Enterite necrótica subclínica: Inimigo oculto?

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    Aves

Doenças do trato digestivo das aves, particularmente as que afetam o intestino, são de extrema importância econômica, pois prejudicam o desempenho produtivo, aumentando a conversão alimentar, reduzindo o ganho de peso e a produção de ovos. Uma vez que a ração representa mais de 65% dos custos totais de produção, qualquer fator que reduza a capacidade destes animais em transformar o alimento em carne e ovos, tem alto impacto sobre a viabilidade econômica de sua criação.

As bactérias do gênero Clostridium são as causadoras de diversas doenças importantes, entre elas a Enterite Ulcerativa, (C. colinum), a Enterite Necrótica (C. perfringens), a Dermatite Gangrenosa, (C. septicum e C. perfringens) e o Botulismo (C. botulinum). O C. perfringens também é reconhecido como causador da colangiohepatite em frangos e celulite em perus.

A Enterite Necrótica (EN) foi descrita pela primeira vez em 1930 e identificada no início da década de 1960. Apresenta-se de duas formas: a clínica, que é também a mais facilmente detectada, e a subclínica (ENS), muitas vezes subestimada. Não é fácil dimensionar as perdas ocasionadas pela ENS, entretanto, pela natureza toxigênica e insidiosa da bactéria e pela dificuldade em se monitorar o desafio, fica evidente sua importância para a avicultura comercial.

Estudos realizados na Europa no final da década de 1980 (logo após o banimento dos aditivos gram positivos) estimaram aumento da prevalência em mais de 40% em alguns casos, e prejuízos que podem ultrapassar a cifra de R$0,08 por ave abatida.

ETIOLOGIA E OCORRÊNCIA

A EN e a ENS são causadas pelas toxinas produzidas pela bactéria Clostridium perfringens. Estas bactérias são bacilos gram positivos, anaeróbios e capazes de formar esporos extremamente resistentes às condições ambientais. São habitantes normais do trato gastrointestinal (TGI) de aves e mamíferos. Contaminam calçados, roupas e são transportados por eles de um local a outro. Podem estar presentes em grandes quantidades no solo, na água e na maioria dos ingredientes utilizados na alimentação animal.

Trabalhos realizados em todo o mundo comprovam a presença de esporos em produtos utilizados na fabricação de rações, em quantidades que variam de acordo com a matéria prima considerada. Wojdat et al. (2006) detectaram C. perfringens em 38% das amostras de ingredientes utilizados na fabricação de ração para frangos de corte, sendo que os maiores índices foram observados em farinhas de origem animal, especialmente as de pescado (produtos com altos níveis de proteína).

Os esporos são resistentes à ação de agentes físicos e químicos, e permanecem no ambiente por longos períodos, sendo comuns os surtos recorrentes em galpões onde tenha ocorrido um quadro clínico, principalmente se a cama não tiver sido trocada.

O C. perfringens é classificado em cinco tipos distintos (A a E), de acordo com a toxina que produz (Tabela 1). As cepas dos tipos A e C são responsáveis pelos surtos de EN em aves. As cepas do tipo B são produtoras de toxinas que afetam os mamíferos.

Trabalhando com material colhido de intestinos de frangos de corte, Gomes (2007) isolou C. perfringens em 68,4% das amostras, sendo 60,8% tipo A e 32,2% tipo C.

A toxina Alfa é considerada o principal fator de virulência nos quadros de EN.

FISIOPATOLOGIA

Tanto a EN como a ENS afetam frangos de corte, poedeiras comerciais, perus, patos, codornas, avestruzes e aves selvagens, provocando perdas econômicas e problemas relacionados à questão de bem estar animal (aumento do percentual de mortalidade na forma clínica). Na União Europeia, McDevitt et al. (2006) constataram que a incidência das formas clínica e subclínica da doença aumentou após o banimento do uso de aditivos gram positivos na alimentação de frangos de corte, em índices que variaram entre 1% e 40%.

A ENS tem, provavelmente, um impacto financeiro mais significativo por não ser facilmente diagnosticada e pode provocar danos relevantes, reduzindo ganho de peso, produção de ovos e aumentando a conversão alimentar. McDevitt et al. (2006) afirmam que o principal sinal de ENS é o aumento das perdas por condenaçãono abatedouro, que podem chegar a 4% das carcaças (principalmente por problemas de pele) e 12% dos fígados.

A doença afeta aves entre duas e oito semanas, principalmente frangos de corte entre duas e três semanas, embora não sejam raros casos em galinhas de postura comercial com mais de cinco meses, ou frangas de reposição com 12 a 16 semanas. As aves afetadas podem apresentar curva de peso abaixo do padrão, alteração da mobilidade intestinal e aumento da taxa de mortalidade. Matrizes em recria podem ser afetadas e ter problemas com uniformidade com subsequente perda de produção.

Em quadros de ENS, podem estar presentes lesões macroscópicas no fígado (congestão, necrose focal ou multifocal, com aspecto “rendado”) e enterite inespecífica, que varia desde uma simples hiperemia até a forma catarral/mucoide em graus variados, afetando mais frequentemente o jejuno e o íleo.

Os quadros de colangiohepatite são mais facilmente percebidos no abatedouro. Alguns trabalhos de pesquisa desenvolvidos na União Europeia identificaram uma forte relação entre altos níveis de condenação de fígado e mal desempenho de lotes no campo, com perdas que variaram de 25% a 43%.

Muitas das toxinas produzidas pelo C. perfringens são enzimas cuja síntese é codificada por genes cromossomais ou plasmídicos. Sua expressão depende de múltiplos fatores, que vão desde condições ambientais (manejo), infecções intercorrentes (coccidiose, verminoses) até a presença de fatores antinutricionais na dieta (como aminas biogênicas, taninos e fibras não digeríveis).

O tipo de dieta provavelmente é o fator mais importante na ocorrência da ENS. Altos níveis de energia e proteína (ou desequilíbrio na relação entre estes dois componentes), matérias primas de origem animal e até mesmo a forma física da ração (peletizada x farelada) podem favorecer uma maior incidência da doença, assim como dietas à base de cereais como a cevada, trigo ou centeio, quando comparadas com dietas à base de milho e soja.

MONITORIA E CONTROLE

O monitoramento da saúde intestinal através de necropsias realizadas a campo nas idades-chave, em uma rotina preestabelecida, é também o método mais usado para acompanhamento da incidência de EN / ENS em aves de corte. Exames complementares realizados em laboratório são imprescindíveis para confirmação do diagnóstico (microbiologia, histopatologia, técnicas de biologia molecular e outras).

O acompanhamento dos índices de condenação no abatedouro deve ser permanente. Um histórico deve ser mantido e utilizado como banco de dados para análises comparativas quando ocorrem variações ou mudanças no padrão normal.

A contagem de C. perfringens é um método possível. Como regra geral, a contagem dos bacilos é muito maior no intestino de frangos que apresentam um quadro de coccidiose aguda do que em aves com baixo desafio por Eimeria. Entretanto, um maior número de bactérias por si só não significa que EN ocorrerá, já que nem todas as cepas são produtoras de alfa-toxina. A doença pode ser controlada ou prevenida pela redução de exposição a fatores de risco como a coccidiose e dietas não adequadas. A utilização de vacinas contra a coccidiose ou a adoção de programas de controle com o uso de ionóforos / químicos é essencial. O controle das matérias primas utilizadas na fabricação das rações e uma correta formulação são fatores determinantes na manutenção da integridade intestinal das aves.

A vacinação de matrizes com toxoides tipo A e C tem como resposta a formação de altos níveis de IgG específica, os quais são transferidos à progênie, conferindo proteção contra a ação das toxinas produzidas pelo C. perfringens.

A utilização de aditivos melhoradores de desempenho com ação sobre gram positivos continua sendo o método mais efetivo no controle das formas clínica e subclínica da Enterite Necrótica. Sua eficiência está relacionada à relação dose/resposta e à capacidade de atuar sobre os microrganismos, impedindo os danos sobre a mucosa intestinal.

CONCLUSÕES

  • A Enterite Necrótica Subclínica é um importante fator de perda de desempenho na criação de aves.
  • Esta forma da doença pode ter um impacto econômico significativo, uma vez que seu diagnóstico é mais difícil.
  • Fatores ligados ao manejo, ao controle da coccidiose e, principalmente, à dieta, são determinantes na ocorrência de surtos.
  • A utilização de matérias primas de boa qualidade e formulações equilibradas são ferramentas de controle.
  • O monitoramento da saúde intestinal através de necropsias a campo é fundamental para a identificação dos desafios.
  • O acompanhamento permanente dos resultados de performance, com manutenção de uma base de dados confiável, é necessário para uma correta tomada de decisão na alteração de programas e níveis nutricionais.
  • Fernando Vargas

    Fernando Vargas

    Médico Veterinário, Especialização em Agronegócio e MSc. em Patologia Veterinária. Gerente Regional de Vendas - Avicultura na MSD Saúde Animal

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