Planejamento estratégico para a produção de carne bovina no Brasil

O crescimento da população mundial associado ao aumento do poder aquisitivo tem impulsionado a equação da oferta e demanda de produtos alimentares básicos, como trigo, soja, arroz, leite e carnes. Ao mesmo tempo em que a demanda por esses produtos aumenta nitidamente, no entanto existe uma tendência de diminuição das fontes produtoras em razão do aumento do cultivo de produtos não alimentícios. Esse contexto reforça a especialização dos países no aspecto produtivo, ficando o Brasil com a responsabilidade de produzir alimentos para grande parte do mundo.

As perspectivas do mercado agropecuário de 2010 a 2017 mostram a manutenção do Brasil na liderança mundial da produção de carne bovina, aumentando a participação de 27% para 32%. Houve um crescimento do rebanho na ordem de 7,8%, mesmo com a tendência de diminuição das áreas de pastagens. Isso implica aumento de produtividade, valorização crescente das terras e acirramento da competitividade do setor agropecuário.

Esse cenário exigirá um posicionamento empresarial dos pecuaristas que pretendem produzir bovinos nos próximos 10 anos em diante. Para tanto, será necessário transformar a estratégia do negócio em um diferencial competitivo, explorando as oportunidades e os pontos fortes da fazenda, além de corrigir e administrar os pontos de estrangulamento.

Produzir bovinos da mesma forma que outrora, nas mesmas condições dos vizinhos de cerca, da região, ou do estado, levará a um achatamento dos lucros e à perda de competitividade da fazenda. Por isso, além da eficácia operacional, com o emprego das melhores técnicas e a minimização dos custos, será imprescindível desenvolver uma série de atividades distintas daquelas comumente realizadas pelos demais pecuaristas para que seja estabelecida, na prática, uma vantagem competitiva.

O planejamento estratégico da produção de carne consiste em estudar, analisar e definir o posicionamento da fazenda em relação ao mercado no que tange qual item produzir e de que forma fazê-lo, estabelecendo um plano de ação para o desenvolvimento eficaz de cada área produtiva e gerencial da fazenda, bem como para cada elo da cadeia de valor. Assim, desde a compra dos animais e insumos, alimentação, manejo das pastagens, produção de volumosos, manutenção de máquinas e benfeitorias, certificação, mão de obra, alavancagem financeira, entre outros, até a venda dos animais, devem ser analisados para consolidação do negócio.

Quando colocamos esses dois pontos da estratégia em prática, conseguimos melhorar os resultados da fazenda aumentando a receita líquida da atividade, conferindo solidez ao negócio. O primeiro ponto da estratégia é dependente do segundo, pois o aumento de escala aumenta linearmente o poder de compra por meio de negociações de volumes mais expressivos, pagamentos à vista, ou até mesmo antecipados, e em alguns casos criando facilidades de parcelamento.

Um mecanismo muito utilizado para aumentar a escala de produção da fazenda tem sido a alavancagem financeira por meio do capital de bancos de investimentos em pecuária, sendo a Cédula de Produto Rural (CPR), a ferramenta mais usada. Dessa forma, o pecuarista coloca a estratégia de diminuição de custos em prática, orientando seu empreendimento a partir de um planejamento bem-estruturado que contemple tais ações.

Na implantação do planejamento, uma das técnicas de administração de projetos é o gerenciamento por exceção, que consiste em dar mais ênfase nos fatores mais importantes, sem deixar, no entanto, de considerar os demais. Na produção de bovinos, os animais representam a maior parte do capital mobilizado, seguido dos insumos alimentares, como pastagens, grãos e volumosos suplementares. Dessa forma, é essencial que essas áreas do projeto sejam bem estudadas e definidas com o objetivo de otimizar seu desempenho, podendo representar de 70% a 90% do negócio de produção de bovinos, variando conforme o sistema de produção adotado.

A estratégia de venda de animais por meio de contratos prefixados para épocas de maior valorização da arroba pode aumentar o faturamento em até 15%. A aquisição de fertilizantes, bem como, a compra de milho grão para a ração dos animais em épocas específicas pode trazer uma redução do custo total de produção da arroba de até 10%. Apenas esses dois fatores podem representar a linha entre o lucro e o prejuízo da atividade. Precisam, portanto, ser considerados em qualquer projeto de produção de bovinos.

Esse método possibilita utilizar todas as ações possíveis em um projeto, colocando o “planejamento” em prática, por meio do “fazer”, analisar os desvios com o “controle”, além de desenvolver ações corretivas a partir do “agir”.

Vimos, portanto, que o mercado do agronegócio está aquecido e que a produção de carne bovina no Brasil tem perspectivas muito atraentes. O posicionamento empresarial do pecuarista frente ao mercado, contudo, torna-se imprescindível para melhorar as margens de lucro e consolidar seu negócio, sendo o planejamento estratégico a principal ferramenta para atingir os objetivos de forma decisiva no sucesso da atividade.

  • Marco Aurélio Nunes

    Marco Aurélio Nunes

    Diretor de Projetos do Banco JBS, especialista em Gerenciamento de Projetos e Produção de Bovinos e médico veterinário.

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