Desafios que a indústria avícola enfrentará até 2020

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    Aves

Nos últimos anos têm ocorrido uma grande expansão da produção agropecuária, em decorrência da crescente demanda de alimentos pela população. De um modo geral, esta demanda crescente de alimentos é conseqüência principalmente do crescimento populacional, do aumento da renda média da população e da urbanização. A Organização das Nações Unidas (ONU) projeta que haverá oito bilhões de seres humanos no planeta até 2030, com uma renda em média 32% maior do que aquela de 2006 e o consumo carne/pessoa/ano aumentará em 26% no mesmo período, sobretudo de frango. No entanto, estes não serão os únicos fatores que modularão a evolução da indústria avícola nos próximos anos. Também devem ser levados em conta os fatores técnicos e a evolução da ciência e da tecnologia, a disponibilidade de recursos naturais, a permanência de barreiras comerciais e o preço das matérias primas para a produção de ração para frangos (A FAO prevê que no período de 2010 a 2019 os valores dos ingredientes ficarão acima daqueles da média histórica). Por fim, haverá grande influência das exigências dos consumidores, cada vez mais preocupados com as questões relativas ao bem estar dos animais, a segurança alimentar e ao impacto ambiental da atividade.

Segurança Alimentar

Acompanhar essa demanda por alimentos mais seguros exige transparência e comprometimento, por parte de todos os envolvidos no processo de produção dos alimentos e dos governos. Haverá cada vez mais controle em cada etapa da cadeia de fornecimento de alimentos, enfatizando o monitoramento dos riscos, por meio de ações preventivas e corretivas (análise e monitoramento dos pontos críticos de controle), com maior acompanhamento da saúde dos plantéis. Com isso, é essencial a seleção mais criteriosa dos fornecedores de insumos, com enfoque na qualidade e não no custo, sendo necessários planos de avaliação e acompanhamento dos processos e dos materiais utilizados por esses fornecedores, tendo em vista os riscos químicos, físicos e microbiológicos.

Ambiência

O conforto térmico, no interior de instalações avícolas, é fator de grande importância, já que condições climáticas inadequadas afetam consideravelmente a produção das aves. Galpões convencionais sem o controle do ambiente serão menos recomendados, pois não permitem administrar variáveis ambientais importantes para o bom desempenho das aves. No interior de um galpão, 80% do calor gerado vêm das aves e a administração deste calor é fundamental para o desenvolvimento dos animais e para o melhor uso da energia naquele ambiente.

Formulação

As crescentes pressões pelo aumento dos custos dos ingredientes, pela redução dos custos das dietas e da excreção de nutrientes ao meio ambiente, definem as tendências para os próximos dez anos na avicultura. Nesse contexto, o uso de enzimas aumentará, pois melhora a digestibilidade e a absorção dos ingredientes. Da mesma forma, outros aminoácidos (além da metionina, lisina, treonina e triptofano) serão produzidos e suas inclusões serão econômicas nas formulações. A inclusão de micronutrientes será considerada, levando em conta a resposta imune dos animais. Neste segmento, aumentará o uso de minerais orgânicos e básicos, com comprovada origem, sem o risco de estarem contaminados com resíduos indesejáveis. Também um maior enfoque será dado aos fatores não nutricionais de alguns alimentos, que alteram a disponibilidade da energia e dos nutrientes. O processamento das dietas será mais sofisticado, sempre levando em conta o tratamento térmico e o tamanho das partículas dos alimentos.

Atualmente, com a evolução genética e a diminuição na idade de abate, o período embrionário já corresponde a 50% do ciclo de vida dos frangos. Portanto, as reservas de nutrientes dos embriões continuarão sendo críticas. Isto implica em um acompanhamento próximo da nutrição das reprodutoras e, em um futuro, na implementação da nutrição “in ovo” (nutrientes injetados no líquido amniótico no período final de incubação). Também dietas pré-iniciais diferenciadas serão mais consideradas, com o objetivo de dar suporte ao desenvolvimento dos animais nos primeiros dias de vida, que são determinantes para a continuação do desenvolvimento eficiente nas demais fases de produção.

Fábrica de ração

Ainda hoje os mercados de milho e de farelo de soja são de compra e venda de “commodities”. Dependendo da região do mundo estes dois insumos podem representar até 70% do custo total de uma fórmula de aves. Além do custo de cada um deles, é importante levar em consideração suas composições nutricionais que variam com os cultivares, com os processamentos, com o ano, com a densidade, com a presença de micotoxinas, etc. Estas variáveis podem afetar suas inclusões nas fórmulas, fazendo-as mais caras ou baratas, mais ou menos eficientes. Fica claro que além do custo, critérios qualitativos e quantitativos deverão ser levados em conta na hora da compra destes ingredientes. Para que estas diferenças sejam valorizadas, maiores serão os investimentos em silos, possibilitando a segregação dos ingredientes. Mesas densimétricas continuarão sendo implementadas, para separar partidas de milho com densidades (energia) diferentes. A transgenia continuará sendo discutida. Entretanto, novas variedades de milho serão disponibilizadas com baixos teores de fósforo fítico, favorecendo a absorção deste nutriente.

A necessidade de analisar cada lote de ingrediente, de modo que as formulações sejam mais precisas, estará cada vez mais evidenciada na utilização da tecnologia NIR, que permite a análise nutricional instantânea de cada lote de ingrediente, a avaliação do seu valor energético, sua composição e digestibilidade dos aminoácidos. Isto permitirá redução de custo de formulação hoje impossível de ser aproveitada por falta de estrutura nas fábricas de rações.

Emprego do Conhecimento disponível e inovação tecnológica

O progresso do conhecimento computacional permitirá a utilização de modelos de crescimento, que poderão interferir no crescimento de um animal quando submetido a determinadas condições de criação. Isto fará com que cada empresa estabeleça suas prioridades de produção e as formulações das dietas, “customizadas”, serão feitas de acordo com as diferentes necessidades. Além dos modelos de crescimento, modelos de simulação serão utilizados para avaliar riscos as características de desempenho.

Nestes próximos anos, muitos paradigmas terão que ser revistos pela indústria animal-avícola, tendo em vista a necessidade de compatibilizar sua produção com as exigências da sociedade, que busca alimentos saudáveis e que a produção seja feita por de mecanismos sustentáveis.

  • Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz Junior

    Antônio Mário Penz é Doutor em Nutrição Animal pela Universidade da Califórnia - EUA, Mestre em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Diretor Técnico da Provimi América Latina.

  • Daniel Gonçalves Bruno

    Daniel Gonçalves Bruno

    Atualmente trabalha na Provimi América Latina, com pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Graduou-se em medicina veterinária na USP e fez mestrado na mesma Universidade, na área de Nutrição e Produção Animal.

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