrointestinal por via oral, caracterizando-se como desafios à imunidade dos frangos.

Assim, ração, água de bebida, ambiente e outros animais que compõem o lote podem ser importantes fontes de infecção de bactérias patogênicas. O desequilíbrio da microbiota intestinal pode acarretar quadros de gastroenterite e consequente queda de produtividade do lote. Dessa maneira, é crucial a adoção de manejos e tecnologias estratégicas que objetivem a manutenção da estabilidade da microbiota e saúde intestinal.

A E. coli pode ser encontrada em grandes concentrações no intestino das aves. Esse número pode ser ainda maior em aves jovens, quando a microbiota normal ainda não está estabelecida. Desse total, 10 a 20% são sorotipos potencialmente patogênicos, liberados para o ambiente pelas fezes. Com essa excreção contínua de E. coli, sua distribuição se torna cosmopolita. As cepas permanecem nas criações por longos períodos contaminando o ar, a ração e a água, que servirão como via de disseminação.

A Escherichia coli patogênica para aves (APEC) é uma doença de alta relevância na avicultura industrial, podendo ser responsável por diferentes quadros infecciosos, atuando como agente primário ou secundário. A bactéria pode afetar praticamente todos os órgãos das aves, causando infecções intestinais e extraintestinais, conhecidas por colibacilose.

Vários estudos têm demonstrado a associação entre a presença de aerossaculite e o aumento da microbiota bacteriana patogênica em lote de frangos. Dentre essas bactérias patogênicas estariam a E. coli, o Campylobacter jejuni e a Salmonella spp..

Nas aves infectadas podem ser observados sinais clínicos inespecíficos, como desuniformidade do lote, aumento da mortalidade, sonolência ou prostração, baixo consumo de ração, queda no ganho de peso e diarreia. As lesões observadas nos quadros infecciosos são: enterite, artrite, onfalite, coligranuloma, salpingite, septicemia e aerossaculite.

Os prejuízos econômicos acontecem devido ao aumento da mortalidade embrionária, menor desenvolvimento das aves, aumento do índice de conversão alimentar e aumento da mortalidade e dos custos com medicamentos. A bactéria acomete as aves em todas as idades, porém a susceptibilidade das aves e a severidade da enfermidade são maiores em aves mais jovens.

Achados patológicos oriundos dessas lesões representam perdas consideráveis em abatedouros, principalmente quando a lesão é extensa, já que ocorre a condenação de vísceras e carcaças. Aliado a isso, aves com colibacilose podem apresentar menor conformação de carcaça, ocasionando uma série de falhas tecnológicas durante o abate, como cortes no trato digestivo, pois os equipamentos na linha de abate não se ajustam ao menor tamanho das carcaças. Este erro tecnológico leva ao aumento no percentual de contaminação fecal das carcaças e, portanto, maior risco de contaminação das mesmas por bactérias patogênicas.

Sesterhenn et al. (2014) identificou e quantificou as principais causas de condenações post mortem de aves e seus impactos econômicos em matadouros-frigoríficos sob inspeção estadual no Estado do Rio Grande do Sul, no período de janeiro a dezembro de 2010, segundo os critérios de condenações estipulados pela Coordenadoria de Inspeção de Produtos de Origem Animal (CISPOA). As principais causas por condenações totais foram: colibacilose (19,76%), contaminação (19,23%) e salmonelose (15,35%). Nas condenações totais, a colibacilose foi a causa mais predominante no presente estudo em virtude dos grandes prejuízos econômicos ocasionados.

Salmonellas spp. pertencentes ao grupo paratifoide infectam aves recém-nascidas, instalando-se no trato digestivo e mantendo-se até a idade de abate, contaminando as carcaças, equipamentos e pessoal de abatedouros e expondo a população a surtos de toxinfecção alimentar. A presença de Salmonella spp. e Campylobacter jejuni, além de comprometer a qualidade microbiológica da carcaça de frangos, impede a comercialização e exportação de produtos avícolas.

As salmonelas adaptadas a aves são enteropatogênicas e causam disenteria, febre tifoide e são capazes de induzir infecção latente por período indefinido (S. pullorum e S. gallinarum).

As salmonelas paratíficas são as que causam infecções principalmente em aves jovens, tornando-as portadoras assintomáticas. São assim consideradas todas as salmonelas que possam vir a infectar aves, desde que não sejam as do sorotipo Pullorum ou Gallinarum. No intestino, as salmonelas se multiplicam e podem produzir enterotoxinas, causar diarreia ou invadir a mucosa e causar lesões e perda de fluídos. Os sinais clínicos das aves infectadas por salmonelas paratíficas podem ser anorexia, aumento do consumo de água, diarreia, desidratação, sonolência, asas caídas, penas arrepiadas e diarreia profusa com emplastramento de cloaca.

A transmissão de salmonelose para as aves pode ser de forma vertical, via ovo, desencadeando pintos infectados, e pela transmissão horizontal com a ingestão de água ou ração contaminada, consumo de material fecal, cama ou poeira contaminada pelas vias oral, nasal, conjuntival, cloacal e umbilical.

No estudo realizado por Palmeira et al. (2007), foram isolados 280 sorovares de salmonela das carcaças de frango e peru no Programa de Redução de Patógenos (PRP-MAPA) na região sul do país. A maior prevalência ocorreu para a Salmonella enteritidis (55,7%). Nas carcaças de frango, a S. enteritidis alcançou 63,3% dos isolados, porém nas carcaças de peru este sorovar não passou dos 14%. Entre os estados do sul (PR, SC e RS), não houve diferenças nos isolados de S. enteritidis. Foram 25 sorovares de Salmonella sp. isolados das carcaças de aves. Desses, apenas 14 em perus e 23 nos frangos. A S. tenessee e S. enterica subespécie entérica foram isoladas somente em carcaças de peru e a S. hadar foi a mais prevalente com 18,6% dos casos.

A prevenção das salmonelose, pela sua complexa epidemiologia, deve contemplar programas que atuam nas diferentes fontes de infecção, tais como aves caipiras e silvestres, alimento, água, roedores, insetos, meios de transporte, meio ambiente e o homem.

Há participação de fatores de risco que podem contribuir para a ocorrência das enfermidades e os mesmos devem ser corrigidos para diminuir a incidência de novos casos. Portanto, as enfermidades que cursam com diarreia são de grande importância econômica já que apresentam efeito profundo no aumento da mortalidade, piora da conversão alimentar e redução do ganho de peso diário. A redução dos fatores de risco e de medicações preventivas via alimentação tem efeito positivo no controle das diarreias em aves.

Para prevenção e controle das salmoneloses e colibaciloses em aves, uma das ferramentas é o uso consciente e racional dos antibióticos. O uso de um antimicrobiano específico envolve conhecimentos da tríade: agente etiológico, antibiótico e o animal. Cada um dos componentes da tríade deve ser cuidadosamente analisado para o sucesso no controle ou tratamento da enfermidade.

 

 

Acompanhe
Clique e compartilhe