Aspectos importantes da relação nutrição e produção de ovos comerciais

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    Aves

Como resultado de intensivos programas de seleção genética, o potencial produtivo das poedeiras comerciais tem evoluído de forma fantástica nas últimas décadas. A cada nova geração, as poedeiras produzem mais ovos com menores consumos de alimento. Iniciam a produção mais precocemente, já com ovos de tamanho de maior valor comercial e, permanecem mais tempo mantendo maiores produtividades, sendo descartadas com idades superiores que 80 semanas. O objetivo final é a obtenção de maior número de ovos por ave alojada (OAA), com a menor conversão alimentar (CA) em Kg alimento/Kg ovos ou Kg de alimento/dúzia de ovos.

Por parte das aves, a contrapartida exigida é que as condições necessárias para esta máxima produtividade sejam atendidas. Estas pré-condições incluem: ambiente, alimentação, sanidade e manejo. Assim, o ambiente físico deve ser adequado em todos os aspectos relacionados aos requerimentos de temperatura, umidade, ventilação, espaço, qualidade do ar, luminosidade, etc. A condição de saúde deve estar assegurada por programas de bioseguridade, vacinações, seleção de fornecedores, uso de aditivos alimentares, etc. A adequada nutrição deve ser fornecida não somente pela fórmula da ração, mas principalmente pela qualidade de ingredientes, processos na fábrica de rações e manejo alimentar nas granjas. Porém, mais importante que os fatores vistos de forma individual, é a consideração das correlações entre estes fatores. Conhecemos e, portanto devemos considerar por exemplo, as interferências da genética sobre os requerimentos nutricionais das distintas linhagens. Sabemos a estreita correlação entre os requerimentos nutricionais de acordo com o estado sanitário das aves. Alinhamos o manejo nutricional com as características específicas de cada linhagem de aves e ao ambiente e a maneira de criação (ex.: piso ou gaiola). Consideramos a idade e produtividade para fazermos alterações nutricionais, etc.

Vários dos parâmetros acima listados (OAA, CA, etc.) fazem parte de índices zootécnicos comuns em relatórios de produção e aparecem publicados nas guias de manejo das empresas de genética. Porém, em determinadas situações, nem sempre o melhor resultado zootécnico traduz-se na melhor performance econômica. Portanto, quando definimos um programa nutricional (ou qualquer outro programa de produção), devemos considerar os objetivos econômicos, estes tão ou mais importantes que os objetivos zootécnicos.

Partindo deste ponto de vista, neste artigo compartilharemos os aspectos importantes desta relação “zooeconômica” entre a nutrição e a produção de ovos.

A importância da nutrição pré-inicial e inicial na produtividade de ovos:

Quando comparamos os parâmetros produtivos das atuais poedeiras “modernas”, com suas antecessoras de 20 ou 30 anos atrás, verificamos que houve uma grande evolução em termos de produtividade (Figura 1). E, se pudermos assinalar como principais fatores deste aumento de produtividade, fruto do trabalho de seleção genética, podemos destacar: maior precocidade, picos mais elevados e, maior persistência na produção de ovos.

O fato de as aves produzirem mais ovos e por mais tempo, torna obrigatório um bom desenvolvimento da franga nos períodos de cria e recria. Aves com deficiências no desenvolvimento corporal durante estas fases, resultam em poedeiras menos produtivas e que produzem ovos de menor tamanho. Com a maior precocidade para o início de postura, o período de preparo desta franga torna-se mais curto. Assim, necessitamos uma atenção ainda maior para que o melhor desenvolvimento das futuras poedeiras seja atingido o mais brevemente possível. Um trabalho clássico de Leeson & Summers do início da década de 90, já demonstrava os efeitos de baixos pesos corporais sobre o desenvolvimento da maturidade sexual (Tab.1).

Posteriormente, comprovou-se que o peso corporal ao final do período de cria, está fortemente correlacionado com os parâmetros produtivos durante o período de produção de ovos (Tab.2). É durante este período inicial que ocorre o desenvolvimento dos órgãos vitais, responsáveis pelo desenvolvimento subseqüente dos demais tecidos e órgão componentes da ave.

Se observarmos as curvas de peso corporal durante o período de cria e recria, é possível observar que nesta fase ocorre um grande ganho relativo de peso corporal. Se perdermos a potencialidade e importância do ganho de peso nesta etapa da vida, estaremos perdendo parte da capacidade produtiva da poedeira.

Em termos nutricionais, neste período de baixos consumos, podemos garantir o fornecimento de alimentos compostos por ingredientes de qualidade superior, de melhor digestibilidade, menor risco de variabilidade, livres de fatores antinutricionais e/ou tóxicos e, em uma apresentação física que permita uma maior ingestão de volumes de alimento. Alimentos formatados em “mini-pellets” e/ou “crumbles”, podem determinar maiores ganhos de peso corporal na fase inicial de vida da ave (Tab.4).

 

O adequado ganho de peso corporal durante a fase de cria e recria, possibilita o início da produção de ovos na idade correta e com os pesos de ovos que representem um maior valor comercial.

Nutrição para a máxima performance econômica na fase de produção:

Sabemos que os requerimentos nutricionais das aves devem ser satisfeitos diariamente. Estes requerimentos podem ser fornecidos por diferentes volumes de alimento, portanto, podemos definir a composição e o volume que represente o menor custo diário de alimentação. Mas estes valores de consumo que representam o menor custo de alimentação não são fixos, podendo sofrer alterações de acordo com o custo dos ingredientes, tipo de ração, produtividade e qualidade dos ovos, etc. Além disso, o valor comercial dos ovos pode determinar, dentro de certos limites, a composição nutricional que melhor otimiza a relação custo/benefício. Assim, de acordo com as matérias-primas disponíveis, seus respectivos preços, custos de produção e transporte,etc., podemos definir a densidade nutricional que melhor represente o custo de alimentação/ ave/dia, de acordo com o valor do mix de ovos que estiverem sendo produzidos e comercializados.

Quando definimos um programa nutricional com enfoque “zoo-econômico” tomamos em conta dois principais fatores:

  • a. Custo da alimentação
  • b. Valor dos ovos produzidos

O custo de alimentação é definido pelo preço de cada alimento fornecido às aves e seus respectivos volumes de consumo (Graf.1). O valor dos ovos é determinado pelo volume produzido, pela taxa de aproveitamento, classificação e, preços de cada categoria de ovos (Graf.2 e Tab.5).

No programa nutricional devemos contemplar ainda as mudanças das necessidades fisiológicas ao longo do período produtivo.

Em circunstância de diferenças nas taxas de produtividade, peso dos ovos, consumo de alimento e peso corporal, devemos ajustar a composição dos alimentos de forma que não haja deficiências nutricionais ou sobras excessivas.

As deficiências, mesmo que marginais, afetarão de forma negativa a produtividade da ave e/ou a qualidade dos ovos, enquanto “sobras” ou margens de segurança significam aumento de custo. Assim, programas de múltiplas fases possibilitam um melhor ajuste, tanto nutricional como econômico, além de promoverem menores oscilações na produção no momento de troca das rações (Figura 2).

Outra maneira bastante importante de reduzirmos as “sobras”, é por um monitoramento intensivo da qualidade e composição dos ingredientes utilizados para a produção das rações. Equipamentos analíticos como o Near Infra Red (NIR) traduzem-se como ferramentas valiosíssimas na determinação da composição de vários importantes nutrientes dos ingredientes de rações. O ajuste das matrizes nutricionais dos ingredientes, através da tecnologia NIR, podem representar significativas economias em termos de custo de alimentação das aves.

Considerações Finais:

Na visão simplista do leigo, formular rações para poedeiras poderia ser unicamente seguir as recomendações nutricionais das guias de manejo. Tabelas de composição nutricional encontram-se editadas em várias publicações, então a única ferramenta necessária seria um software de formulação, onde seriam informados os ingredientes disponíveis com seus respectivos preços. Mas, se considerarmos o alimento como principal componente de custo na produção de ovos, deveríamos dar atenção proporcional a este componente. Neste sentido, dada a importância da economicidade da nutrição na atividade de produção de ovos, é que cada vez mais o estabelecimento dos programas nutricionais seja realizado com o enfoque “zoo-econômico”. Desta forma, maximizamos a lucratividade ou, minimizamos as perdas em momentos de margens negativas.

  • Ricardo Ito

    Ricardo Ito

    Médico Veterinário pela Universidade Federal de Viçosa-MG, Pós-Graduação em Nutrição Animal - FMVZ USP e Consultor Técnico de Aves na Nutron Alimentos

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